“Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim?”

| 19 Fev 19

Acabo de sair do cinema. Fui ver Cafarnaum, de Nadine Labaki (a realizadora de Caramel). Um murro no estômago. Lágrimas me deslizam pela cara numa sensação de dor e raiva. A minha mão, segurando uma caneta, percorre a folha em branco. Pelo menos, palavras posso escrever. A escrita obriga-me a sair de mim. Na minha impotência sei que alguma coisa tem de ser feita.

O filme é passado nos bairros periféricos de Beirute, onde a miséria social e humana vai de par com a fealdade de uma paisagem devastada. A vista, obtida através de um drone, mostra a imensidão dolorosa desses bairros. Ali vivem os “descartados” da sociedade, nas palavras do Papa Francisco.

A câmara incide sobre o quotidiano de uma criança, Zain: um menino-homem de cerca de 12 anos, um lutador que trabalha nas ruas garantindo o pão para si e para seus irmãos mais novos: para sobreviver, rouba, mente, manipula. Cuida da irmã Sahar que é vendida prematuramente em casamento e posteriormente morre de parto, ainda uma criança. Cuida de um bebé de menos de um ano, filho de uma refugiada etíope, a troco de pão e de um tecto. Quando a mulher é apanhada numa rusga e fica na prisão por não ter papéis, é ele que, sozinho, garante a sobrevivência do bebé e de si próprio. A sua capacidade de resolver problemas é absolutamente notável.

Zain, apesar da miséria da sua vida, mantém a capacidade de se indignar, de lutar. Mas é um menino que não ri.

Um momento fulcral e pungente do filme é quando Zain leva os pais a tribunal, culpando-os de o terem trazido ao mundo sem condições para o criar. Na sua convicção e assertividade insiste no direito a não nascer. Àquele menino foi roubada a infância, foi abandonado e violentado, não conhece o direito a brincar nem a viver em segurança. Nem sequer o direito a ir à escola.

Finalmente são dados documentos legais a Zain. Um momento final patético: o fotógrafo quer um sorriso para figurar no cartão de identificação: um pungente sorriso forçado em resposta. Mas talvez haja alguma esperança para Zain. Ele não vai desistir.

Podemos decidir não ver este tipo de filmes para que não percamos o sono. Mas podemos escolher ver para continuarmos desassossegados e convidados a agir. Não haverá muitos meninos Zain entre nós?

Cafarnaumé o grito pungente de uma criança que não desiste de viver. Um crítico chamou-lhe um filme sobre a “pornografia” da pobreza. Detestei a metáfora. Mas as circunstâncias da vida de Zain são obscenas. Há neste filme uma força interpeladora que me lembra a cidade de Cafarnaumda Bíblia, uma das cidades por onde Cristo pregou e peregrinou antes de subir à cruz.

(O título é uma citação de um verso  de Augusto Gil)

Cafarnaum, de Nadine Labaki, é interpretado por Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw e Boluwatife Treasure Bankole

Prémio do júri do Festival de Cannes, 2018; nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior e membro do Movimento Graal de mulheres católicas

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