
Cerimónia de acolhimento ao Papa Francisco na Colina do Encontro no Parque Eduardo VII. Foto © Sebastião Roxo / JMJ Lisboa 2023
A recente entrevista ao senhor Patriarca, bem como tantas outras entrevistas e respostas, já feitas e dadas, lembram-me as palavras de D. Hélder da Câmara que fazem o título desta minha reflexão.
A começar pelas do Santo Padre; mas destas no sentido amplamente positivo: viu aqueles dias, sentiu, extravasou, incendiou. Já não tanto as outras, a começar pelas do Senhor Patriarca. Desta vez, dou os parabéns à Jornalista que fez perguntas certas, oportunas, pertinentes a quem devia: a um Pastor da Igreja e não tanto a Pastores da Igreja como se fossem sociólogos ou assistentes sociais.
A JMJ., bem como a sua preparação, cujos referentes primeiros sejam os católicos, não o são exclusivos; abrange o mundo e, neste, todo o ser humano, por ser simplesmente humano. Mas, quem acompanhou, minimamente, a sua notícia, a sua preparação, notou que só se começou a saber, a ter conhecimento e a tomar consciência da JMJ, após se salientar o “deus Mamona”- o preço dos altares.
Para preparar e dinamizar este Evento Universal, foi sagrado Bispo um Presbítero novo, dinâmico, simpático, inteligente, comunicativo, com todas as características humanas e pastorais requeridas, e, pelo seu curriculum, eu vejo nele o Dedo de Deus.
O Santo Padre, certamente, não acompanhou a par e passo a sua preparação; apenas recebeu o calor normal de uma multidão que veio, se juntou e uniu, não pela jornada, mas pela sua presença, motivada pela sua aura humana e pastoral que sempre irradiou através da sua vida. A sua presença foi a JMJ. Daí, que o senhor Patriarca tenha razão: “a centena de milhares de peregrinos que aqui vieram e que aqui testemunharam o que é a experiência única de fé, de esperança, de comunhão e de paz”. E continuam esta “experiência única” nas suas dioceses, nas suas paróquias?
Do que me constou, do que “observei da minha janela”- expressão do Santo Padre – a preparação, mesmo com a prorrogação do prazo, limitou-se à passagem dos Símbolos a deslocações do senhor Bispo, fora e dentro, inclusivamente a algumas passagens destes que se caracterizaram pela limitada presença e fria participação, inclusive no cântico do hino.
Eu, antes, pensei que o senhor Bispo se reuniria com os Bispos de cada diocese e estes com os seus Párocos e estes dinamizariam os seus paroquianos, particularmente os jovens, para a grande jornada, a começar pela passagem dos Símbolos.
De que preparação fala o senhor Patriarca, ao afirmar: “Não apenas a semana da Jornada, mas também todo o caminho percorrido de preparação se revestiu de um tempo de graça, de festa e de renovação da juventude portuguesa”? Continuamos no vago, nas palavras e até na poesia pastoral…
Quanto à pergunta do sucesso, o senhor Patriarca dá duas respostas: do passado e para o futuro. Do passado para a Igreja e para Portugal. Para a Igreja: alguém notou, pelo menos aos domingos, a sua participação, ao menos a sua presença? Na Paróquia, o Pároco tem alguma programação, iniciativa pastorais para manter o fogo da JMJ? . Verificou-se ” o enorme destaque, para o papel ativo da juventude católica portuguesa”? Não só dos católicos, mas de todos, “realidade… extravasou as fronteiras da religião”? Cabem aqui as suas palavras?” O que começou por ser uma experiência da comunidade católica, rapidamente se transformou numa realidade nacional e internacional que extravasou, em muito, as fronteiras da religião”. Nota-se?…
Quem constatou? “Há efeitos imediatos, como a tomada de consciência – dentro e fora da Igreja – da força, da energia e da criatividade imensa que existe nas bases, nos movimentos e nas dioceses de todo o País.” De concreto, salienta-se “apresentaremos contas até ao último cento” repetidas vezes e, agora, ” até deu lucro”. “(…) as contas da JMJ foram exemplares e apontam para um superavit”. E as ” contas” pastorais, alguém fala delas? “E essa marca tem, naturalmente, frutos que se manifestam, desde logo na vontade de continuar o trabalho de organização e de mobilização do conjunto de toda a Igreja”. Nota-se esta vontade?
Do futuro; falar do futuro, entende-se a partir do dia sete de agosto. Temos verificado que “essa marca tem, naturalmente, frutos que se manifestam, desde logo na vontade de continuar o trabalho de organização e de mobilização do conjunto de toda a Igreja.” Concretamente, o que mudou nas dioceses, nas Paróquias, no trabalho pastoral da juventude?
O Papa Francisco, pelo que viu, sentiu e viveu e levou consigo, tem razão para ficar feliz e dar os elogios que deu à organização, concretamente ao senhor D. Américo, rosto da JMJ. Mas, foi mais um rosto de logística ou de Pastoral Juvenil; dum sociólogo ou de um Apóstolo? De um economista ou de uma presença humano- Evangélica?
Como interpretar as recentes palavras, aquando da ida a agradecer a Jornada: “NÃO DEIXEIS QUE NADA SE PERCA DA JMJ”., pediu o Papa Francisco aos portugueses. – Lembrança? Simples aviso? Já admoestação? …
Temo que perante tanta inação e sossego nos seus elogios, a própria Igreja se torne num contrafogo ao incêndio que ele ateou.
Termino também com o Hélder que, brevemente, veremos nos altares: “Não basta pedir perdão pelos erros de ontem: É preciso apressar o passo, hoje, sem ligar ao que disserem”.
Serafim Falcão é professor aposentado do Ensino Secundário e autor de A Alegria do Evangelho na nossa Paróquia, baseado, motivado e inspirado na exortação apostólica do Papa Francisco. Contacto: s.m.falcao@gmail.com










