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Mulheres na igreja. Foto Craig Adderley de Pexels
"Apesar de tudo, nós, mulheres, sabemos que somos tão Igreja como vós. Continuaremos lá, construindo o Reino onde quer que a vida nos leve." Foto © Craig Adderley/Pexels

[Olhar de teóloga]

Mas precisam de nós

Escrevo esta crónica com a liberdade que advém de saber que sou tão filha de Deus como qualquer homem, e com a liberdade de o fazer depois de ter deixado claro que não quero ser sacerdote nem diácono e que defenderei o direito de outras mulheres poderem sê-lo, porque há algumas com uma vocação genuína. Sou batizada, e o batismo revestiu-me de Cristo, tal como faz com todas as pessoas batizadas. São Paulo diz-nos que em Cristo não há judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, mas todos somos um em Cristo (Gálatas 3, 28-29). No entanto, parece que alguns estão mais revestidos do que outras.

Tomámos conhecimento dos resultados do estudo que Francisco encomendou a uma comissão sobre o diaconado feminino há anos. O cardeal Giuseppe Petrocchi (1948), arcebispo emérito de L’Aquila e presidente desta comissão, enviou os resultados das suas investigações a Leão XIV há três meses, e agora o Papa decidiu tornar público este documento.

Importa esclarecer que este não é o resultado do Grupo de Trabalho nº 5 do Sínodo sobre a Sinodalidade, encarregado de estudar “Algumas Questões Teológicas e Canónicas Relativas a Formas Específicas de Ministério”. Tal como noticiado pelo Vatican News há pouco mais de um mês, o Grupo de Trabalho nº 5, no seu relatório provisório, afirmou: “[…] Em relação à questão do acesso das mulheres ao diaconado, tema para o qual o Papa Francisco ‘reativou’ os trabalhos da Segunda Comissão de Estudos, o relatório provisório explica que ‘todos os contributos resultantes dos trabalhos sinodais e relacionados com a questão levantada foram remetidos a esta Comissão – a mesma que submeteu a sua decisão a Leão XIV’. Os resultados dos trabalhos da Comissão serão divulgados em breve.”

Já os conhecemos, e lendo com atenção, faz lembrar muito a dança yenka. Muitos movimentos, mas, no final, permanecemos exatamente onde estávamos. Uns dizem que sim, outros que não, e, com todo o respeito, a questão delicada é passada ao Papa para que possa decidir com prudência.

Este documento, sob a forma de carta, é muito explícito nos resultados das votações e nas subsequentes referências à Comissão Teológica Internacional. No entanto, é surpreendente que, mais uma vez, recorram à masculinidade de Jesus Cristo como a razão mais poderosa – sacramental e antropológica. Se este é o principal argumento, e mesmo que estejamos a tentar reduzir o número de títulos e formas de tratamento na Igreja, creio que se deve acrescentar um, naturalmente, aos já familiares títulos de “Vossa Eminência”, “Vossa Excelência”, “Vossa Ilustríssima”… Esse título seria “Sua Masculinidade”.

Sei que nem todos os diáconos, nem todos os padres, nem todos os bispos e nem todos os cardeais partilham as opiniões desta Comissão. Além disso, sei-o por experiência própria e diretamente através de alguns, mas ainda temos um longo caminho a percorrer até expressarmos publicamente divergências de opinião que não comprometam a unidade ou a comunhão na Igreja. Para aqueles que se calam… Eles saberão!

A “Suas Masculinidades”, não creio que seja necessário dizer nada, porque eles acreditam tão fortemente no peso teológico dos seus argumentos que não consideram necessário ouvir aqueles que excluem e humilham com esses argumentos, mesmo que contradigam a teologia baptismal e a teologia paulina exposta na Carta aos Gálatas. Esta exclusão não contradiz a igualdade? Como é que eles explicam isso?

Deixais a porta aberta, “Suas Masculinidades”, para que outros ministérios sirvam a comunidade. Isso é bom, mas o que acham que as mulheres têm feito desde o início da Igreja? Até o diaconado que nos negam já foi vivido por muitas mulheres em diversos países, em vários continentes, porque, paradoxalmente, tanto na vida como na Igreja que procuram perpetuar, não nos querem nem nos respeitam, mas precisam de nós.

De certa forma, estão a dar um tiro no pé, porque reconhecem que existem diferenças entre aqueles que consideram o diaconado como um ministério e aqueles que o consideram como uma ordenação; e que, se a admissão das mulheres ao primeiro grau da Ordem fosse aprovada, a sua exclusão dos outros seria inexplicável. No fundo, vocês continuam movidos pelo medo das mulheres que, apesar das vossas afirmações, não conhecem nem querem conhecer.

Christian Bobin, filósofo e escritor francês que ganhou vários prémios, entre os quais o Grande Prémio Católico de Literatura, afirmou no seu maravilhoso livro, Le Très-Bas: “(…) Os homens, ao nutrirem um medo eterno das mulheres, condenam-se eternamente a quase nada saber sobre elas, a quase nada experimentar da vida e de Deus. Como são os homens que constroem as Igrejas, é inevitável que as Igrejas desconfiem das mulheres, assim como desconfiam de Deus, procurando dominá-las e a Ele, tentando conter o fluxo da vida dentro do prudente leito dos preceitos e dos ritos. A Igreja de Roma, neste ponto, é como todas as outras.”

Dizem que o juízo sobre o diaconado não é definitivo, mas esta expressão foi tão banalizada durante tanto tempo que já não pode ser utilizada como uma porta aberta à esperança, porque a transformaram numa sala de espera para muitas mulheres e para a própria Igreja. Parece que estão a brincar com o tempo, tal como estão a brincar connosco.

Tudo dependerá do que o Grupo de Trabalho nº 5 disser? O que quer Deus para a Igreja do terceiro milénio? O caminho da sinodalidade é o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio, disse Francisco no seu discurso sobre a comemoração do 50º aniversário da instituição do Sínodo dos Bispos (17 de outubro de 2015). Não podemos perder isso de vista. O Grupo de Trabalho ousará contradizer esta Comissão?

Apesar de tudo, nós, mulheres, sabemos que somos tão Igreja como vós. Continuaremos lá, construindo o Reino onde quer que a vida nos leve. Continuaremos na Igreja, que, repito, somos todos nós, embora talvez nem todos nos papéis que a maioria de vós gostaria que desempenhássemos. Porque muitas de nós conhecemos o lugar que o batismo nos indicou através da vocação pessoal que nos conferiu. Sim, esse batismo que nos reveste a todos e a todas – para que não haja dúvidas – de Cristo.

 

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