AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Mata-me, mãe

| 02/03/2024

Foto © Thomas Ashlock_Unsplash

O surf, que dava a vida a Tiago, foi o princípio do fim da vida dele e da sua mãe. Foto de arquivo © Thomas Ashlock | Unsplash

 

Tiago adorava a adrenalina de ser atropelado pelas ondas espumosas dos mares de bandeira vermelha. Poucos entenderão isto, à excepção dos surfistas. Como explicar a alguém a sensação de ser totalmente abalroado para um lugar centrífugo e sem ar, no qual os segundos parecem anos onde os pontos cardeais se invalidam? Como explicar a alguém que o limiar da morte é o lugar mais vital dos amantes de adrenalina, essa droga que brota das entranhas?

É ao espreitar a morte que se descobre a vida.

Desta vez, Tiago não venceu a batalha travada nas profundezas e, com os sentidos desligados, não voltou à superfície. Aquela era a última onda do set e no calmeiro do minuto seguinte, os outros surfistas repararam na prancha vazia a boiar em socorro. Resgatado e devolvido à praia, ia recuperando os sentidos enquanto bolsava a água que lhe entrara em demasia no organismo.

– Tiago Martins, 13 anos, acidente marítimo. – dizia o bombeiro à equipa médica enquanto empurrava, com urgência, a maca, hospital adentro.

O diagnóstico foi um tiro no peito de vidro da mãe do rapaz.

– A lesão atingiu a medula espinhal ao nível da cervical, Dona Ana. O seu filho está em estado de tetraplegia, mas ainda é cedo para conseguirmos dar detalhes mais pormenorizados sobre as consequências.

Ana não disse nada, parecia ter sido apanhada por uma avalanche e ficado submersa nos gumes da neve, os olhos gelados não choraram, petrificaram embaciados. Quando foi capaz de mexer os lábios, perguntou com a voz robotizada:

– O meu filho, doutor, não conseguirá voltar a mexer-se?
– Lamento, mas o seu filho não irá recuperar os movimentos. Estamos a fazer os possíveis para que continue a ser capaz de respirar por ele.
– E a cabeça? – perguntou com o resto da voz que sobrava.
– O cérebro não sofreu lesões. O seu filho mantém a percepção e consciência de tudo.

A mulher quis encaminhar-se para a porta, invadir o corredor dos cuidados intensivos para procurar o filho, mas já uma equipa especializada em histeria emocional se encarregava dela.

Frequentou a terapia pós-traumática com a mestria e assiduidade dos desesperados. Rezava na ânsia de encontrar, dentro de si, um perdão qualquer para dirigir à santidade. Inventava alegria – que jamais recuperou, de facto – para, na frente de Tiago, tentar devolver ao filho alguma esperança. Fazia tudo mecanicamente, já sem procurar o sentido que estava certa de não haver.

Abandonou o trabalho, os sonhos e os amigos. Abandonou o corpo e os cuidados. Murchou-lhe a alma e só o amor lhe servia de pálido combustível para suportar a sequência dos minutos.

“Mata-me, mãe”, dizia Tiago repetidamente. Aliás, desde o dia em que a prancha de Miguel o atingiu na coluna após uma manobra de surf mal calculada, era a única frase que o rapaz dizia. A mãe encostava-lhe o rosto ao peito, acariciava-lhe a face – o único lugar do corpo que lhe restava para sentir a vida – e chorava com ele.

– Mata-me, mãe. Se me amas, mata-me. – gritava com a raiva possível.
– Não posso, meu filho. Deus não me perdoaria.
– Puta que pariu Deus, mãe. Estás preocupada com o perdão de um Deus que me traiu? Se não me matares, odiar-te-ei com todo o pouco que me resta. Nem o desespero que sinto consigo mostrar, mãe. Mata-me, mãe. Por favor, se me amas, mata-me. – Implorava sem mãos em súplica. Só o olhar suplicava, em nome do resto do corpo.

Começou por cerrar os lábios sempre que a mãe tentava alimentá-lo, e então passou a ser alimentado por via venosa.

Ana apequenava-se cada vez mais sob as dores afiadas da incerteza. A quem cumprir? A uma lei feita e ordenada por quem nunca esteve no seu lugar? Ao Deus que condenou o seu filho ao mais indigno dos caminhos: nem morto, nem vivo; meio morto assistindo à vida pela tela de uns olhos húmidos que nem enxugar pode? Ou à última vontade de um menino que sonhava voar com asas nos pés, como nos tempos em que o mar perigoso era o seu melhor amigo?

– Mãe, quero morrer. Mata-me, mãe. Se me amas, mata-me.
– Morrerei contigo, meu filho. Seguiremos juntos para o lugar em que os corpos são leves e os corações se libertam. Vamos juntos, caso Deus queira tirar explicações, que seja comigo.
– Amo-te, mãe.
– Amo-te, filho.

Quando, pela tarde do dia seguinte, a equipa do serviço de enfermagem domiciliária chegou a casa do doente – para a consulta de rotina – encontrou a porta encostada. Entraram e, na cama de Tiago havia dois corpos abraçados e leves, lábios em sorriso aliviado, um copo esvaziado e duas palhinhas.

Do lado invisível do quarto, Tiago sonhava com ondas azuis e turbulência sob a qual era capaz de respirar. Matava saudades da adrenalina.

Ana, por sua vez, sonhava que o olhava – como há muito não fazia – desde o alto das falésias aos pés das quais o rapaz dançava com as ondas; então, sentiu Deus chegar-se para se sentar ao seu lado. Ia começar por lhe pedir perdão mas, antes de pronunciar qualquer palavra, Este irradiou um brilho quente que a envolveu e, nesse momento, a mulher ouviu-Lhe as palavras a dizerem que as leis do lugar da matéria não fazem parte das suas bênçãos.

– Amo-te, mãe. – Gritou Tiago acenando lá de baixo do mar.
– Amo-te, filho. – Respondeu a mãe do cimo da falésia.
– Amo-vos, filhos. – Rematou Deus, do seu lugar de origem.

 

Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros Em Breve, Meu Amor e O Homem do Trator.

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Depressa passas de bestial a besta”

[Lugar (in)comum]

“Depressa passas de bestial a besta” novidade

“Na era dos ecrãs e da comunicação imediata, construímos expectativas irrealistas, esperando infalibilidade de quem está sob o holofote. Chega a ser irónica a facilidade com que se eleva alguém a um estatuto quase divino para em seguida lhe ser exigido um comportamento humanamente irrepreensível.” [Texto de Júlia Costa]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber novidade

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This