“Matar os nossos deuses” – a propósito do Dia Mundial da Religião

| 14 Jan 2022

O imperador mongol Akbar

Ilustração: O imperador mongol Akbar (1556-1605) realiza uma assembleia religiosa no Ibadat Khana (Casa de Culto) em Fatehpur Sikri; os dois homens vestidos de preto são os missionários jesuítas Rodolfo Acquaviva e Francisco Henriques. (Imagem da Biblioteca Chester Beatty, Dublin)

 

 

Celebra-se neste terceiro domingo de janeiro o Dia Mundial da Religião, que promove a ideia da compreensão e a paz entre todas as religiões. Através de uma série de eventos realizados em todo o mundo, os seguidores de todas as religiões são incentivados a conhecer e a aprender mais acerca das outras religiões e respetiva fé. Reconhecendo-se que, durante séculos, as diferentes religiões e credos lutaram muitas vezes entre si, ignorando muitos dos seus valores comuns, torna-se, pois, necessário que se trabalhe em prol de um entendimento pacífico entre todos.

De facto, as religiões sempre foram foco de discórdia e conflito, promovendo por vezes o uso da violência em nome de Deus. No caso particular do cristianismo, estando atualmente dividido em três grandes grupos – católico, ortodoxo e protestante – com um sem número de diferentes denominações independentes com as suas referenciadas culturas, ritos e credos, sempre existiram focos potencias de discórdia e conflito. Mas será o sagrado violento por natureza? Será que o Deus das três religiões abraâmicas é deveras violento? Como interpretamos hoje a violência tantas vezes contida nos textos sagrados?

Sendo verdade que a religião tem sido muitas vezes instrumentalizada pelo poder político para fins violentos, o fenómeno da violência no religioso é também ele associado aos fundamentalismos, decorrente de leituras literais e legalistas dos textos sagrados. A imagética que se tem acerca de Deus, principalmente essa negativa e destrutiva, sempre tem acompanhado todo o processo de compreensão do transcendente. Seria necessário, como apontou o teólogo José Maria Mardones, “matar os nossos deuses”, de maneira que se possa aceder à verdadeira imagem de Deus, que para os cristãos é plenamente revelada através de Jesus. Perante a ideia de um deus irado e vingativo apresentado pelos seus conterrâneos, Jesus contrapõe um Deus de paz, amoroso e pleno de misericórdia para com todos.

Neste terceiro milénio, num mundo cada vez mais globalizante, impõem-se agora novos desafios às igrejas, onde o discurso religioso terá de se adequar à mentalidade pós-moderna, repensando muitas das suas metanarrativas e discursos dogmáticos, os quais estão muitas vezes na génese de movimentos fundamentalistas ultraconservadores.

Relembra-se o discurso proferido pelo antigo secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon na abertura da Semana Mundial da Harmonia Inter-religiosa, em fevereiro de 2013: “Para milhares de milhões de pessoas em todo o mundo, a fé é um alicerce essencial da vida. Ela proporciona força em tempos de dificuldade e um importante sentido de comunidade. A grande maioria das pessoas de fé vive em harmonia com os seus vizinhos, qualquer que seja o seu credo, mas cada religião também abriga uma estridente minoria preparada para afirmar doutrinas fundamentalistas através do fanatismo e violência extrema. Estes actos são uma afronta à herança e aos ensinamentos de todas as grandes religiões. Eles também violam a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que afirma o direito de todos à liberdade de pensamento, consciência e religião. É imperativo que a maioria moderada se habilite de forma a permanecer firme contra as forças do extremismo. Mas, isto só pode ser alcançado através de uma forte liderança.”

Para tal, torna-se assim, mais do que nunca, necessário persistir na importância do diálogo interconfessional entre todas as religiões como ação profilática contra a violência. Relembrando uma das grandes teses do teólogo Hans Küng: “Não há paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não há paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Nenhum diálogo entre as religiões sem investigação da fundação das religiões.” (O Cristianismo. Essência e História, Círculo de Leitores, 2002)

Dos vários modelos propostos para o diálogo inter-religioso, não poderíamos deixar de destacar o do próprio Jesus. Sendo ele próprio um judeu, cuja religião sublinhava a eleição exclusiva dos judeus como povo de Deus, não deixa de ser marcante que, durante o seu ministério, tenha estabelecido encontros com uma mulher fenícia e com uma samaritana. Uma das suas mais célebres parábolas, a parábola do Bom Samaritano e até a referência que Jesus fez acerca da fé de um oficial romano deixam, desde logo, exemplos notáveis da sua abertura aos pagãos.

O anúncio do Reino de Deus por Jesus, cujo manifesto não é tanto um conjunto de crenças ou dogmas – algo que por vezes promove barreiras, cismas – mas o paradigma da sua própria vida, a proclamação das boas novas em favor dos pobres e oprimidos (Evangelho de Lucas 4:16-19), abre as pontes para o diálogo, a paz e concórdia entre as religiões. Afinal a compaixão, umas das características mais marcantes da pessoa de Jesus e objeto da Sua mensagem, poderá ser, assim, um grande polo de união entre as diferentes religiões na luta contra a pobreza, o analfabetismo, o trabalho infantil, o assédio às mulheres, o terrorismo, a destruição do meio ambiente e a exploração dos marginalizados, incluindo os emigrantes.

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona

 

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel

Reino Unido

Judeus do Partido Trabalhista atacam política de Israel novidade

Glyn Secker, secretário da Jewish Voice For Labor – uma organização que reúne judeus membros do Partido Trabalhista ­–, lançou um violento ataque aos “judeus que colocam Israel no centro da sua identidade” e classificou o sionismo como “uma obscenidade” ao discursar no dia 10 diante de Downing Street, durante um protesto contra os ataques de Israel na faixa de Gaza.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Evento "importantíssimo" para o país

Governo assume despesas da JMJ que Moedas recusou

A ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, chegou a acordo com o presidente da Câmara de Lisboa sobre as Jornadas Mundiais da Juventude, comprometendo-se a – tal como exigia agora Carlos Moedas – assumir mais despesa do evento do que aquela que estava inicialmente prevista, noticiou o Expresso esta quarta-feira, 3.

Multiplicar o número de leitores do 7MARGENS

Em 15 dias, 90 novos assinantes

Durante o mês de julho o 7MARGENS registou 90 novos leitores-assinantes, em resultado do nosso apelo para que cada leitor trouxesse outro assinante. Deste modo, a Newsletter diária passou a ser enviada a 2.863 pessoas. Estamos ainda muto longe de duplicar o número de assinantes e chegar aos 5.000, pelo que mantemos o apelo feito a 18 de julho: que cada leitor consiga trazer outro.

Parceria com Global Tree

JMJ promove plantação de árvores

A Fundação Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023 e a Global Tree Initiative estabeleceram uma parceria com o objectivo de levar os participantes e responsáveis da organização da jornada a plantar árvores. A iniciativa pretende ser uma forma de assinalar o Dia Mundial da Conservação da Natureza, que se assinala nesta quinta-feira, 28 de julho.

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

Nos 77 anos do ataque atómico

Representante dos sobreviventes de Nagasaki solidário com a Ucrânia

“Apelo a todos os membros” do Parlamento japonês, “bem como aos membros dos conselhos municipais e provinciais” para que se “encontrem com os hibakusha (sobreviventes da bomba atómica), ouçam como eles sofreram, aprendam a verdade sobre o bombardeio atómico e transmitam o que aprenderem ao mundo”, escreve, numa carta lida nas cerimónias dos 77 anos do ataque atómico sobre Nagasaki, por um dos seus sobreviventes, Takashi Miyata.

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Resgatadas 29 pessoas

Mar Egeu: dezenas de pessoas desaparecidas em naufrágio

Dezenas de pessoas estão desaparecidas depois de um barco ter naufragado no mar Egeu, na quarta-feira, ao largo da ilha grega de Cárpatos, divulgou a ACNUR. A embarcação afundou-se ao amanhecer, depois de da costa sul da vizinha Turquia, em direção a Itália. “Uma grande operação de busca e resgate está em curso.”

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This