“Mater”, subtil e suave maternidade

| 31 Dez 19 | Cultura e artes - homepage, Newsletter, Últimas

 

A ideia nasceu de um movimento duplo: o pintor Avelino Leite, 66 anos, manifestara já o “desejo de expor em Roma”. E, através de amigos comuns, conversou com monsenhor Agostinho da Costa Borges, reitor do Instituto Português de Santo António de Roma (IPSAR), recebendo incentivos de várias pessoas a que avançasse com uma ideia. Nasceu daí a exposição Mater, que até dia 6 de Janeiro ainda se pode visitar nas instalações do IPSAR, em Roma. Uma proposta subtil e suave sobre a maternidade.

“Gosto de fazer uma exposição específica para um sítio, para ser um acontecimento para um determinado lugar e com objectivo e características próprios e homogeneidade do conjunto”, diz o pintor ao 7MARGENS.

Visitação, por Avelino Leite, na exposição Mater

 

O facto de a sua mãe ter completado 100 anos este ano também não terá sido alheio à escolha do tema: “Teve muito a ver, é um pequeno acto de gratidão”, que se manifesta nas obras da última parte da mostra, com o título Filius. A mãe é um tema mais abrangente que outros e surgiu-lhe naturalmente ao longo dos quase dois anos que durou a preparação da mostra.

Pietá, por Avelino Leite, na exposição Mater

 

Uma das telas (as obras são todas em acrílico sobre madeira) mostra uma Pietá, um símbolo do apoio que a mãe deu ao pai, decisivo antes da morte do pai, há 12 anos. Uma outra é como que um Pentecostes com uma figura única de mulher e oito línguas de fogo, os oito filhos que a mãe do pintor teve. “Estou convencido de que ela [a mãe] desejava muito fazer 100 anos; no dia seguinte, percebemos que ela achou que tinha cumprido um objectivo.”

Avelino Leite, pintura alusiva aos filhos que teve a mãe do pintor

 

Em ambas as obras referidas, como em todas as 60 que compõem estas exposição, o traço conjuga cores suaves e fortes com a delicadeza do movimento, em alguns casos numa subtil insinuação. A delicadeza, admite o artista, remete também para a ideia da mãe e da mulher.

Reflexão visual e estética sobre a vida de Maria de Nazaré, mulher e mãe, Mater foi produzida ao longo de 2019 e parte a oração da Avé-Maria nas suas diversas frases. “É a estrutura ideal para esta exposição. A partir daqui transpus para pequenos quadros os principais passos de Nossa Senhora enquanto Mãe de Jesus e nossa Mãe, aquela a quem recorremos ‘agora e na hora da nossa morte’”, diz Avelino Leite.

Imagem da capa do catálogo “Mater”

 

No texto de apresentação que também escreve no catálogo, o padre Agostinho Borges acrescenta que o título evoca também, no contexto de Roma, o da presença portuguesa na cidade: no século XIV, uma tal Guiomar, de quem se sabe “quase nada”, fundou o primeiro hospital para os peregrinos portugueses na cidade, tornando-se “como uma mãe para estas pessoas que, movidas pela fé, chegaram a Roma e no seu coração acharam uma casa e um amparo”. E o bispo auxiliar de Lisboa, Daniel Henriques, que escreve o texto de apresentação da exposição no catálogo, considera que ela é “uma visita encantadora e provocante à alma do seu autor enquanto filho, crente e português”. 

Várias dessas dimensões estão presentes nas obras que compõem Mater: a subtileza feminina, a discrição, a elegância, o acolhimento, o colo e o abrigo. Que vão desde a concepção no ventre até à Pietá referida, passando pela participação de Maria na protecção do seu filho ou na presença junto da cruz e nos momentos ligados à Paixão, representados em várias obras.

Avelino Leite, Mistérios Dolorosos – A crucificação de Jesus (2010)

 

Não é a primeira vez que Avelino Leite aborda estas temáticas. Já em 2010, por exemplo, nessa ocasião por encomenda da Conferência Episcopal Portuguesa, o artista pintara 20 aguarelas com os mistérios do Rosário – gozosos, dolorosos, gloriosos e luminosos – que depois seriam oferecidas ao Papa Bento XVI, na altura da sua visita a Portugal. Embora a temática fosse quase toda ela ligada à figura de Jesus, também essa obra tem uma componente mariana por razões óbvias.

Outra característica desta mostra é a reduzida dimensão das obras que a compõem. José Manuel Tedim, da Universidade Portucalense, que escreve um texto de apresentação no catálogo, diz que, com elas, “o artista convida-nos a reflectir sobre o valor simbólico das mensagens bíblicas, transformando-as em obras grandiosas, repletas de mensagens cristãs convidando-nos a, em silêncio, meditar sobre a grandeza dos valores cristãos nelas reflectidos”. E acrescenta que a propósito desta “arte do pequeno” se pode quase falar de “ícones bizantinos”.

Anunciação, por Avelino Leite, na exposição Mater

 

“Ultimamente comecei a pintar em pequeno: há uma espécie de fundamento histórico para objectos artísticos com dimensão reduzida, por causa da ideia de viagem”, recorda. O que também acaba por ser a circunstância desta mostra, já que as obras tiveram de viajar de Portugal para Roma.

Fátima é, aliás, uma referência mais evidente em algumas das peças, alusivas à frase “rogai por nós, pecadores”. “Fátima é um lugar de gratidão, onde as pessoas vão pedir e agradecer”, por isso a relação da frase com os acontecimentos da Cova da Iria. Aliás, a exposição pode ainda viajar também até Fátima, naquela que é, para já, uma ideia “ainda vaga” e sobretudo um desejo do artista. Até porque teria de ser reformulada – mas nunca “desmembrada”, com as peças cada uma em seu sítio…

 

Mater – Pinturas de Avelino Leite

Istituto Portoghese di Sant’Antonio di Roma

Via dei Portoghesi, 2 – Roma

Até 6 de Janeiro, todos os dias, das 9h30 às 19h

www.ipsar.org

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