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Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro a brincar com Deus (até domingo)

| 23/10/2019

Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro a brincar com Deus (até domingo)

by | 23 Out 19 | Artes, Cultura e artes - homepage, Newsletter diária - título, Últimas

Henri Matisse, Casula rosa (verso), 1951, seda bordada. Capela Dominicana de Vence. Foto © António Marujo

Restam ainda alguns dias (até domingo, 27 de Outubro) para ver a exposição Brincar Diante de Deus – Arte e Liturgia: Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro, no museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (Praça das Amoreiras, Lisboa). O aliciante principal da mostra, que apresenta obras criadas para o culto e o espaço litúrgico, é o de se poderem ver os paramentos que Lourdes Castro concebeu para a Capela Árvore da Vida, no Seminário de Braga (2012-15) ou as vestes litúrgicas criadas por Matisse para a Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Vence (1949-51), normalmente resguardadas do olhar do público.

Também os vitrais projectados por Vieira da Silva para a Igreja de Saint-Jacques de Reims (1966) e os painéis da mesma artista para a capela do Palácio do Marquês de Abrantes, em Lisboa (1982-86) estão expostos nesta mostra original.

A exposição coloca desde logo o problema da identidade das obras. Escreve o curador Paulo Pires do Vale num dos textos do catálogo: “Que estatuto têm estas peças? São obras-de-arte, se têm uma funcionalidade – ou faz ainda sentido essa questão? Não será a liturgia uma forma de performance – e a origem dela? É a arte liturgia ou a liturgia uma forma de arte? E como fica o lugar-comum que afirmou repetidamente a separação entre arte e religião no último século?” Enfim, “pode vestir-se” uma obra de arte?

Estamos, de facto, perante uma experiência sensorial, que corresponde à dimensão física desde sempre presente na liturgia (cristã, no caso): os movimentos, o ajoelhar ou levantar, o incenso e os perfumes, o pão e o vinho, o canto e a música, o levantar das mãos, a refeição original que se mantém no comungar dos símbolos do pão e do vinho…

Lourdes Castro, Lâmina de ágata e Casulade linho natural, 2012-16. Seminário Conciliar de Braga. Foto © António Marujo

 

Desde logo, a dimensão física aparece evidente nas casulas e alvas de Matisse e Lourdes Castro, mas também nas lâminas de ágata da artista portuguesa e na bolsa rosa do artista francês. Mas também na relação com o espaço que a maquete da Capela Árvore da Vida permite adivinhar (ou recordar, a quem já esteve nesse lugar litúrgico encantado do Seminário de Braga). Ou no despojamento da proposta de Lourdes Castro para as casulas, evidenciado na carta (também exposta) enviada ao padre Joaquim Félix: “Primavera – algodão; Verão – linho; Outono – sêda; Inverno – lã. Só quatro tecidos diferentes, sem nada mais, nenhum desenho, nenhum bordado, liso, branco, apenas a diferença da matéria do fio, a diferença no branco do fio, do cair do tecido. Um debruo de bainha à volta, sem mais nada para receber toda a luz à volta!”

Henri Matisse, Casula rosa (frente), 1951, seda bordada. Capela Dominicana de Vence. Foto © António Marujo

 

Perguntas como as já indicadas são eternas: o que é uma obra de arte litúrgica? O que faz de um espaço ou projecto à partida indefinido uma igreja ou capela capaz de nos extasiar – ou de nos fazer fugir dele? O que torna uma obra de arte sacra ou litúrgica num objecto que nos prende o olhar e nos leva à contemplação ou ao espanto?

Chegamos também à questão da utilidade litúrgica (ou da utilidade da obra de arte, afinal equivalentes): afinal, para que serve aquilo que, à partida, não se destina a ser útil mas a ser apenas um balbuciar acerca do indizível? Há utilidade na forma como nos detemos a contemplar uma paisagem, um gesto nobre uma música que nos transcende, um movimento desportivo mágico ou invulgar? De que nos falam estas casulas que esvoaçam suspensas, como remetendo para um espírito que paira sobre nós?… Ou as pedras, que nos recordam o contacto perdido com a natureza? Ou os vitrais como a luz que nos ilumina ou atordoa?…

Todas essas perguntas renascem diante dos objectos que aqui nos são mostrados. E, com elas, chegamos enfim ao título da exposição, retirado do teólogo Romano Guardini, objecto de um pequeno ensaio do padre Joaquim Félix, e citado por Paulo Vale, quando afirmava: “Viver liturgicamente, é (…) tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e ‘fazer-se criança’. (…) Não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia.”

Brinquemos, pois, enquanto há tempo.

Vieira da Silva, Notre Dame du Rosaire, 1983, óleo sobre cartão. Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva. Foto © António Marujo

 

Brincar Diante de Deus – Arte e Liturgia: Matisse, Vieira da Silva e Lourdes Castro

Museu da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva – Praça das Amoreiras, 56 – Lisboa

Tel. 213 880 044/053; fasvs@fasvs.pt; www.fasvs.pt

Até domingo, 27 de Outubro, todos os dias, 10h-18h

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