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Igreja Católica – que caminhos de futuro? (Debate – 2)

“Mea culpa” público, cicatrizar feridas

| 03/04/2023

O catolicismo vive uma crise profunda, apesar de continuar a ser para muitas pessoas um espaço vital de busca de sentido e experiência de fraternidade. As situações de abusos de poder e violências sexuais vieram evidenciar problemas sistémicos. Em Portugal, depois de terem criado uma Comissão Independente (CI) para estudar os abusos sexuais sobre crianças, os bispos ficaram na indefinição sobre o que fazer com o panorama posto a nu pelo relatório da CI. Perante a perplexidade que tomou conta da sociedade e de muitos crentes, o 7MARGENS convidou católicos a partilhar leituras da situação e propor caminhos de futuro, a partir de três perguntas:

  1. Quais são os pontos que considera centrais nas medidas a assumir agora pela Igreja, para ser fiel ao Evangelho e ser testemunho de Jesus Cristo na sociedade? A quem cabe concretizar e liderar a aplicação de tais medidas?
  2. Considera que faria sentido que os batizados se encontrassem e se escutassem sobre essas tarefas e desafios que se colocam à comunidade eclesial, a nível diocesano e/ou nacional? Como? De que formas?
  3. Que contributo(s) estaria disposto a dar para que a Igreja, os católicos e as suas comunidades adotem um caminho centrado no Evangelho em ordem a superar a prática de abusos?

 

Disponibilidade para ajudar a cicatrizar feridas

Nesta segunda resposta, Joana Rigato, doutorada em Filosofia e professora no ensino secundário, que já integrou a Comissão Nacional Justiça e Paz, da Igreja Católica, sugere a importância de um “mea culpa” público da hierarquia católica e da escuta das necessidades de cada vítima. 

Homossexualidade

“Penso ser urgente a Igreja abandonar a doutrina sexual repressiva que tem (sobre a vida sexual dos homossexuais, dos solteiros, dos separados, dos recasados….)”. Foto © Alessandro Alle / Pixabay

 

1. A Conferência Episcopal teria de dar uma mensagem inequívoca de assunção de responsabilidade pelo encobrimento dos casos de abuso de que teve conhecimento. Perante a sociedade, não pode haver uma mensagem de autodesculpabilização. A responsabilidade de cada crime é do padre criminoso, mas qualquer elemento da hierarquia que tenha encoberto, que tenha tirado o padre de uma paróquia para o pôr noutra, é cúmplice de qualquer abuso futuro por parte deste padre e é isso que tem de ser dito e assumido, num “mea culpa” público.

Perante as vítimas, teria de haver o pagamento dos encargos com processos de terapia para superação do trauma durante três anos, pelo menos. Para além disso, para quem quisesse, deveria haver um pedido de desculpa pessoal por parte de quem a pessoa quisesse (o padre abusador, o responsável da hierarquia que encobriu o caso, etc). Cada caso é um caso, mas a disponibilidade deveria ser transversal a todos para dar à vítima um momento terapêutico no sentido de receber um pedido de desculpas formal, do formato que sentisse que precisa, para ajudar a cicatrizar a ferida.

Para além disso, penso ser urgente a Igreja abandonar a doutrina sexual repressiva que tem (sobre a vida sexual dos homossexuais, dos solteiros, dos separados, dos recasados…) e que, se já lhe retirava credibilidade perante a sociedade antes, agora constitui mesmo um atestado de hipocrisia que é profundamente embaraçosa para mim, por exemplo, enquanto cristã. Não há qualquer hipótese de esses princípios de castidade e abstinência preconizados poderem ser mantidos sem se tornarem ridículos e absurdos no contexto atual.

2. Não. Para quê? Quem tem de mudar de atitude é a estrutura hierárquica da Igreja, que não é democrática. A comunidade dos fiéis, no geral, está sensível e solidária, e acredito que as vítimas já devem sentir esse amor.

3. Não creio que haja nada que eu possa fazer, a não ser não bater com a porta definitivamente.

 

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