Média, religião e política

| 8 Mar 2022

Cândido Portinari, Painel da série Guerra e Paz (1952-56), óleo sobre madeira compensada.  https://acervodigital.unesp.br/handle/123456789/66462

Cândido Portinari, Painel da série Guerra e Paz (1952-56), óleo sobre madeira compensada: os painéis foram encomendados pelo Governo brasileiro para presentear a sede da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque. Utilizando o tema intemporal dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, representa a guerra de maneira simbólica, através do sofrimento do povo, e não de maneira realista, através de soldados em combate. 

 

Um levantamento recente feito para o jornal Metrópolis (Brasil) mostra que dos 10 influenciadores cristãos mais seguidos na rede social Instagram, oito são evangélicos e dois são católicos. Do mesmo modo que no passado líderes religiosos marcaram presença nos canais tradicionais de rádio e TV, hoje participam das mais diversas redes sociais, mas com o detalhe importante de que a tecnologia tornou, em certo sentido, essa participação democrática e personalista; não é necessário falar em nome de uma denominação religiosa para ensinar, pregar ou exercer influência sobre os internautas, os quais também se dispersam neste universo virtual. 

Deste modo, observamos que a religião não se caracteriza mais por limites fronteiriços. Outro detalhe importante é que, dada esta característica de participação personalista, aqueles que estão em posição de influenciar, sentem-se à vontade quando o assunto é ativismo político-religioso, visto que não têm mais a preocupação de proteger uma instituição, ou mesmo as instituições religiosas não se veem como co-responsáveis das posições assumidas por seus membros. 

O resultado da última eleição presidencial brasileira, em 2018, foi potencializado pelos discursos dos evangélicos nas redes sociais. Mas não é objetivo responsabilizar esse segmento religioso pela guinada autoritária do Brasil, principalmente porque numa sociedade em rede, onde a comunicação, a temporalidade e a coexistência espacial são fragmentadas no hipertexto eletrônico, os indivíduos e grupos elaboram e reproduzem visões de mundo, sem necessariamente pertencerem a uma tradição religiosa, mas apenas por estarem apegados às estruturas tradicionais que estão a desaparecer no mundo contemporâneo. 

É normal dizer-se que as instituições estão em crise, que as figuras heroicas, tais como construídas no passado, como símbolo de fortaleza e triunfo sobre o mal, já não fazem mais sentido em um mundo que nunca saiu da guerra; e, assim, com a perda de modelos num mundo que se move a toda velocidade, perdem-se também elementos identitários, relacionais e comunitários, especialmente nos espaços virtuais, onde cada indivíduo constrói sua própria narrativa sobre o mundo sociopolítico em que vive. Deste modo, numa tentativa de resgatar aquele lugar antropológico, “princípio de sentido para aqueles que o habitam” (Augé, 1994, p.51) brotam, como ervas daninhas, expressões violentas e autoritárias que encontram força nos discursos de unidade do povo, nos símbolos nacionais, nos valores morais e religiosos. 

Estamos novamente em um ano de eleição presidencial, mas não distantes de um ativismo político-religioso ultraconservador, cujo campo de influência é bastante amplo; o pastor André Valadão e o pastor Silas Malafaia, por exemplo, estão entre aqueles influenciadores evangélicos destacados na pesquisa para o jornal Metrópolis. Em janeiro, Valadão realizou a Conferência Governe, em Orlando (EUA), onde reuniu personalidades (evangélicas e católicas) para discutir valores cristãos na política. Segundo Ronilso Pacheco, o evento se aproxima em ideia da conferência “América Fest”, promovida pela organização de jovens ultraconservadores Turning Point USA, que já teve como convidado Kyle Rittenhouse, um jovem de 19 anos (à época com 17 anos) que matou dois manifestante durante os protestos do movimento “Black Lives Matter” em 2020, mas foi inocentado pela justiça americana. Não é preciso dizer o quão assustador é e pode ser quando a religião é capturada por vieses fundamentalistas, pois em vez de fazer viver, ela mata. Assim, é preciso estarmos atentos a esses arranjos político-religiosos que repercutem nacional e globalmente graças às redes sociais.

Referências
Marc Augé, Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas, SP: Papirus, 1994.

Manuel Castells, “Museus na era da informação: conectores culturais de tempo e espaço”. Revista Musas, Brasília, ano VII, n.5, 2011, p. 8-21.

Maria Angélica Martins é socióloga e mestra em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Brasil. Pesquisa a relação entre fenómeno religioso e política com ênfase para o protestantismo histórico e o neocalvinismo holandês.

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