«Aqueles que previam a extinção da Igreja Católica na civilização euro-atlântica, tal como aqueles que, pelo contrário, anunciaram o seu regresso triunfal, estão surpreendidos: a religião não se extingue, nem regressa à sua forma antiga. Está sempre aqui, mas sempre em transformação. Modifica-se o seu contexto social e cultural e, com ele, a sua forma e papel social. E mesmo aquilo que se mantém está num novo contexto, é percebido e interpretado de novas formas.»
[Tomáš Halík, O sonho de uma nova manhã. Cartas ao Papa. Prior Velho: Paulinas, 2024, 9]

[Capela de S. Brás entrevista a distância, com um carvalho-alvarinho no adro Fotografia © Vítor Araújo]
Desponta, ó beleza, na rosa hiemal. Frias são as águas fevereiras. Quem não precisará da capa? De uma capelinha a suscitar esperanças? E, todavia, quem a esperaria neste apaziguado outeiro? Antime canta, nesta capela aquilatada, um dos seus salmos da confiança. S. Brás extrai das gargantas todos os impedimentos ao louvor. Pode parecer insignificante como uma linha, uma linha quase-invisível, no panorama da paróquia. Ah, mas é uma linha a marcar pontos nas bainhas! Sensível, espaçada e com pontos invisíveis, ela alinhava, como alta-costureira, o tecido da comunidade para que permaneça sem desfiar. Em vez de velas cruzadas sobre as gargantas, a pequena capela será rosa candelária de outeiro, na vigilância aos sinais dos tempos. Sim, ela é já um marco elevado na paisagem. Haste ou batuta, a musicalidade da capela está aí. Silêncio. Ei-la, com coração de cedro. Perfumista, onde vais tão auroral? Junta-te à minha alegria; levantemos o versículo sálmico: «Por ti, o Vento tange as minhas cordas! E a voz clareia. No assombro que suscitas, ó Senhor, a porta do tempo alteia-se. Aleluia».

[Perspetiva sobre a fachada da capela e parte do adro com retalho de eirado Fotografia © Vítor Araújo]
Bem-aventurados aqueles que veem além da ruína! Ser-lhes-á-concedida a estrada luminosa. Bem-aventurados, vós que, em tempos de profundas metamorfoses, acreditais! A vossa imaginação cobrir-se-á de asas. Anunciareis a ressurreição de Jesus, nova primavera. Saindo do casulo, da crisálida suspensa na teia do ângulo escuro, voareis como borboletas do Espírito. Frágeis, sim, sempre sereis. Porém, parafraseando o poeta Manoel de Barros, com borboletas, podereis renovar a humanidade.
Que se poderia fazer com esta capela? Como colocá-la ao serviço da vida cristã e dos valores da fraternidade universal? Poderá ser ela um marco de esperança a cumprir-se no quotidiano? A sua singeleza arquitetónica sugeriu que, por transfiguração, se recriasse um atraente sumário da fé (querigma). Mais, que se transformasse, na resposta atempada aos desafios emergentes, em lugar de hospitalidade e repouso, de contemplação e abertura de janelas nos trânsitos da vida. Habitável, sim, enquanto casa de oração e apaziguamento, de fraternidade e comunhão bendizente com o cosmos.

[Da reunião, na capela de S. Brás, com o padre Tiago Costa, pároco, D. Bernardino Costa, os membros do Conselho Económico de Antime, o arquiteto Gil Soares e o engenheiro Tiago Ribeiro Fotografia © Joaquim Félix.
Que bela casa em granito, sem divisões! Vê. E senta, se desejares. Um só banco, suspenso no interior, corre as paredes. É uma boa-disposição, não é? No centro da capela, apenas se elevam as peças litúrgicas, dispostas sobre uma linha diagonal: o altar cúbico ao centro, o ambão junto à única janela, e a cadeira do celebrante principal perto da porta maior. Oblíqua é a vida. A chuva também. E há flautas transversais. A musicalidade do lugar cria-se, também, em função das três aberturas existentes. Quando abertas as duas portas, atinge-se a máxima visibilidade do altar; nas concentrações maiores, haverá pessoas reunidas fora. Ainda dentro, os monges do atelier do Mosteiro de Singeverga entalharam dois nichos ― um para S. Brás, titular da capela, e outro para S. Tiago, ambos pertencentes ao antigo programa iconográfico da capela ― em madeira de cedro, tal como as peças litúrgicas. Ao fundo, uma pia com água e, para as velas naturais, uma caixa de areia. Água e fogo. A luz prolonga a oração. Na água lustral brilha a bênção. Fora, sobressai a mesma economia, sóbria e honesta: um carvalho alvarinho, na cabeceira; uma parede vegetal, em vinha virgem, de cerca de quatro metros de altura, nos limites do adro, com janelas dirigidas a paisagens selecionadas (montanhas, cidade, autoestrada, ruralidade, céu); uma mesa da esperança e um lajedo de eira em granito.

[Ei-la, com coração de cedro, com distribuição transversal das instâncias litúrgicas Fotografia © Vítor Araújo]
Intenso é o perfume de cedro que ambienta a capela. Porque não há máscaras de vernizes, a madeira emana aromas desde o cerne. Respirando assim na atmosfera olfativa, a imaginação suscitará na memória as densas florestas que nos habitam. Mais, a imaginação pode ser tomada de sonhos: crianças a serem iniciadas à vida cristã, na companhia de catequistas, lendo páginas escolhidas dos Evangelhos, com os gestos e as palavras de Jesus; momentos de silêncio e de oração, em grupo ou individualmente; passagens livres de propósitos ou com intenções. E, enfim, até os amantes do lugar e peregrinos a usufruir do lugar aprazível, sentados à mesa da esperança, ou na corresponsabilidade pela sua conservação, cuidando, por exemplo, da limpeza do pavimento e da condução da vinha virgem.

[Instalação da vinha virgem recentemente plantada Fotografia © Vítor Araújo]
Um marco na paisagem! Sim, em certa medida, ele faz pensar em certas qualidades dos pontos de encontro, como sucede, por exemplo, com uma pequena capela concebida por Peter Zumthor, arquiteto suíço, agraciado com o Prémio Pritzker de 2009. Capela, note-se, que foi edificada no campo de uma família de agricultores, na Alemanha. Dedicada a São Nicolau, a sua construção fez-se, não com recurso a camiões betoneiras, mas com a ajuda dos amigos, sob a supervisão de Peter Zumthor.
Que assinalará? Vamos ver! ― dirão aqueles que, erguendo os olhos, para ela olharem. Pode interrogar e disponibilizar-se deste modo quem a avistar desde as redondezas, ou, então, desde mais longe, inclusive circulando na autoestrada. Sem engodos ou esconderijos, a instalação vegetal constitui-a como marco. Na primavera, proporcionará as rebentações; no verão, os pássaros, a sombra e as fragâncias; no outono, a transumância das cores e as últimas danças das folhas; no inverno, oferecerá as sonoridades dos ventos de todos os quadrantes e bagos negros às aves. Um marco na paisagem? Sim, será um recreio para a fé, na alegria pascal. E, como luminar da vida, sempre aceso.
Nas cidades ou em aldeias, há tantas casas cuidadas com esta espécie de pele vegetal. Existe, inclusive, uma pequenina capela, a Ermida do Cristo do Silêncio, da autoria do arquiteto Bernardo Pizarro Miranda, situada em Palmela, no distrito de Setúbal, que foi agasalhada com uma pele natural, isto é, por uma instalação de vinha virgem.
Se em Maratea (Basilicata, Itália) se faz a bênção do mar, aqui, nesta bainha de Antime, poderia propor-se a bênção dos ares. Purificados e em deslocações, porque tangidos pela boca de Deus, assim eles suavizam a respiração. Quem esperaria que, neste lugar quase-desvitalizado, surgisse a oportunidade para reabilitá-la. Agora, esplêndido é o seu coração! Aberto. Cálido. Não mais se chamará «Ruína-a-prazo», tão-pouco «Escombro-do-fado-da-cristandade». Eis os nomes novos com que será agraciada: «Rosa-hiemal-em-flor», «Esperança-blásia-em-fevereiro» e «Medicina-das-vozes-sem-espinhos».

[Escultura (detalhe) de Maria com o Menino aparecida durante as obras, que se encontra a ser recuperada no Gabinete de Conservação e Restauro da Diocese de Braga; estava enterrada dentro da capela Fotografia © Joaquim Félix]
Bem-haja a todas as pessoas que, acreditando, concretizaram a reabilitação da capela de S. Brás, honesto e sóbrio portal da esperança, alteado no ano jubilar de 2025. Que ela, a capela, sinal presente de tempos a vir, por intercessão de S. Brás e de S. Tiago, continue a servir a santidade dos mistérios pela vida entretecida de relações, quando a nova manhã do cristianismo despontar por nossos olhos.

[Durante uma visita ao atelier e capelas do Mosteiro de Singeverga, Roriz, Santo Tirso Fotografia © Joaquim Félix]

[Bem-aventurados aqueles que veem além da ruína! Fotografia © Joaquim Félix]

[E mesmo aquilo que se mantém está num novo contexto, é percebido e interpretado de novas formas (Tomáš Halík). O antigo crucifixo da capela foi embutido numa nova cruz Fotografia © Vítor Araújo]
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas dos Tempos – Da palavra turbante que remói.
(Foto de Destaque: [Painel da Árvore da Vida com a antiga escultura de S. Brás. Fotografia © Vítor Araújo])










