Médicos e palhaços – novas profissões antigas
Há cada vez mais empregos que a maioria das pessoas não sabe bem em que consistem. A quem tem estas ocupações, quando se lhe é perguntado pelo que faz na vida, não basta responder com uma ou duas palavras, como médico, pescador, operário ou professor. Tem o trabalho extra de ter que explicar um pouco mais , às vezes com sucesso, outras com resignação pelo facto de que a compreensão conseguida será sempre muito parcial.
O meu cunhado, por exemplo, segundo o que percebi, vende um softwarede organização para grandes empresas que gere informação sensível. Mas de cada vez que me explica, eu compreendo outra coisa.
O meu emprego, por ser incomum, também não é fácil de encaixar. Sou palhaço, o que já de si deixará muitos incrédulos. Mas um tipo de palhaço especializado em contexto hospitalar. Palhaço de hospital, digo, esperando já uma reacção de estranheza. Depois há quem queira saber mais, quem já tenha ouvido falar e quem, mudando de assunto, fuja deste tema tão alheio à sua experiência.
Apesar de tudo, nesta profissão, que é recente – existe formalmente há pouco mais de 30 anos –, lidamos com algumas das realidades mais antigas do que é ser humano, ou talvez mesmo do que é ser vivo.
Entramos em espaços de intimidade, em espaços de doença, de ruptura do quotidiano de famílias, de união, de medo. Por vezes são também espaços de crise aguda, ou da eterna luta entre a vida e a morte.
O palhaço, como um ser que vive no desequilíbrio, na excepção, na ruptura da norma, que vive das relações que cria, relações com o público, com o parceiro – trabalhamos sempre em dupla – tem ali um habitattão natural que parece que sempre assim foi.
Em boa verdade, a cura nunca foi concebida apenas no corpo. As emoções, as tensões que se criam ou são libertadas, os sentidos que damos ao que nos acontece através das atitudes, crenças, expectativas e motivações – tudo isso determina como adoecemos e atravessamos a doença até regressar à saúde.
Por isso, na história da humanidade os curandeiros, os xamãs, as bruxas, os milagreiros, os padres e todos aqueles que tinham “dons” ou poderes especiais, todos eles com um lado performativo, ritualístico, catártico ou apenas expressivo, sempre se imiscuíram com a figura que hoje é atribuída ao médico. Aqueles que fazem a interface com aquilo que nós, os comum mortais, não podemos compreender ou controlar.
No fundo, um médico e um palhaço têm um parentesco em comum. Essa separação, acontecida há muitos séculos atrás em nome da ciência, é agora vingada pelo aparecimento do palhaço de hospital ou, como muitos lhe chamam, doutor palhaço, que vem ocupar esse papel de actuar sobre as emoções de quem está doente, ajudando a libertar as tensões que geram doenças e relembrando aquilo que nos faz querer ter saúde e estar vivos.
Pedro Fabião é psicólogo; “doutor palhaço” na Operação Nariz Vermelho; texto escrito convictamente segundo o anterior acordo ortográfico.
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