Desde o início do ano, o número de imigrantes mortos no mar Mediterrâneo bate recordes. Nos três primeiros meses foram recolhidos mais de 800 cadáveres. Muitos mais terão morrido afogados sem serem contabilizados. Nos primeiros 10 dias de abril mais de 180 mortos vieram trazer a tragédia para valores nunca vistos desde a grande crise de 2014. Altos responsáveis das Nações Unidas e de organizações não-governamentais (ONG) culpam a União Europeia e as suas políticas pelo aumento de mortes no Mediterrâneo.
“Há uma normalização da desumanidade”, afirmou ao jornal La Croix de 10 de abril François Thomas, presidente da SOS Méditerranée, uma ONG que realiza operações de resgate no mar, comentando o facto de estes relatos sobre as mortes nas fronteiras da Europa não suscitaram nenhuma reação oficial dos Estados europeus.
Ao mesmo jornal, Patrick Eba, diretor-adjunto de Proteção Internacional do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) disse que “o aumento da presença policial e das intercetações no mar eleva os riscos para as pessoas que se aventuram no mar em condições mais perigosas”. Para aquele alto responsável, a política europeia de se focar “exclusivamente nas fronteiras da Europa significa não intervir de forma mais precoce e eficaz nos países de origem dos migrantes para impedir as suas partidas.”
François Thomas acrescenta outras críticas à política da UE que, desde 2016, procura levar os países do Sul e do Leste do Mediterrâneo a controlar a partida de imigrantes a troco de apoios financeiros, entre outros, às polícias marítimas daqueles países encarregadas de intercetar as embarcações antes que cheguem às águas europeias.
Tais acordos forçaram as redes de contrabando a reorganizarem-se, deslocando os pontos de partida para áreas menos patrulhadas, alongando as travessias, expondo-as mais a ventos e correntes fortes e tornando-as menos visíveis para os socorristas.
“Esses Estados recebem dinheiro para bloquear as partidas, mas estão apenas a limitá-las, com gravíssimas violações dos direitos humanos. Todos esses fundos disponibilizados pela UE poderiam ser redirecionados para salvar vidas”, afirma François Thomas.
As novas imposições das autoridades italianas exigindo que os navios de resgate desembarquem os sobreviventes em portos no Norte da Itália, a centenas de quilômetros das zonas de resgate são também alvo de crítica por parte do mesmo dirigente: “Isso mantém-nos dez dias afastados das zonas críticas. As mortes resultantes são consequência deliberada de escolhas políticas que priorizam a dissuasão em detrimento da proteção.”, denuncia François Thomas, cujo navio, o Ocean Viking, o navio da SOS Méditerranée resgatou 453 pessoas desde o início de 2026.
Menos embarcações, mais mortos

Operação de resgate da equipa dos Médicos sem Fronteiras ao largo de Malta, no mar Mediterrâneo, em maio de 2022. Foto © ANNA PANTELIA/MSF.
O apoio à capacidade repressiva das guardas costeiras dos países do Sul do Mediterrâneo teve também como consequência o recurso dos traficantes a embarcações de maior porte, o que determina um maior número de vítimas sempre que uma delas se afunda, ou simplesmente avaria, provocando mortes por fome ou hipotermia.
A Frontex, a agência europeia de controlo de fronteiras, deu conta desse fenómeno ao tornar público que em março deste ano registou uma queda de 50 por cento nas travessias irregulares. Tal quebra não se ficou a dever a uma menor capacidade de vigilância da margem Sul da Europa, mas ao simples facto de que a dimensão das embarcações clandestinas ter aumentado substancialmente.
É preciso sublinhar que as Nações Unidas só contabilizam os corpos que foram encontrados ou os relatos de testemunhas oculares altamente confiáveis; todos aqueles que desaparecem sem deixar rasto não são contabilizados. E mesmo com esta restrição tudo aponta para que o corrente ano venha a registar um forte crescimento vítimas.
Enquanto o número de vítimas cresce sem parar, as detenções de imigrantes entrados irregularmente na UE baixaram significativamente em 2025. Segundo o Frontex , “as deteções de travessias irregulares das fronteiras externas da UE diminuíram mais de um quarto (26%) em 2025, ficando perto de 178.000”, um número que é “menos da metade do total registado em 2023” e que “corresponde ao nível mais baixo desde 2021″.










