Mektoub, My Love: Como se diz Amor em cristão?
Mektoub, My Love: Como se diz Amor em cristão?
Estamos em 1994, é Verão, e numa praia mediterrânica – Sète – há jovens e mais jovens que ali estão de férias, uns porque ali vivem e trabalham, outros porque ali regressam, outros ainda porque fazem daquele lugar o seu destino.
Vai ser um Agosto escaldante e tórrido, iluminado e eufórico, feliz e nostálgico, como mostra, logo a começar, a bela e intensa cena de sexo, escutada e vigiada pelo protagonista do filme, Amin. Dentro da casa, está a sua amiga Ophélie e, vai ele ficar a saber, o seu primo Tony.
Amin acaba de regressar de Paris, tendo desistido do estudo da Medicina para tentar fazer aquilo que mais gosta: fotografar, fazer filmes, escrever argumentos. Por isso, durante todo o filme ele é sobretudo um observador, mantendo-se sempre um pouco fora do círculo onde tudo acontece, intensamente. Ele é ‘Apolo’, ligado à luz e à razão, mais sereno e protector, sem deixar transparecer as suas emoções ou desejos. Acompanha, vê, fotografa, espera. É muito bela e simbólica, intensa também, aquela cena – longa, como tantas outras no filme – em que ele, no estábulo das ovelhas, espera o tempo que é preciso até que alguma delas ‘entre em trabalho de parto’.
Tony, que ‘trabalha’ no restaurante da família a entregar cuscuz, é Dionísio, o deus da loucura e do excesso, do prazer sem limites, preocupado apenas em seduzir sempre mais uma rapariga. Como acontecerá logo na primeira ida à praia, com Charlotte e Cécile, acabadas de chegar de Nice e embriagadas por aquele hedonismo e liberdade estival.
Pelo meio destes e de muitos outros que se vão juntando – há-de até chegar uma tia dos dois primos, para acrescentar a sua própria loucura, apesar de estar prestes a casar – sobressai a tal Ophélie, noiva de um soldado deslocado num porta-aviões e que, sem qualquer sentimento de culpa, vai tendo as suas escapadelas com Tony. O que a faz correr um risco assim? Preferiria ela antes o amor de Amin? Há uma tensão e um desejo fundo entre eles só entrevisto e entredito.

Adaptado de um romance francês, La Blessure, La Vraie, de François Bégaudeau, de que fala afinal este filme? Que interesse poderá ter ir vê-lo? Que estará para além daquele passar de dias e de noites entre banhos de mar e de sol, flirtar, comer, ouvir música, dançar e beber quase até à exaustão, sempre sem levar as coisas muito a sério? Será apenas um retrato de um tempo e de uma geração, ou quererá o realizador ir mais longe?
A verdade é que o filme começa com duas citações sobre a luz: uma de São João: ‘Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas’ (não consegui fixar a citação exacta) e outra do Alcorão, que vai no mesmo sentido. Creio que é por causa da iniciação e do crescimento que aparecem. Este é um filme de passagem para a idade adulta, de um tempo e de uma idade que, inevitavelmente, se vai perder – talvez aquele excesso todo mais não seja do que uma última tentativa de agarrar o tempo em que tudo é possível – para um tempo que não se sabe o que será. Por isso, este filme – feito de luz e dionisíaco, de uma sensualidade extrema e extremada – tem também sombras, umas mais evidentes – o tal distanciamento apolíneo de Amin, a quem a mãe manda sair para a luz numa altura em que ele está fechado a ver um estranho filme de guerra a preto e branco, Arsenal–, outras mais sugeridas – o soldado noivo de Ophélie, por causa da guerra, lá longe num porta-aviões.
É o realizador que, numa entrevista ao suplemento ípsilon, do Público (11 de fevereiro), dá uma resposta confirmando que “toda a situação do mundo está aí. Toda a situação da nossa sociedade está aí. Recebemos gases hilariantes e rimo-nos do horror e Amin talvez esteja consciente desse horror do mundo através da sua vocação, talvez a sua vocação o force a ter uma consciência do mundo. É por isso que ele diz que está a escrever um argumento futurista. Uma esperança – uma história no futuro… para fugir do presente”.
É esta nostalgia de algo diferente, creio, que vem ao de cima na presença das ovelhas e cabras, e das tarefas com estas relacionadas (para além da tal longa cena da espera do nascimento). Mas também da última canção do filme ‘If you’re going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair’, de Scott McKenzie, ‘onde se misturam melancolia e esperança, e talvez preocupação’. “San Francisco era um pouco o sonho americano. E aqui estamos nós nos anos 90 e o sonho americano transformando-se num pesadelo”.
Também o final do filme vai por este caminho aberto ao futuro, com Amin e Charlotte – já resignada à realidade efémera dos ‘amores de Verão’ – seguindo juntos, pela praia, depois daquela longa e louca noite, de encontros e desencontros, banhados pela luz serena e leve da manhã que trará algo de novo. Esperemos a prometida e já adiantada parte dois do filme para ver onde leva esse caminhar.
Talvez então Kechiche, o realizador, esteja fascinado – e nostálgico, ao mesmo tempo, da sua própria experiência – pela juventude e pelo modo como os jovens se relacionam uns com os outros nesses tempos da ‘idade da inocência’, quando se aprende a vida e amor. “Como se diz amor em árabe?”, pergunta-se a certa altura. E não é possível chegar a um consenso, tantas são as expressões para dizer esse sentimento.
Como se diz amor em cristão?, pergunto eu, pensando no caminho que a Igreja está chamada a fazer para chegar ao coração dos jovens e acender neles aquela Luz capaz de iluminar e guiar, no tempo da procura e dos sonhos. Mektoub, em árabe, quer dizer destino, o que faz mover, procurar, mas também condicionar. ‘Não se escapa ao destino’.
Em cristão, talvez possa dizer-se apenas Cristo, Aquele que é a Luz, e que nos ensina o caminho magnífico da Verdade que liberta, por ‘entre as luzes e sombras do caminho’. Sem destinar.
A luz de Deus manifestar-se-á na alegria saudável e intensa, na vida plena de esperança e de risco, no entusiasmo do corpo e da alma, na comunhão e na dança dos que se deixarem habitar pelo Espírito, num coração de criança. Como Amin.
De que falamos então quando falamos de amor? Mektoub, My Love, nas suas contradições e contrastes, há-de deixar-nos algumas pistas.
Estamos no tempo oportuno, entre a Jornada Mundial da Juventude que terminou há pouco, no Panamá, e a próxima que será em Portugal. Que vai fazer a Igreja portuguesa para trazer os Jovens para o coração da sua missão, acolher as suas inquietações e dúvidas, e destapar a luz que já brilha nos seus olhos? Aprendendo da sua loucura à flor da pele.
Título original: Mektoub, My Love: Canto Uno, de Abdellatif Kechiche
Com Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Salim Kechiouche, Alexia Chardard
M/12; ITA/FRA, 2017, Cores, 181 min.
Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos
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