AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Mektoub, My Love: Como se diz Amor em cristão?

| 26/02/2019

Mektoub, My Love: Como se diz Amor em cristão?

by | 26 Fev 19 | Cinema, televisão e média, Últimas

Mektoub, My Love: Como se diz Amor em cristão?

Estamos em 1994, é Verão, e numa praia mediterrânica – Sète – há jovens e mais jovens que ali estão de férias, uns porque ali vivem e trabalham, outros porque ali regressam, outros ainda porque fazem daquele lugar o seu destino.

Vai ser um Agosto escaldante e tórrido, iluminado e eufórico, feliz e nostálgico, como mostra, logo a começar, a bela e intensa cena de sexo, escutada e vigiada pelo protagonista do filme, Amin. Dentro da casa, está a sua amiga Ophélie e, vai ele ficar a saber, o seu primo Tony.

Amin acaba de regressar de Paris, tendo desistido do estudo da Medicina para tentar fazer aquilo que mais gosta: fotografar, fazer filmes, escrever argumentos. Por isso, durante todo o filme ele é sobretudo um observador, mantendo-se sempre um pouco fora do círculo onde tudo acontece, intensamente. Ele é ‘Apolo’, ligado à luz e à razão, mais sereno e protector, sem deixar transparecer as suas emoções ou desejos. Acompanha, vê, fotografa, espera. É muito bela e simbólica, intensa também, aquela cena – longa, como tantas outras no filme – em que ele, no estábulo das ovelhas, espera o tempo que é preciso até que alguma delas ‘entre em trabalho de parto’.

Tony, que ‘trabalha’ no restaurante da família a entregar cuscuz, é Dionísio, o deus da loucura e do excesso, do prazer sem limites, preocupado apenas em seduzir sempre mais uma rapariga. Como acontecerá logo na primeira ida à praia, com Charlotte e Cécile, acabadas de chegar de Nice e embriagadas por aquele hedonismo e liberdade estival.

Pelo meio destes e de muitos outros que se vão juntando – há-de até chegar uma tia dos dois primos, para acrescentar a sua própria loucura, apesar de estar prestes a casar – sobressai a tal Ophélie, noiva de um soldado deslocado num porta-aviões e que, sem qualquer sentimento de culpa, vai tendo as suas escapadelas com Tony. O que a faz correr um risco assim? Preferiria ela antes o amor de Amin? Há uma tensão e um desejo fundo entre eles só entrevisto e entredito.

Adaptado de um romance francês, La Blessure, La Vraie, de François Bégaudeau, de que fala afinal este filme? Que interesse poderá ter ir vê-lo? Que estará para além daquele passar de dias e de noites entre banhos de mar e de sol, flirtar, comer, ouvir música, dançar e beber quase até à exaustão, sempre sem levar as coisas muito a sério? Será apenas um retrato de um tempo e de uma geração, ou quererá o realizador ir mais longe?

A verdade é que o filme começa com duas citações sobre a luz: uma de São João: ‘Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de trevas’ (não consegui fixar a citação exacta) e outra do Alcorão, que vai no mesmo sentido. Creio que é por causa da iniciação e do crescimento que aparecem. Este é um filme de passagem para a idade adulta, de um tempo e de uma idade que, inevitavelmente, se vai perder – talvez aquele excesso todo mais não seja do que uma última tentativa de agarrar o tempo em que tudo é possível – para um tempo que não se sabe o que será. Por isso, este filme – feito de luz e dionisíaco, de uma sensualidade extrema e extremada – tem também sombras, umas mais evidentes – o tal distanciamento apolíneo de Amin, a quem a mãe manda sair para a luz numa altura em que ele está fechado a ver um estranho filme de guerra a preto e branco, Arsenal–, outras mais sugeridas – o soldado noivo de Ophélie, por causa da guerra, lá longe num porta-aviões.

É o realizador que, numa entrevista ao suplemento ípsilon, do Público (11 de fevereiro), dá uma resposta confirmando que “toda a situação do mundo está aí. Toda a situação da nossa sociedade está aí. Recebemos gases hilariantes e rimo-nos do horror e Amin talvez esteja consciente desse horror do mundo através da sua vocação, talvez a sua vocação o force a ter uma consciência do mundo. É por isso que ele diz que está a escrever um argumento futurista. Uma esperança – uma história no futuro… para fugir do presente”.

É esta nostalgia de algo diferente, creio, que vem ao de cima na presença das ovelhas e cabras, e das tarefas com estas relacionadas (para além da tal longa cena da espera do nascimento). Mas também da última canção do filme ‘If you’re going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair’, de Scott McKenzie, ‘onde se misturam melancolia e esperança, e talvez preocupação’. “San Francisco era um pouco o sonho americano. E aqui estamos nós nos anos 90 e o sonho americano transformando-se num pesadelo”.

Também o final do filme vai por este caminho aberto ao futuro, com Amin e Charlotte – já resignada à realidade efémera dos ‘amores de Verão’ – seguindo juntos, pela praia, depois daquela longa e louca noite, de encontros e desencontros, banhados pela luz serena e leve da manhã que trará algo de novo. Esperemos a prometida e já adiantada parte dois do filme para ver onde leva esse caminhar.

Talvez então Kechiche, o realizador, esteja fascinado – e nostálgico, ao mesmo tempo, da sua própria experiência – pela juventude e pelo modo como os jovens se relacionam uns com os outros nesses tempos da ‘idade da inocência’, quando se aprende a vida e amor. “Como se diz amor em árabe?”, pergunta-se a certa altura. E não é possível chegar a um consenso, tantas são as expressões para dizer esse sentimento.

Como se diz amor em cristão?, pergunto eu, pensando no caminho que a Igreja está chamada a fazer para chegar ao coração dos jovens e acender neles aquela Luz capaz de iluminar e guiar, no tempo da procura e dos sonhos. Mektoub, em árabe, quer dizer destino, o que faz mover, procurar, mas também condicionar. ‘Não se escapa ao destino’.

Em cristão, talvez possa dizer-se apenas Cristo, Aquele que é a Luz, e que nos ensina o caminho magnífico da Verdade que liberta, por ‘entre as luzes e sombras do caminho’. Sem destinar.

A luz de Deus manifestar-se-á na alegria saudável e intensa, na vida plena de esperança e de risco, no entusiasmo do corpo e da alma, na comunhão e na dança dos que se deixarem habitar pelo Espírito, num coração de criança. Como Amin.

De que falamos então quando falamos de amor? Mektoub, My Love, nas suas contradições e contrastes, há-de deixar-nos algumas pistas.

Estamos no tempo oportuno, entre a Jornada Mundial da Juventude que terminou há pouco, no Panamá, e a próxima que será em Portugal. Que vai fazer a Igreja portuguesa para trazer os Jovens para o coração da sua missão, acolher as suas inquietações e dúvidas, e destapar a luz que já brilha nos seus olhos? Aprendendo da sua loucura à flor da pele.

Título original: Mektoub, My Love: Canto Uno, de Abdellatif Kechiche

Com Shaïn Boumedine, Ophélie Bau, Salim Kechiouche, Alexia Chardard

M/12; ITA/FRA, 2017, Cores, 181 min.

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Matosinhos

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Breves

Apelo ao Governo

Cristãos do Bangladesh querem feriado no Domingo de Páscoa e maior representação na vida pública

Um cordão humano com mais de 100 pessoas exigiu, durante toda a manhã de dia 31 de março, em frente ao Clube Nacional de Imprensa, em Daca, que o Domingo de Páscoa fosse reconhecido pelo Governo do Bangladesh como feriado nacional. A concentração organizada pela Associação Cristã de Bangladesh reivindicou também lugares na vida pública reservados à representação dos cristãos e de outras minorias.

Boas notícias

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Apelo de Metz

Com Leão XIV, líderes das grandes religiões assumem compromisso de união pela paz e dignidade humana

Os representantes das principais tradições religiosas presentes em França comprometeram-se esta segunda-feira, na cidade de Metz, a aprofundar o diálogo entre si, a educar as novas gerações para o conhecimento mútuo e a permanecerem unidos na promoção da justiça e da paz.

É notícia 

Entre margens

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

[Entre Margens]

Joana Lopes: 88 cravos à sua memória

No próximo Domingo, 11 de Outubro, Joana Lopes, que nos deixou a 5 de Fevereiro deste ano, completaria 88 anos. A Joana teve um papel importante na resistência católica contra a ditadura, tendo levado a cabo lutas muito importantes em que denunciava a guerra colonial. Tinha também uma atividade cívica intensa, assumindo a defesa de lutas políticas essenciais que não são menos importantes no nosso tempo. [Texto de Filipe Moisés].

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

[Entre Margens]

A consciência da consciência revela-nos o saber dentro do não-saber

Com efeito, o sentido do mistério absoluto que a vida é começa com a consciência da consciência. A própria filosofia, de resto, começa com a consciência da consciência. É que, com a consciência da consciência, o homem desperta, assombrado, para a realidade misteriosa e radical da sua própria existência, e da Existência enquanto tal, como um todo. [Texto de Rúben Azevedo].

Cultura e artes

Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista

Rostos e Rumos

Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista

Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. O missionário Adelino Ascenso, que viveu 12 anos no Japão, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, parceria da TSF e do 7MARGENS.

Sete Partidas

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

Visto e Ouvido

Igreja tem política de “tolerância zero” aos abusos sexuais, mas ainda está em “processo de purificação”

D. José Ornelas

Bispo de Setúbal

Agenda

[ai1ec view=”agenda”]

Ver todas as datas

Fale connosco

Últimas Notícias

Últimas Notícias

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente

Evocação

Pai Telmo: homem de testemunho eloquente novidade

A morte e a noite caíram sobre nós demasiado depressa com a notícia do falecimento de Pai Telmo. Os seus 100 anos foram um sopro veloz que não deixou ninguém indiferente e a sua dedicação à Igreja dos mais pobres uma brisa que suavizou muitas dores. [Texto de padre José Alfredo].

Identidade e missão do professor de EMRC na escola

Ensaio

Identidade e missão do professor de EMRC na escola novidade

A identidade e a missão do professor de Educação Moral e Religiosa Católica (EMRC) na escola pode ser vista sob múltiplos pontos de vista; porém, desejo fazê-lo a partir de três palavras ou pilares que considero substanciais. Estruturo esta reflexão a partir do “habitar-se”, do “habitar com” e do “habitar o ainda não”. [Texto de Adriano Batista, intervenção no Simpósio sobre a Educação e Escola em Portugal].

As cápsulas

[Sete Partidas]

As cápsulas novidade

No radio do carro tocava um CD da Rosalía e comecei a pensar no que já me disseram sobre o meu carro, pequeno e velho, dito em várias variações. Não levo a mal. É verdade, mas tem tudo o que preciso. Abrigo do sol, do frio, da chuva e da neve. Confiável. Riscado e muitas vezes sujo por fora, mas por dentro limpo e arrumado. Um pouco na ordem como valorizo as coisas na vida. Menos ostentação, mais conteúdo. [Texto de Inês Patrício, Berlim].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.