Memória como disciplina espiritual

| 24 Nov 2023

Memória. Foto Bebés

“Quem não tem memória não tem identidade. Quem se esquece corre o risco de deixar de ser quem era.” Foto © Rodolfo Clix / Pexels

 

Lembrem-se. “Lembrem-se e não se esqueçam”, assim diz no quinto livro da Torá. A memória é algo que Deus dá à Humanidade para o seu proveito. Esta faculdade mental é tão importante que o verbo “lembrar” tem 232 ocorrências, apenas no Antigo Testamento. A memória é essencial para o processo de aprendizagem, para a adaptação a um ambiente ou a uma cultura, para o cultivo de uma saúde emocional e ainda para a definição de identidade pessoal. Quem não tem memória não tem identidade. Quem se esquece corre o risco de deixar de ser quem era.

Mas esta mesma memória, quando se aplica a realidades espirituais, fornece às pessoas de fé um padrão de vivência e de resposta, com base nas experiências passadas. Ou seja, a memória permite às pessoas de fé recordar e refletir sobre as experiências com Deus e com o mundo e assim tomar decisões com discernimento e sabedoria. É por isso que a Bíblia chama tanto à recordação dos atos de Deus, e também dos erros do ser humano. Podemos encontrar 12 livros históricos no Antigo Testamento (16 livros na versão da Vulgata) que foram escritos especificamente para esse propósito. Ao relembrar as experiências passadas, o povo de Israel poderia decidir o que fazer em relação à sua fé e crença em Jeová. Ao recordar os livramentos realizados por Deus, eles poderiam confiar e descansar no seu livramento futuro. Ao ver os seus erros, eles entenderiam qual era o caminho a não percorrer.

A memória é indispensável à fé. Se queremos encontrar constância na fé precisamos olhar para o desenvolvimento da memória com uma disciplina espiritual. Não poucas vezes os nossos olhos apenas contemplarão o vazio. Não veremos nada, nem sentiremos nada. Nesse situação, o futuro pode ser uma imagem medonha. Mas se ao menos tivermos a memória, ela nos ajudará a confiar! Assim precisamos encontrar estratégias para cultivar esta disciplina espiritual. Para um cristão será, sem dúvida alguma, a memorização das Sagradas Escrituras. Nem sempre teremos acesso a uma Bíblia, mas a nossa mente poderá recordar trechos divinamente inspirados que serão fundamentais, por exemplo, para suportar o dia difícil. Se uma disciplina espiritual tem como objetivo proporcionar o crescimento espiritual diário, então melhor do que ter um conteúdo espiritual numa mochila, no bolso ou no telemóvel, é tê-lo na mente. Outra estratégia poderá ser um registo de experiências. Todos nós teremos experiências com Deus para contar, principalmente a nós próprios. Se a memória desempenha um papel fundamental na experiência humana e ela constrói e dita a nossa identidade, então precisamos de anotar o que sabemos, acreditamos e experienciámos para que a nossa identidade esteja firme.

Terminando, no meio de tantas vozes que tentam roubar a nossa identidade e a nossa crença, a memória é uma disciplina espiritual essencial para sabermos quem somos, e para pessoas de fé, a Quem pertencemos.

 

 

Débora Hossi é gestora de redes sociais; integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se peregrina e apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com

 

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