
Cemitério militar americano de Colleville-sur-Mer, na Normandia. Foto © Bjarki Sigursveinsson, via Wikimedia Commons
Ainda que o chamado D-Day (Dia do Desembarque na Normandia, em França) seja esta quinta-feira, dia 6, as comemorações do 80º aniversário do acontecimento, que naquela região francesa estão já a mobilizar as atenções, quer através de homenagens e reconstituições, com a presença de altas individualidades políticas e militares, quer de programas especiais nos média. Entretanto, o Papa Francisco pediu que se vá além da recordação e se condene e rejeite a guerra como caminho para a resolução dos conflitos.
Num ato público na catedral de Notre-Dame, da cidade normanda de Bayeux, que antecedeu uma cerimónia de cariz ecuménico que se lhe seguiu no mesmo local, o núncio apostólico (equivalente a embaixador do Vaticano) leu uma mensagem do Papa Francisco, enquanto o presidente da Conferência dos Bispos de França apresentou a leitura que o episcopado faz do significado do Desembarque na Europa de hoje.
Na sua mensagem, o Papa recorda “esse colossal e impressionante esforço coletivo e militar, posto no terreno para conseguir o regresso à liberdade”. Mas sem esquecer o que tal esforço custou: “cemitérios imensos onde se alinham aos milhares os túmulos de soldados, na sua maioria jovens e, em muitos casos, idos de longe”. Alude igualmente à imagem das muitas localidades normandas “completamente devastadas” e as “inumeráveis vítimas civis inocentes”.
Porém, acrescenta a mensagem papal, seria “inútil e hipócrita” recordar tanta destruição, ruína e mortandade da guerra “sem a condenar e a rejeitar definitivamente”. Francisco convoca, neste contexto, o seu antecessor, o Papa Paulo VI, quando, na tribuna da ONU, em outubro de 1956, gritou: “Nunca mais a guerra!”.
Se durante vários decénios a recordação do passado alimentou a vontade de evitar um novo conflito mundial aberto, Francisco constata “com tristeza” que as pessoas “têm a memória curta”, desejando que a presente comemoração ajude a reencontrar essa memória.
“É, com efeito, inquietante, prosseguiu o Pontífice, que a hipótese de um conflito generalizado seja por vezes de novo considerada a sério e que os povos sejam, pouco a pouco, habituados a essa eventualidade inaceitável” quando a verdade é que “os povos querem a paz”.
Pedindo a todos que rezem pelos artífices da paz”, Francisco defendeu que “querer a paz não é uma cobardia”, uma vez que ela “requer, pelo contrário, a maior coragem, que é a coragem de saber renunciar a algo”. E, citando o Evangelho de Mateus, recordou que “os artífices da paz serão chamados filhos de Deus”. Para esses pediu que, “opondo-se às lógicas implacáveis e obstinadas do afrontamento, saibam abrir caminhos pacíficos e de diálogo (…) e que os seus esforços sejam coroados de êxito”.
Europa deve honrar os que deram a vida pela liberdade
Com preocupações convergentes manifestaram-se também os bispos franceses que integram o conselho permanente da Conferência Episcopal daquele país. Na mensagem especial que elaboraram para as comemorações, reconhecem que as dezenas de milhares de soldados que desembarcaram na Normandia provinham de uma grande diversidade de países que também tinham os seus interesses, mas, ao contrário dos nazis e dos soviéticos, “não pretendiam instaurar um ‘homem novo’, o de uma raça dominante ou de um pensamento totalizante”. “Eles batiam-se para que a humanidade seja feita simplesmente por seres humanos, na sua diversidade, capacitados para viver, sentir, partilhar, imaginar, construir pessoas com toda a energia e inventividade de que a humanidade é capaz”, salienta o texto.
Os bispos querem que se construa uma Europa que honre os que deram a vida pela liberdade, em 1945. Não uma Europa com estados virados sobre si próprios e respetivos interesses, esquecendo que ela foi ajudada por jovens da América, da África e da Oceania. A Europa “não tem o direito de negligenciar as [suas] responsabilidades relativamente ao mundo inteiro”, frisam.
E fazendo uma ligação com as eleições deste fim de semana para o Parlamento Europeu (PE), o episcopado francês, ainda que reconhecendo que a União Europeia “está bem longe de ser perfeita”, lembrou que ela “é constituída como uma zona de livre circulação de pessoas, bens e ideias, de que quase todos beneficiam, em particular os jovens”
“No momento em que nos preparamos para eleger, neste domingo, os nossos representantes ao PE, não nos enganemos nas questões e nos desafios” que estão diante de todos, alertam os bispos, no documento comemorativo.









