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Guilherme d'Oliveira Martins

Memória de Acácio Catarino (1935-2021)

Acácio Catarino: “Foi um dos grandes especialistas na área da política social e do voluntariado, deixando um contributo para o pensamento social português”, diz a atual presidente da Cáritas, Rita Valadas. Foto: Direitos reservados.

 

Acácio Catarino era um homem de ação e reflexão – segundo o método de Ver, Julgar e Agir. Recordo-o sempre com grande coerência e serenidade. Com Maria de Loures Pintasilgo, Alfredo Bruto da Costa e Manuela Silva é referência fundamental da Igreja Católica portuguesa contemporânea – com uma intervenção na sociedade e na economia, num sentido orientado para o desenvolvimento humano. Soube assim complementar a intervenção social nas instituições da Igreja e a sua competência técnica nas áreas sociais, reconhecida por todos. Quando, poucos dias depois do seu falecimento, o Presidente Jorge Sampaio nos deixou, recordámos a sua presença como ativo consultor, salvaguardando a sua independência de espírito, no contexto da liberdade religiosa.

Consultor da Casa Civil do Presidente da República, entre 2001 e 2006, foi presidente da direção da Cáritas Portuguesa durante 17 anos (1982-1999) e membro da Comissão Nacional Justiça e Paz. Natural da Benedita, Alcobaça, era licenciado em Sociologia, foi docente de Serviço Social e Desenvolvimento Local, na Universidade Católica Portuguesa, de Administração Social, no antigo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa e na área do emprego e dos recursos humanos, no IUL-ISCTE.

No município de Alcobaça teve um papel muito ativo nos mais diversos domínios desde o cooperativismo agrícola até ao acompanhamento de diversas ações de desenvolvimento integrado, com destaque para o ensino cooperativo na Benedita, de que foi participante ativo.

Desempenhou vários cargos de direção na área do emprego e formação profissional nas décadas de 1980, 90 e nos inícios do século XXI. Teve participação ativa nos primeiros governos democráticos, em meados da década de 1970, no setor social, tendo sido Secretário de Estado da População e do Emprego no governo de Nobre da Costa (1978), foi membro de organismos das IPSS e das Misericórdias, presidente do Conselho Nacional para a Promoção do Voluntariado, presidente da Comissão Coordenadora Nacional das Semanas Sociais e presidente da mesa da assembleia-geral da Fundação João XXXIII (Ribamar, concelho da Lourinhã), entre várias instituições sem fins lucrativos e grupos de trabalho de âmbito social e cooperativo.

Como foi salientado na nota emitida pela Cáritas Portuguesa, através da sua presidente, Rita Valadas, “foi um dos grandes especialistas portugueses na área da política social e do voluntariado, deixando um contributo para o pensamento social português, vincado nas diferentes responsabilidades que foi assumindo ao longo da sua vida”.

Estudioso permanente da Doutrina Social da Igreja, Acácio Catarino vinha salientando, na evolução mais recente do pensamento social com o Papa Francisco, como a encíclica Fratelli Tutti defende o que se designou, com especial felicidade e pertinência, a “re-samaritanização” da ação social.

Antes do mais, considerava o exemplo do “bom samaritano” como intemporal uma vez que não se limita às relações interpessoais, estendendo-se também à organização da sociedade, o que obrigaria a re-situar o cuidado dos outros na sociedade moderna. Há assim o alerta do Papa Francisco (do mesmo modo que em Laudato Si’) para três patamares de ação: interpessoal, institucional e estatal.

Se é certo que no seio da Igreja foram criadas inúmeras instituições de ação social, o certo é que nem sempre o foram de acordo com a essência da mensagem cristã – ora substituindo a relevância do Samaritano pela do estalajadeiro, ora limitando-se a ver a Igreja idêntica a outras instituições do espaço público, “e não tanto como entidade inserida na humanidade fragilizada, cooperando, com ela e com cada pessoa, na procura das soluções possíveis para os seus males e influenciando os centros de decisão política ou de outra natureza”.

Eis por que razão os três patamares da perspetiva cristã, deveriam ser, segundo Acácio Catarino: o básico, próprio das relações interpessoais, onde atuam os grupos paroquiais e as conferências vicentinas; o intermédio, próprio das instituições de solidariedade e das suas redes autónomas; e o estatal, próprio dos diferentes órgãos e organizações do Estado. Os três patamares devem ser vistos em pé de igualdade, visando sempre os três objetivos da missão da Igreja no domínio social: o cuidado direto e permanente às pessoas necessitadas; as respostas necessárias e possíveis através dos “corpos intermédios”; e a articulação com a intervenção das estruturas políticas e administrativas (cf.: Bento XVI, Deus Caritas Est, 2005, nº. 29). Exemplo de pensamento e ação, Acácio Catarino deve ser lembrado pelo que nos deixou de riquíssima ligação entre liberdade e responsabilidade, na senda dos ensinamentos da Igreja Católica, sintetizado no Concílio Vaticano II.

 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

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