[domingo xxxiv do tempo comum – c / Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo
Bodas de prata matrimoniais de Maria da Encarnação & Paulo Morais / 22 xi 2025]
1. Nesta manhã fria que nos oferece a luz mansa de novembro
sentimos que, assim como os vidros das janelas se embaciam
com uma espécie de orvalho interior,
também as nossas vidas, com o fogão do contentamento aceso,
espelham a alegria que se condensa em motivos de louvor.
Zinha e Paulo, celebrar as vossas bodas de prata matrimoniais
constitua uma sensibilizada oportunidade para dar graças.
Creio que podeis entrar em estado-de-gratidão
por toda a assistência que Deus vos concedeu
nos momentos felizes
e nos momentos difíceis da vossa vida matrimonial.
Continuai a ser testemunhas com o charme do imenso amor
no qual Deus nos ama em Jesus Cristo, Senhor-da-Aliança.

[Uma espécie de orvalho interior. © Fotografia: Joaquim Félix]
2. Celebrado hoje como «Rei do universo»
reconhecemos que Jesus, ao longo de toda a sua vida esponsal,
não sabe senão abraçar-nos e servir-nos na sua realeza.
Ele serve-nos a realidade, com as suas mãos invisíveis,
o «montão de coisas santas/
Misturadas com coisas humanas» (Mercedes Sosa).
Sim, na qualidade do serviço real, abundância de abundância,
com o amor que se traduz em palavras e gestos de alegria.
Como as tribos de Israel fizeram a David (cf. 2Sam 5,1-3),
é Ele quem agora derrama o óleo perfumado sobre os corpos.
Óleo de bênção, óleo de bálsamos, óleo da alegria!
Unguento que escorre até à graciosa planta dos nossos pés.
Por isso percorrermos o caminho que Ele nos oferece para,
como peregrinos do bem, vivermos e anunciarmos a paz.

[Cristo, Rei do Universo. © Fotografia (Duomo di Anagni: Joaquim Félix]
3. O vosso primeiro jubileu encastoa-se no jubileu da Igreja.
Que ele seja, também para vós, um «ano santo».
Caminhai na esperança, sim, fazendo da âncora o bordão
dos corações, das mãos e dos pensamentos.
Cristo é a âncora que dá firmeza nas vagas encapeladas do mundo.
Que tempo explosivo, o nosso, no qual despoletam ódios tribais!
Na vossa fidelidade apascentareis o amor no dia a dia,
como Deus no-lo dá para nossa subsistência
― Ele que é a nossa «Mulher-a-Dias» (Adília Lopes) ―,
saciando-nos com gestos simples, no sabor adstringente da vida.
Assim fez Jesus, através de sinais noutras bodas (cf. Jo 2,1-12),
transformando a água em bilhas e bilhas de vinho bom.
![Joaquim Félix]. Vinho](https://setemargens.com/wp-content/uploads/2025/11/5-2.jpg)
[Em bilhas e bilhas de vinho bom. © Fotografia: Joaquim Félix]
4. Há precisamente quatro anos atrás, se a memória nos assiste,
encontrávamo-nos aqui, mais ou menos por esta hora,
a celebrar as bodas de ouro matrimoniais de dois casais.
Nessa altura, evoquei a beleza dourada do tulipeiro da Virgínia,
plantado no Jardim da Casa do Passadiço, em Braga.
Ontem, ao final da tarde, passei novamente por ele,
na esperança de que me inspirasse palavras para hoje.
Ao lado do jardim, em frente à bela escultura em bronze
de Francisco Sanches, da autoria de Salvador Barata Feyo,
encontra-se uma instalação formada por painéis espelhantes
― com fotografias e textos breves de Camilo Castelo Branco ―
que assinala o bicentenário do seu nascimento.
Na passagem pelo Santuário do Bom Jesus do Monte, em 1864,
escreveu ele: «Estas árvores são minhas amigas».
Tal como Camilo, creio que posso dizer que o tulipeiro
é meu amigo, não há vinte e sete, mas há quarenta anos.
E, na qualidade de velho amigo, sugeriu-me alguns pensamentos,
creio que ajustados, para esta celebração.

[«Estas árvores são minhas amigas» (Camilo Castelo Branco). © Fotografia: Joaquim Félix]
5. Para melhor o ouvir, entrei no jardim e contemplei-o
numa perspetiva vertical, acolhendo-me à sombra da sua copa.
É de facto uma instituição, na altura dos seus mais de 200 anos.
Reparei então que o tronco principal se divide em dois grandes ramos.
Olhando-os, ninguém poderá dizer qual deles será o mais importante.
Ambos formam a única árvore,
como os ossos e a carne do mesmo portentoso tronco.
Fixando os olhos neles, apareceu no meu espírito uma semelhança:
Zinha e Paulo, vós sois os ramos que formais a mesma copa,
unidos ao grande tronco que é Cristo Jesus, o Liriodendro-de-ouro.

[Instalação que assinala o bicentenário do nascimento de Camilo Castelo Branco © Fotografia: Joaquim Félix]
6. Apreciando melhor os ramos do tulipeiro,
reparei que eles se encontram reforçados com uma cinta,
colocada a mais de dez metros de altura.
Por certo, será para acautelar condições de segurança.
Eles fizeram-me pensar na vossa aliança matrimonial,
que colocastes nos dedos anelares, agora banhada a ouro branco.
Sendo sinal da indissolubilidade do vosso matrimónio,
ela exerce semelhante serviço ao daquele cinturão negro
naqueles dois grandes e luxuriantes ramos.
E tal como o cinturão preserva o tulipeiro unido e seguro,
assim também o sangue de Cristo conserva
o vosso amor na mútua fidelidade.

[O cinturão preserva o tulipeiro unido e seguro © Fotografia: Joaquim Félix]
7. Voltei a escutar a sonoridade das suas folhas,
tocadas pelo vento cortante da tarde-de-nuvens-laranjas.
As folhas, mais esparsas que no ano passado,
pareciam brindar à vida, servida em tulipas de prata dourada.
Zinha e Paulo, não poderão ser elas um convite a fazer memória
de todas as graças recebidas ao longo destes vinte e cinco anos?
S. Paulo, na epístola que escreveu aos cristãos de Colossos,
começa assim o brinde de louvor a Cristo
com as palavras de um provável hino litúrgico:
«Damos graças a Deus Pai,
que nos fez dignos de tomar parte
na herança dos santos, na luz divina» (Col 1,12).
Zinha e Paulo, hoje encontramo-nos à sombra
da copa que são os vossos motivos de ação de graças.

[Zinha e Paulo em reunião festiva © Fotografia: Joaquim Félix]
8. Para que o exercício do vosso louvor a Deus
seja semelhante ao das folhas do tulipeiro,
isto é, seja um jubiloso hino de gratidão,
creio que estareis a fazer um exercício de memória.
Dai graças por tudo aquilo que Deus,
em Cristo, na comunidade cristã e através dos amigos,
vos proporcionou em milagres de abundância, sem desperdício.
Dai graças pelo nascimento do João Paulo,
vosso filho, já crescido e robusto como um rebento viçoso.
Dai graças pela construção da vossa casa
e pela criação da empresa de transportes de camiões TIR.
Dai graças pelos trabalhos de cada dia,
sejam eles a condução ao volante nas perigosas estradas
ou os trabalhos nas estufas entre canseiras e perfumes de flores.

[Nas estufas entre canseiras e perfume de cravos © Fotografia: Joaquim Félix]
Dai graças pelo tempo de aprendizagem na escola,
que há de fazer do João um aprendiz da vida até à velhice.
Dai graças pelos vossos familiares e amigos
e pelo perdão que nos liberta de certos tumores malignos.
Dai graças pelos bens herdados,
que, de geração em geração, são sinais do muito que recebemos.
Dai graças inclusive pelo Tico, companheiro constante,
porque também ele é um sinal da fidelidade amical.

[Tico aos pés da Zinha © Fotografia: Joaquim Félix]
9. Seja a vossa memória um despertador da gratidão.
Tendo saído há dias LUX, o último álbum de Rosalía,
recordo precisamente o tema «Memória»,
cantado juntamente com a Carminho.
Creio que vós o poderíeis cantar também em dueto.
Zinha, começarias tu as primeiras três estrofes:
«Ainda te lembras de mim?
Ainda sabes de onde eu vim?
Quem sou esta que aqui estou?
Diz-me no meu olhar triste
Que alguma memória existe
E ainda sabes quem sou
Diz-me se ainda tropeço
Se me alegro, se agradeço
Ou se ainda sei cantar».
Depois, o Paulo cantaria as estrofes finais:
«Será que tu me conheces?
Que o tempo passa e não esqueces
Quem eu fui e sou enfim?
Ó, meu doce coração
Diz-me se sabes ou não
Ainda te lembras de mim?»
10. Santa Cecília, a padroeira da música,
cuja memória litúrgica cai precisamente neste dia,
vos ajudará a cantar bem,
não digo segundo o espírito do movimento ceciliano,
mas com a vozes que tendes, vozes de prata patinada.

[Escultura de Santa Cecília, Roma © Fotografia: Joaquim Félix]
11. A passagem do Evangelho segundo S. Lucas,
tendo em conta a solenidade que hoje celebramos,
narra-nos um momento tremendo de Jesus no alto da cruz.
Sem pretender abrir agora um novo voo nesta conversa familiar,
gostaria de sublinhar que a sua realeza é servida até ao fim.
Que realeza misericordiosa! Atenta à súplica do desesperado!
Efetivamente, Jesus, voltado para um dos malfeitores,
a quem nós vulgarmente alcunhámos «Bom ladrão», diz:
«Em verdade, te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso» (Lc 23,43).
Segundo a tradição da liturgia cristã siro-oriental,
há comunidades que costumam representar, num auto litúrgico,
a entrada do Bom ladrão no jardim terrestre,
donde foram expulsos Adão e Eva, após comerem da árvore da vida.
Este auto é ainda praticado por cristãos no Norte do Iraque,
nas montanhas do Curdistão e na Síria
― em Alepo, por exemplo, onde subsistem cerca de 25 mil cristãos.
Depois de muita altercação, feita em poesia e canto,
o Querubim da espada flamejante reconhece o sinal do Bom ladrão:
a cruz que o diácono trazia na manga da dalmática.
Depois disso, dão-se um abraço e,
entrando no jardim-santuário, aproximam-se do altar.
12. No álbum «Lux», Rosalía canta, em italiano,
o tema «Mio Cristo Piange Diamanti» (O Meu Cristo Chora Diamantes).
Nele refere-se a Cristo rei, um rei que chora diamantes.
Para terminar, gostaria que todos os membros desta assembleia,
mas sobretudo os muitos jovens, neste dia a eles dedicado,
a escutassem atentamente, até ao dom das lágrimas,
e depois procurássemos meditar a letra desta canção.
Zinha e Paulo, hoje celebrais as bodas de prata.
O nosso desejo é que celebreis as bodas de diamante.
Nem que, até esse dia, também tenhais de chorar alguns diamantes.
Todos eles serão misturados com os de Cristo, no cálice sobre o altar,
para junto do qual o Querubim da espada flamejante
nos conduz, abraçados, na sede de abraçar Cristo rei.
Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens. Este texto corresponde à homilia de domingo, 23 de novembro, [domingo xxxiv do tempo comum – c / Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do universo e o desafio litúrgico gracioso de associar à Solenidade as bodas de prata matrimoniais de Maria da Encarnação & Paulo Morais / 22 xi 2025], proferida na igreja de Fragoso (S. Pedro), do Arciprestado de Barcelos.










