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ri Saptakoteshwar Temple in Goa Foto Natbits
Templo Sri Saptakoteshwar, em Goa, construído no lugar de um antigo templo destruído durante a era colonial portuguesa. Foto © Natbits

Anunciado pelo partido no poder

Memorial de templos hindus destruídos pelos portugueses gera críticas e receios em Goa

| 19/09/2025

O governo do estado de Goa, na Índia, acaba de anunciar os planos de construção de um memorial que alegadamente visa preservar a história e memória dos templos hindus destruídos no período em que a região esteve sob o Sultanato de Bahmani e, mais tarde, durante a era colonial portuguesa. Mas há quem considere que a ação tem como principal objetivo obter votos e promover a ideologia política centrada na supremacia hindu, e que poderá contribuir para polarizar a sociedade goesa.

De acordo com a notícia avançada pela UCA News, o projeto estava já entre as promessas do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata (BJP) antes das eleições estaduais de 2022 – nas quais conquistou o poder em Goa. Aprovado esta semana pelo gabinete de estado, prevê a construção de um novo templo e local de peregrinação na ilha de Divar, junto às ruínas do templo de Saptakoteshwar, um templo do século XII dedicado ao deus hindu Shiva.

No estado de Goa, aproximadamente 25% dos cerca de 1,6 milhões de habitantes são cristãos, a maioria católicos. E cerca de 5.000 pessoas, entre hindus e católicos, vivem atualmente naquela ilha, onde coexistem três templos hindus, duas igrejas paroquiais e uma capela.

Ouvido pela UCA News, Jerry de Sousa, católico e residente em Divar, conta que se recorda de, na sua infância, terem sido encontrados vários vestígios do templo e diz-se “orgulhoso” por ver a história a ser preservada. Mas deixa um alerta: “Apenas recomendaria que este local fosse desenvolvido como um local religioso e que a sua sacralidade fosse preservada. Não deveria ser transformado numa atração comercial”.

Já Elvis Gomes, líder da organização Citizens for Democracy Goa e antigo membro do partido da oposição Aam Aadmi (AAP), considera que a ação “é apenas política visando polarizar a sociedade goesa”. “Se um templo for construído, que seja construído pela comunidade; o governo não deve ter nenhum papel nos templos”, disse ele, considerando que os gastos do governo com religião “são uma violação” da constituição indiana, a qual proíbe o uso de fundos estatais para promover ou apoiar qualquer religião específica.

 

Reverter o que aconteceu nos séculos XVI e XVII, “hinduizando” a paisagem

Em declarações ao 7MARGENS, a historiadora Ângela Barreto Xavier diz encarar a construção deste memorial como positiva. “Não vejo nada de negativo na construção do memorial, tal como defendo, desde o primeiro momento, a rápida construção de um monumento às vítimas da escravatura, aqui em Lisboa”, afirma. Nascida em Goa, a investigadora da Universidade de Lisboa considera que “é fundamental que cada comunidade saiba lidar com as memórias menos positivas do passado, e que saiba sarar essas feridas conjuntamente”. E no caso particular dos católicos na ex-colónia portuguesa, “é importante terem consciência da violência cultural sobre a qual assenta a sua identidade religiosa, e  o efeito que isso teve naqueles que não se cristianizaram”, defende.

Mas reconhece que “o problema surge quando estas dinâmicas assentam na manipulação da história”. E exemplifica que, neste caso, “a imprensa local refere que os portugueses destruíram mil templos hindus, e esse e outro tipo de afirmações falsas surgem nas redes sociais, mas são tomadas como verdadeiras, sobretudo pelos grupos mais radicalizados. Ao mesmo tempo, poucos são aqueles que querem ouvir falar do colaboracionismo de hindus durante a presença imperial portuguesa, pois isso enfraqueceria este discurso”. Na opinião de Ângela Barreto Xavier, “esta desigualdade discursiva pode conduzir, de facto, à violência e à divisão social, e esse parece ser o receio de algumas pessoas ouvidas pela UCA News”.

A historiadora reconhece também que, apesar de esta ser uma iniciativa do governo do estado de Goa e não do governo central indiano, ela “está totalmente alinhada com a ideologia hindutva (nacionalismo hindu), que está a ser apropriada pelo BJP no resto da Índia e por Narendra Modi desde que é primeiro-ministro”. O objetivo geral é “garantir a total supremacia dos hindus no subcontinente indiano, do ponto de vista político, económico, social, cultural”, afirma.

A situação é “mais complexa no caso de Goa”, dado 25% da população ser católica. “No fundo, o que se pretende é reverter o que aconteceu nos séculos XVI e XVII numa parte do que é hoje o estado de Goa. Nessa altura, os portugueses procederam a uma cristianização da paisagem e à construção de uma comunidade política assente no cristianismo. O governo de Goa procura, agora de uma maneira mais ativa do que antes, reverter essa situação, hinduizando a paisagem”, explica Ângela Barreto Xavier.

A construção do memorial pode, assim, ser considerada “mais uma etapa nesse processo”, considera a historiadora, que tem estudado a conversão e violência no Império Português na Índia, especialmente em Goa. “Até porque o memorial situar-se-á num espaço simbolicamente muito importante: a ilha de Dívar, que, ao tempo da chegada dos portugueses, era um centro de peregrinação, mas também de estudo, onde se juntavam os devotos das diferentes partes de Goa para celebrar os momentos mais importantes do seu ano religioso”, conclui.

 

“Ataques” ao património na antiga capital colonial portuguesa

Uma fotografia de máquinas de movimentação de terra abrindo caminho através de fundações centenárias de uma igreja em Velha Goa, em março.Foto DR

Escavadoras a abrir caminho através de fundações centenárias de uma igreja em Velha Goa, em março deste ano.  Foto: Direitos reservados

Paralelamente, em Velha Goa, desde o final de março que o terreno diagonalmente oposto à Basílica do Bom Jesus – uma basílica de 400 anos que guarda as relíquias do jesuíta espanhol São Francisco Xavier – tem estado a ser terraplanado. Este terreno, segundo apurou a UCA News, foi destinado à construção de um centro de informações turísticas e interpretação do património.

Vários moradores testemunharam no local a ação das escavadoras, “derrubando restos de estruturas cristãs centenárias e carregando-as junto com os escombros – a evidência das antigas fundações feitas pelos portugueses”, denuncia a agência noticiosa.

A organização Citizens for Democracy e o Comité de Ação Save Old Goa já se manifestaram contra o que consideram um “ataque” às ​​estruturas patrimoniais na antiga capital colonial portuguesa, alertando para o facto de não se tratar de um incidente isolado.

“Velha Goa enfrenta inúmeras ameaças devido aos planos de construção de hotéis, casas de fazenda e vilas privadas na cidade, que, com exceção de sete igrejas e monumentos protegidos, é composta principalmente de ruínas”, alertam as ONG.

Numa carta recentemente enviada ao Ministério Federal da Cultura, aquelas organizações denunciam que “o lobby dos construtores está descaradamente a tentar destruir o Património Mundial em Velha Goa” e instaram-no a “fazer um balanço do que está a acontecer em matéria de proteção do património”.

“Ainda é possível mitigar as ameaças atuais e garantir que Velha Goa, um sítio de imensa importância histórica, cultural e religiosa, seja preservada para a apreciação e o benefício das gerações futuras. A hora de uma ação decisiva é agora, antes que os impactos irreversíveis do desenvolvimento descontrolado corroam ainda mais o ‘Valor Universal Excepcional’ que faz de Velha Goa um tesouro para toda a humanidade”, conclui a missiva.

 

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