[Nas margens da filosofia]

Memórias divertidas de uma escola do antigamente

| 18 Fev 2022

(Nas margens da filosofia – XLII)

1951: Grupo da turma 2ºA do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho com 3 alunas seniores que nos prepararam para o Crisma. A braçadeira assinalava a chefia. Foto: Direitos Reservados.

 

Comecei a minha carreira de professora a ensinar na mesma escola que frequentei e que nessa altura se chamava liceu[1]. Continuo a morar no bairro dessa escola. O nome da mesma está escrito no passeio, em letras azuis que se destacam no empedrado branco. No seu exterior o edifício mantém-se igual e embora nele não entre há muitos anos presumo que no interior haja poucas alterações. Mas quando hoje passo por perto e vejo magotes de rapazes e raparigas a conversar, a namorar, a beijar-se não posso deixar de recordar a hora da saída, “no meu tempo”, em que era absolutamente proibida a presença de rapazes na placa em frente ao liceu.

Até à quarta classe tive aulas em casa com uma professora particular e a ida para a escola foi o encontro com novas amigas e a aprendizagem de um modo novo de estar no mundo, com regras diferentes e por vezes estranhas. A primeira delas foi ser chamada pelo número. Era o modo como as professoras nos tratavam e nós, interiorizando a voz do poder, insistíamos nessa identificação numérica. No meu primeiro ano tive alguns problemas de identidade pois, devido a sucessivas desistências de colegas, fui a trinta, a vinte e nove e a vinte e oito. Embora soubesse de cor o nome de todas as meninas da turma – acho que ainda hoje consigo reconstituir os lugares em que cada uma se sentava – as minhas melhores amigas eram a “um” e a “quinze”. A minha amizade com a “quinze” (que depois ganhou nome) manteve-se ao longo de anos, ultrapassando as tentativas falhadas de organizar campeonatos de um jogo de bola (então chamado “matas”), sistematicamente negados pela reitora que os considerava demasiado violentos para meninas.

A ginástica era outra fonte de estranheza. Tínhamos umas saias horrorosas de sarja branca, pingonas e compridas, por debaixo das quais vestíamos umas “culotes” que nos tapavam os joelhos. Havia duas professoras de idade indefinida mas que se me afiguravam decrépitas. Uma era peso pluma, curvada e carcomida. Interessava-se muito pela nossa saúde, mandava-nos sentar em círculo à volta de uma braseira e falava dos malefícios de quem saía à rua sem luvas e sem touca na cabeça. A outra era uma espécie de paquiderme que nos ensinou a posição de sentido e de descansar. Tanto uma como outra nos queriam sentadinhas no ginásio, passando metade da aula a conferir o material e a marcar faltas a quem não tinha o nome escrito nos sapatos. Como nos balneários não havia chuveiros, agora, retrospectivamente, apercebo-me da vantagem dessas sessões sentadas para as quais só havia compensação em actividades extra-escolares, à nossa conta.

As aulas de matérias “sérias”, para além da informação debitada que devíamos restituir sem grandes fantasias, constituíam essencialmente oportunidades de socialização e inculturação. O ritmo era marcado por várias campainhas, ao som das quais formávamos para entrar e voltávamos a formar para sair. Levantávamo-nos quando apareciam as professoras e durante as aulas procurávamos passar tanto quanto possível despercebidas. Os dez minutos iniciais eram dedicados à chamada e ao sumário. Este exigia cuidados de desenhador gráfico pois devia circunscrever-se a um rectângulo, traçado a vermelho e absolutamente equidistante das margens do caderno. Qualquer falha contava para a nota final. E o fechar do sumário dava ao caderno diário o estatuto de objecto sagrado – era absolutamente proibido acrescentar qualquer vírgula ao que fora ditado e escrito.

Uma parte da aula era dedicada à exposição da matéria, a restante às chamadas. Nestas havia uma ou duas desgraçadas que subiam para o estrado e eram bombardeadas com perguntas enquanto o resto descansava e as mais atrevidas jogavam batalha naval ou trocavam cromos. Tirando uma excepcional professora de inglês e duas outras de história e literatura, quase tudo o que nos ensinaram era extremamente maçador, não havendo qualquer preocupação quanto à adequação dos métodos usados, ou melhor do método, que hoje sei classificar como exclusivamente expositivo, mas que na altura pensava ser o único possível. A ideia de uma participação espontânea ou de uma investigação personalizada seria encarada com horror, tanto por parte das docentes como das alunas, por razões obviamente diferentes.

Nos primeiros anos tive duas ambições: ser chefe de turma e ter a farda da mocidade para poder faltar às aulas e desfilar atrás de uma bandeira, o que então se me afigurava o máximo. Da primeira ambição fui naturalmente afastada por rivais de peso – as filhas de professoras da casa que de imediato ocuparam os postos de chefia, empunhando braçadeiras verdes e cor de laranja – cada turma tinha uma chefe (braçadeira verde larga), uma subchefe (verde fininha) e duas auxiliares (fitas laranja). Da segunda fui demovida pelos meus pais a quem repugnava a ideia de terem uma filha soldada. Mas ainda hoje me lembro da inveja que sentia quando algumas das colegas se aperaltavam para enterros e paradas, vestidas de castanho e verde, cheias de cintos e emblemas.

Não se pense que fui infeliz neste ambiente. Pelo contrário, a estranheza partilhada deu azo a grandes amizades, ao aguçar do sentido de humor, à invenção de estratagemas para subverter as regras. Um dos que me lembro era a pintura das meias. Para a farda estar completa, para além da bata branca, eram-nos exigidas meias, o que no verão era particularmente incomodativo. Assim, pintávamos traços verticais nas pernas a imitar costuras (não havia collants na altura) e durante muito tempo iludimos as empregadas que à entrada verificavam se estávamos nos conformes. O mesmo com os cartões de saída, objecto importantíssimo sem o qual ninguém franqueava as portas do liceu. Eu e as minhas irmãs constantemente nos esquecíamos dos cartões. Morando em frente da escola, parecia um problema fácil de resolver. Na verdade, cada esquecimento dava azo a intermináveis telefonemas para casa, exigindo que alguém nos trouxesse o salvo conduto e só depois de devidamente identificadas nos deixavam sair. A troca de cartões e de fotografias era uma prática comum e a suspensão prevista para quem infringisse esta norma dava um sentido de risco ao nosso quotidiano monótono.

Aprendida a linguagem considerada correcta e identificados os comportamentos permitidos, podíamos aspirar a que professoras e empregadas nos deixassem em paz. Lentamente se construía um modus vivendi em que todas sabiam o seu lugar e nenhuma pretendia sair dele. Quando na Faculdade encontrei pessoas que protestavam, organizavam comícios e assembleias, participavam em reuniões de estudantes, discutiam, argumentavam, pediam a palavra e promoviam manifestações, o meu espanto foi genuíno: De onde saiu esta gente? De que massa é feita? Será que andaram em liceus como o meu?

Passados tantos anos olho com nostalgia para a minha experiência enquanto aluna de uma escola do antigamente. E admito que este passado me foi extremamente útil para perceber o modo como motivar alunos e alunas adolescentes, algo determinante para quem regeu durante anos uma cadeira de Didáctica da Filosofia onde se ensinava a ensinar.

 

[1] Este texto recorda aspectos por mim referidos no artigo “Um mundo estranho”, publicado em Memórias do Liceu Português, coord. Sara Marques Pereira, Lisboa, Livros Horizonte, 2006, pp. 280 e segs.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

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