Memórias do Levante

| 8 Jul 20

À ideia da raça superior sucedeu a ideia da cultura superior, quase tão maléfica como aquela. E escravizar os seres humanos “inferiores” deu lugar a desvalorizar ou mesmo destruir as culturas “inferiores”. O resultado é que, se ninguém ganhou com isso, a verdade é que a humanidade perdeu e muito.

 

Se sou feito de argila,
A Terra inteira é o meu país
E todos os seres me são próximos.
(Omayyah Ibn Abissalt al-Andalusi, séc. XI)

 

Confesso que nutro uma simpatia especial por Amin Maalouf, jornalista e ficcionista libanês amplamente galardoado, cujo trabalho tem sido reconhecido em todo o mundo e que integra a Academia Francesa desde 2011. Escreve essencialmente sobre as culturas mediterrânicas e o Próximo Oriente com uma lucidez impressionante e uma legitimidade que lhe advém de as conhecer como poucos.

Na obra O Naufrágio das Civilizações publicada este ano em Portugal e que ganhou o Prémio Calouste Gulbenkian, desenvolve uma tese que é pouco partilhada no Ocidente, mas que se origina num olhar particular e muito próprio sobre o mundo. Trata-se duma perspectiva que não é eurocentrada e por isso vale a pena considerar, vinda de quem vem.

A ideia de Maalouf é que estamos de há tempos para cá perante um esgotamento civilizacional devido à falta de confiança no que é diferente, à xenofobia, à intolerância, à falta de diálogo inter-religioso, ao racismo, ao nacionalismo doentio e ao populismo, além do hiperindividualismo trazido pela pós-modernidade. Este fenómeno, que o autor classifica como “naufrágio iminente”, não é compensado pelo fantástico progresso tecnológico e o aumento do conhecimento científico que estamos a experimentar, os quais, pelo contrário, talvez até agravem ainda mais a situação. Parece que a liberdade e o progresso que estão ali mesmo à mão teimam em fugir do nosso alcance e a humanidade marcha resolutamente na direcção oposta, a caminho da destruição.

Porém, o tempo não é de pessimismos mas de reflexão e apelo à lucidez sem nunca perder a esperança, pois “É melhor enganar-se na esperança do que acertar no desespero”. Mas a verdade é que os Estados Unidos estão a perder a relevância, a Europa fragmenta-se, grandes nações como a China, a Índia e a Rússia correm cada uma por si no tabuleiro do xadrez mundial, e os povos árabes-muçulmanos conhecem cada vez mais a crise e o desespero. Maalouf presenciou alguns dos mais dramáticos acontecimentos da história contemporânea, pois no final da guerra do Vietname estava em Saigão e presenciou o início da revolução islâmica em Teerão.

A dificuldade em valorizar as culturas que nos são estranhas talvez tenha sido um dos maiores problemas dos povos, incluindo dos europeus, num mundo que se manteve demasiado tempo eurocêntrico. Maalouf conta que My Way, uma das mais emblemáticas canções americanas, popularizada por Frank Sinatra, terá sido escrita inicialmente para um francês do Egipto e depois adaptada para inglês por “Paul Anka, um americano de origem sírio-libanesa”.

A lucidez do escritor leva-o a considerar que algumas forças de esquerda que antes proclamavam o humanismo e o universalismo, reduzem-se hoje a combates de natureza identitária como a defesa de minorias étnicas, comunitárias ou profissionais, numa espécie de “coligação de ressentimentos”, que só podem redundar em fragmentação e desintegração. Enquanto isso as forças conservadoras levantam as bandeiras unificadoras de reacção contra esses acantonamentos, dando voz às maiorias que se sentem sem voz pela via dos populismos.

Maalouf recupera as memórias do Levante, essa zona do mundo um pouco imprecisa, onde “as culturas antigas do Oriente mediterrânico frequentaram as culturas, mais jovens, do Ocidente.” Talvez se deva a esse “encontro falhado” boa parte dos dramas que hoje vivemos, pois “se os adeptos das religiões monoteístas tivessem continuado lado a lado, a viver juntos nesta região do mundo e conseguido conciliar os seus destinos, toda a humanidade teria tido diante de si, para inspirar e iluminar o caminho, um modelo eloquente de coexistência harmoniosa e prosperidade.” Infelizmente não foi isso que sucedeu e quando a luz do Levante se apagou vieram as trevas.

O ideal levantino poderia ainda hoje constituir um modelo de convivência civilizada, de aceitação e respeito pelas diferenças, que pudesse tirar partido do melhor de cada cultura específica no benefício do todo.

Se não há raças inferiores também não existem culturas inferiores, mas apenas diferentes, sendo cada uma delas melhor do que outras numas vertentes e pior noutras. Como diz um obscuro poeta árabe andaluz, viemos todos da mesma argila e por isso todos os seres humanos são próximos. Queiram eles ou não.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Líderes religiosos pedem fim dos crimes contra os uigures na China

Os cardeais de Myanmar e da Indonésia, os principais rabis do Reino Unido, o representante do Dalai Lama na Europa e diversos líderes muçulmanos estão entre os 76 signatários de uma carta divulgada este domingo, 9 de agosto, a pedir o fim de “uma das mais egrégias tragédias humanas desde o Holocausto: o potencial genocídio dos Uigures e outros muçulmanos na China”, divulga o semanário católico britânico “The Tablet”.

Assassinado reitor do Seminário Romero, em El Salvador

O padre Ricardo Cortez, reitor do Seminário Santo Óscar Arnulfo Romero e pároco da povoação de San Francisco Chinamequita, em El Salvador, foi assassinado na passada sexta-feira, 7 de agosto. A diocese de Zacatelouca, à qual pertencia, emitiu um comunicado onde pede a investigação do crime, que considera “inexplicável” e “execrável”, avança o Vatican News.

Primeira tradução ecuménica da Bíblia editada no Brasil

Uma ampla equipa de biblistas, exegetas e estudiosos de diversas confissões cristãs e do judaísmo esteve envolvida no projeto inédito de tradução ecuménica da Bíblia para a língua portuguesa, que chega agora às livrarias brasileiras através das Edições Loyola.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

Navio de resgate apoiado pela Igreja Protestante prestes a partir para o Mediterrâneo

Navio de resgate apoiado pela Igreja Protestante prestes a partir para o Mediterrâneo

Chegaram esta terça-feira, 11 de agosto, ao navio de resgate de migrantes Sea Watch 4 os últimos membros da tripulação. Os treinos e exercícios já começaram, e ainda esta semana será dada a partida do porto de Burriana (Valencia, Espanha) para o centro do Mediterrâneo, numa missão tornada possível devido à iniciativa da Igreja Protestante Alemã e ao apoio de mais de 500 organizações que participaram na campanha de recolha de fundos (crowdfunding) #WirSchickenEinSchiff (“Nós enviamos um navio”).

É notícia

Entre margens

Plano de recuperação… Também social? novidade

Deste modo, corre-se o risco de persistir a subalternidade dos problemas e dinamismos sociais perante a força da economia. Talvez se atenuasse, ou infletisse, a subalternidade se fosse cumprida a Constituição da República no articulado relativo aos planos de desenvolvimento económico e social (artºs. 90º.-91º.); e, melhor ainda, se fosse promovido o desenvolvimento local, a partir da freguesia e do protagonismo de cada pessoa e instituição.

Esta crise das lideranças é dramática

Mesmo na velha Europa o que vemos são indivíduos muito pequeninos, em dívida para com a ética política, a moral pessoal e desprovidos de sentido de estado. A corrupção ronda estas figuras e contam-se pelos dedos das mãos as que conseguem manter uma postura decente. Temos ainda os grupos extremistas de direita e de esquerda que ameaçam os regimes democráticos, os quais por sua vez se vão deixando colapsar aos poucos por dentro.

Que filosofia pretendemos ensinar aos adolescentes?

Ensinar filosofia implica necessariamente filosofar, ou seja, não nos podemos limitar a transmitir, reconstituir e explicar o pensamento dos filósofos. Depois de um primeiro passo que é compreender as teorias e os problemas, interessa apropriarmo-nos deles, ou seja, trazê-los para a nossa vida, examinando-os, questionando-os ou deles nos demarcando com opiniões fundamentadas.

Cultura e artes

A carne, a história e a vida: uma viagem fascinante

A tradição espiritual cristã, radicada na Boa-notícia gerada pelo Novo Testamento, permanece ainda um continente a explorar para muitos dos discípulos de Jesus. A expressão mística contém uma carga associada que não ajuda a visitar o seu espaço: associamo-la a uma elite privilegiada, a fenómenos extraordinários, a vidas desligadas dos ritmos e horários modernos.

Manuel Cargaleiro oferece painel de azulejos a paróquia de Lisboa

Foi como “escrever uma oração” ou fazer “o ramo mais bonito para Deus”. Assim definiu o pintor e ceramista Manuel Cargaleiro o seu mais recente trabalho: um painel de azulejos, que ofereceu à Paróquia de São Tomás de Aquino, em Lisboa. A cerimónia de inauguração e bênção decorreu esta segunda-feira e contou com a presença do autor, avança o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Sopas do Espírito Santo dão a volta ao mundo em novos selos de correio

Um “teatro”, um bodo e uma coroa para a circulação de âmbito nacional; foliões, um “balho” e uma pomba para a Europa; e uma bênção do bodo, as sopas e uma rosquilha de massa sovada para o resto do mundo. O culto do Paráclito, ou seja, “aquele que ajuda, conforta, anima, protege, intercede” está desde a última quinta-feira, 30 de Julho, representado numa emissão filatélica dos Correios de Portugal, dedicada às festas do “Senhor Espírito Santo”, como é habitualmente designada nos Açores a terceira pessoa da Santíssima Trindade cristã.

Sete Partidas

STOP nas nossas vidas: Parar e continuar

Ao chegar aos EUA tive que tirar a carta condução novamente. De raiz. Estudar o código. Praticar. Fazer testes. Nos EUA existe um sinal de trânsito que todos conhecemos. Porque é igual em todo o mundo. Diz “STOP”. Octogonal, fundo branco, letras brancas. Maiúsculas. Impossível não ver. Todos vemos. Nada de novo. O que me surpreendeu desde que cheguei aos EUA, é que aqui todos param num STOP. Mesmo. Não abrandam. Param. O carro imobiliza-se. As ruas desertas, sem trânsito. Um cruzamento com visibilidade total. Um bairro residencial. E o carro imobiliza-se. Não abranda. Para mesmo. E depois segue.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco