Pintura

Menez na Casa das Histórias com poemas de Sophia

| 12 Jun 2022

Tenho na parede da minha sala uma serigrafia que não me canso de contemplar da grande pintora Menez , de seu nome Maria Inês da Silva Carmona Ribeiro da Fonseca (1926-1995), Prémio Pessoa 1990. Esta serigrafia (de 1994, número 85/200), é a única obra de arte original que alguma vez comprei. Era então diretora-geral da Educação Básica (1996-1999) e tinha despesas importantes asseguradas. Ao chegar a casa, depois de dias e semanas sem fim de trabalho ininterrupto e frequentemente difícil, refastelava-me numa poltrona da sala a “escutar” esta serigrafia de uma pintora de quem tanto gosto: uma serigrafia sem título – como é tão comum na obra de Menez. É que Menez dá-nos a liberdade de ver sem qualquer orientação. A serigrafia lembra-me uma cena do Apocalipse, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas. Estar em repouso a olhá-la ajudava-me a colocar a minha ação no devido patamar e, apesar de tudo, muita coisa boa foi emergindo dessa real mas difícil “carga de trabalhos”. Sugere-me uma cena do Apocalipse…

 

Menez, sem título: “Uma cena do Apocalipse, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas.” Foto © Teresa Vasconcelos

Menez, sem título: “Uma cena do Apocalipse, uma espécie de luta entre o Bem e o Mal, entre a Luz e as Trevas.” Foto © Teresa Vasconcelos

 

Menez atribui o epíteto de “sem título” à maior parte das suas pinturas. Gosto. Cada um/uma passeia pela sua obra e deixa que ela fale a cada um/a no contexto de momento. Relembro Sophia:

Depois

Depois da cinza morta destes dias,
Quando o vazio branco destas noites
Se gastar, quando a névoa deste instante
Sem forma, sem imagem, sem caminhos,
Se dissolver, cumprindo o seu tormento,
A terra emergirá pura do mar
De lágrimas sem fim onde me invento.

(Sophia de Mello Breyner)

 

Visualmente a serigrafia que possuo desloca-se entre o cinzento e o colorido pastel discreto – tão ao jeito de Menez! – com figuras femininas e anjos, carregando crianças numa qualquer praia. Nos tons cinza-escuro aparecem demónios com asas de morcego, uma figura com chifres empunhando talvez uma espada, sob nuvens de tempestade. A serigrafia está como que dividida em duas partes: na de baixo, bem ligada à terra, estão mulheres – uma delas de pé em gesto de luta: vestes verde-claro e braço erguido, outra docemente inclinada sobre uma criança, outras figuras, talvez santos, anjos, crianças; a parte de cima da pintura, tocando o céu carregado e com nuvens escuras, incorporando as forças do Mal.

Interpreto as duas dimensões da serigrafia como se fossem perspetivas de um todo e por isso me faz sentido o poema da Sophia que lembrei. Ora esta disposição usada por Menez (ou a interpretação que eu própria lhe dei) é contrária à simbologia dos índios sul-americanos, em que as forças do mal estão abaixo da terra e as forças do bem, do espírito, do transcendente, estão num terceiro patamar. O museu Casa del Alabado (arte pré-colombiana em Quito, Equador), que há uns anos visitei, está estruturalmente organizado nesses três patamares: o mundo dos mortos na cave, o mundo primordial (vida quotidiana) no 1º piso e o mundo espiritual dos xamanes no piso superior. Encontrei patamares semelhantes no Museu de Antropologia da Cidade do México.

Menez apresenta as dimensões de modo diverso, qual cenas de uma batalha, invertendo os patamares com a liberdade que só uma artista como ela – uma mulher livre! – pode ter. Diria que na serigrafia o BEM está fortemente enraizado na terra, no barro mole ou na areia de uma praia doirada com o mar azul cinza ao fundo. As forças do MAL estão suspensas do céu e das nuvens cinzentas, inscritas na tempestade e nas trevas. Quase me apetece continuar a interpretar infinitamente esta serigrafia… tão desafiadora para os tempos de guerra e insegurança que vivemos hoje… mas apraz-me sublinhar simplesmente esta “geografia” a que dei uma possível interpretação.

Ligo ainda esta contemplação às mulheres das praias da minha infância, as sargaceiras da Apúlia (Esposende) que, pondo os filhos na areia a brincar, carregavam sargaço do mar e o punham ao sol a secar, perfumando a praia de um cheiro forte a maresia… Evoco um poema de Sophia tão visual como uma pintura da Menez:

 

Mulheres à Beira-Mar

Confundindo os seus cabelos com os cabelos
do vento, têm o corpo feliz de ser tão seu e
tão denso em plena liberdade.
Lançam os braços pela praia fora e a brancura
dos seus pulsos penetra nas espumas.
|Passam aves de asas agudas e a curva dos seus
olhos prolonga o interminável rastro no céu
branco.

Com a boca colada ao horizonte
aspiram longamente
 a virgindade de um mundo que nasceu.
O extremo dos seus dedos toca o cimo de
delícia e vertigem onde o ar acaba e começa
E aos seus ombros cola-se uma alga,
feliz de ser tão verde.

(Sophia de Mello Breyner)

 

Assim tinha necessariamente que ir ver a exposição antológica da Menez – na Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais (até 2 de outubro). Paula Rego, de quem Menez foi amiga [e que acaba de nos deixar], “empresta” uma das galerias da sua Casa das Histórias. Tão diferentes eram estas amigas!

Ousei pedir às palavras de Sophia (1919-2004) que continuassem a “ilustrar” com palavras os quadros expostos da Menez enquanto deambulava pela galeria. Sem ter qualquer certeza imagino que se tenham cruzado e conhecido – Sophia e Menez – ou, pelo menos, quero inventar tal na minha imaginação… Menez era muito amiga de Ruben A., que por sua vez era primo de Sophia.

 

Menez, estudo para Meninas Dançando. Foto © Teresa Vasconcelos

Menez, estudo para Meninas Dançando. Foto © Teresa Vasconcelos

 

A exposição limita-se a uma grande galeria. Divago calmamente e de novo volto atrás. São cerca de 30 pinturas, gravuras ou desenhos, mas também o estudo para o conhecido painel de azulejos Meninas Dançando (que está no muro do jardim na rua Marcos Portugal). Surpreende-me um belo estudo – mais uma vez em tons pastel – para uma tapeçaria manufacturada em Portalegre, sugerindo uma casa aberta para um “nada”. Uma das poucas pinturas com título – Antepassados, 1966 – também figura na exposição: uma dimensão complexa de pessoas entrelaçadas.

Entre um certo “abstracionismo lírico” como José Augusto França, crítico de arte, chama às suas obras iniciais, e a pintura figurativa dos anos 80, apercebemo-nos da “riqueza da vida interior” de Menez (in Observador).

A fase mais tardia de Menez (anos 80), figurativa e sempre “sem título”, profundamente íntima, em que prevalecem tons azuis e pastel, estende-se pela parte final da galeria. Menez, a pintora, revela-se a si própria dentro dos seus quadros. Não pude deixar de me lembrar de Velasquez, o pintor, dentro do quadro das Meniñas (Museu do Prado) ou René Magritte dentro do quadro olhando um ovo (o seu “modelo”) que, no cavalete, já é um magnífico e esvoaçante pássaro. Ou da investigadora etnográfica que fui “dentro” do seu contexto de observação sobre o que escrevi abundantemente.

Em Menez não falo de auto-retratos, apenas sugestões, interconexões, em que a pintora “se pinta dentro do seu quadro” de maneiras subtis: um braço a esticar-se em direção a um pote com pincéis, um livro aberto no seu atelier com vista para o Tejo e, dentro do mesmo quadro, um outro quadro a abrir para uma janela fechada. Um braço a pintar no cavalete com incidência no pote de pincéis e uma silhueta sugerindo uma estátua. Uma mulher a pintar, vestida em tons de rosa-salmão a olhar para um comprido corredor, cheio de sombra que leva a um jardim de bucho onde se vê, bem longe, uma outra figura vestida de cor salmão, de pé a olhar para o infinito, como se a si mesma se desdobrasse…; uma pintura, bem contemplativa, com um livro à frente e outra figura ao fundo (ela própria, talvez?); uma mulher pensativa com uma criança mas sem olhar para ela… São quadros que sugerem uma solidão imensa, assim o vi e li, projetando-me no quadro. Menez virada para o interior, por vezes triste, sombria, misteriosa, desdobrada… Menez inquieta.

O estudo original em forma de arco para o Memorial comemorativo do centenário de Sophia de Mello Breyner (1991) – que, em Belém, está ilustrado com poemas selecionados por Maria Andresen de Sousa Tavares – termina a exposição. Este estudo sugere-me figuras femininas de diferentes dimensões dançando numa praia, meninas/mulheres à volta de um anjo-estátua, flores emergindo da terra arrelvada e verde, salientando as cores dourada para a areia, azul para o mar (talvez ao fundo…). Uma dança, sim. Como outra belíssima dança de roda de Paula Rego intitulada Children´s Stories (“histórias para crianças”, 1989). Lembro quase de cor o poema de Sophia sobre as mãos:

 

Mãos

Côncavas de ter
Longas de desejo
Frescas de abandono
Consumidas de espanto
Inquietas de tocar e não prender

(Sophia de Mello Breyner)

 

 

Menez: uma solidão imensa? Foto © Teresa Vasconcelos

Menez: uma solidão imensa? Foto © Teresa Vasconcelos

 

Deambulo pela exposição com uma dimensão breve que me permite olhar e voltar a olhar, absorver e reabsorver, numa caminhada lenta e silenciosa, voltando ao início e aproximando-me mais de detalhes figurativos dentro de uma pintura abstrata… com o luxo de ter uma sala só para mim e para quem me acompanhava….

Pouco habituada a ver a explosão de vermelhos e grenás de algumas das suas pinturas não figurativas espanto-me com aquela alegria e luz! Uma Menez que conheço menos. Mas caminho para as pinturas mais figurativas da artista no seu atelier em que prevalecem os tons cinza e azul, algum tom salmão nas vestes das mulheres que não são mais do que ela própria. Mulheres solitárias… sofridas, por vezes ausentes.

Pouso o meu olhar na arte de Menez enquanto “lá fora” continua uma guerra impossível e cruel e o “fantasma” da pandemia, qual nuvem cinzenta, nos continua a ameaçar. Estranho estar aqui, em Cascais, a sorver toda esta beleza. Para mim, é sobrevivência. Acredito profundamente que a arte “salva” e “redime” o mundo. A ela me agarro com as minhas duas mãos enquanto balbucio e suplico:

 

Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo ainda está no começo
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

 

Obrigada, Menez, mulher discreta, que visitei numa tarde luminosa, em Cascais. Quem sou eu para “ler” a tua arte teimosamente “sem título? Ousei, ousei “ler” com a inspiração da poesia da tua “amiga” Sophia.

Que o Espírito de Deus – vivemos o Pentecostes no calendário cristão… – nos segure em “tempos [tão] sombrios”!

Que a arte nos salve!

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior (aposentada) e participante do Movimento do Graal; Contacto: t.m.vasconcelos49@gmail.com

 

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