“Menino Menina” – um livro só para crianças?

| 7 Nov 2021

Capa do livro Menino Menina, com texto e ilustrações de Joana Estrela.

 

Recentemente tive acesso ao livro de Joana Estrela, Menino, Menina (Planeta Tangerina, 2020) que aborda as questões de género.

Não pude deixar de ter este pensamento recorrente: dramatiza-se e lançam-se impropérios sobre a ideologia de género e aqui está tudo tão bem explicado às crianças, de modo simples e objetivo!

Segundo a Wikipédia:
Teoria de género, também chamada de ideologia de género, é um termo criado no meio neoconservador católico para se referir aos estudos de género, pós-feminismo e pós-generismo. Aqueles que usam essa expressão argumentam que os estudos de género fundamentam uma conspiração que visa destruir ‘a família’ e uma suposta ‘ordem natural’ que fundamenta a sociedade. O termo também é utilizado por pós-estruturalistas e pós-modernistas, como contra-ataque, para se referir ao generismo, crença de que se deve reforçar os papéis sociais de género de acordo com a designação sexual ao nascer.

“A ideia da ideologia de género tem sido descrita como um ‘pântano moral’ ou uma teoria conspiratória que alega que existe uma conspiração global para minar a sociedade. Ela também é aplicada como retórica anti-LGBT em geral.”

 

Joana Estrela afirma inicialmente que “as identidades são múltiplas”, que não somos só uma coisa, “somos todos muito mais”. Termina o livro com a afirmação: “O segredo não está nos olhos de quem vê” … “só tu te conheces melhor que ninguém”… “e segues o caminho que mais te convém”. Tão simples! Tão lógico!

“Desconstroem-se estereótipos e ajuda-se a criança a ter um olhar interrogativo e crítico sobre aquilo que vê e observa.” Ilustração © Joana Estrela.

 

Confesso que não vejo por que razão a “ideologia de género” abala os alicerces da sociedade ou os “fundamentos da família”. Ou que atropela “a ordem natural das coisas”. Não vejo a “ideologia de género” como uma conspiração ou emanando dela o perigo de um “pântano moral”. Vejo a questão do género não como uma ideologia, mas como uma realidade, tal como há anos a questão da homossexualidade – que sempre existiu nas nossas sociedades, ainda que camuflada –, se tornou parte da realidade social. Depois de tantos “impropérios” lançados pela Igreja Católica, esta mesma Igreja é arrastada pelas evidências da sociedade civil a reconhecer uma multiplicidade de possibilidades de sermos pessoas e o direito das minorias a serem reconhecidas (portanto, mais do que “aceites”). É importante a Igreja dar novos passos, como reconhecer o casamento entre homossexuais e a possibilidade de educarem filhos.

Reconheço no entanto que, mesmo que alguns jovens (ainda adolescentes) se sintam inconfortáveis no seu corpo, deve haver um caminho de maturação sob orientação de profissionais especializados que escutem os jovens nas suas preocupações e os ajudem a discernir. Não se deve vulgarizar. Parece-me que as pessoas transgénero serão sempre minorias a precisar de acompanhamento, discernimento e reconhecimento. E depois reconhece-se o direito a fazerem opções informadas, sabendo da irreversibilidade de uma mudança de género.

“Reconheço que, mesmo que alguns jovens se sintam inconfortáveis no seu corpo, deve haver um caminho de maturação sob orientação de profissionais que escutem os jovens nas suas preocupações.” Ilustração © Joana Estrela.

 

Volto ao livro para crianças. Joana Estrela é simultaneamente autora do texto e das ilustrações. O livro questiona as cores tradicionalmente atribuídas aos meninos ou às meninas, ou as roupas (saia, calças), cabelos (longos, curtos), meninas jogando futebol (relembro a equipa de futebol feminino do Afeganistão que foi recentemente recebida em Portugal), meninos aprendendo ballet ou a cuidar de bebés… Desconstroem-se estereótipos e ajuda-se a criança a ter um olhar interrogativo e crítico sobre aquilo que vê e observa. E conversam-se estas questões com as crianças. No final do livro afirma-se: “Não há só dois tipos de pessoa… que entre si são iguais”. Tudo isto ao nível da compreensão das crianças pequenas. Não se dramatiza, apenas se constata uma realidade.

Este é um livro habilmente concebido (frases curtas e incisivas, imagens simples e apelativas) que explica a crianças de qualquer idade – e a adultos com mentes abertas – de que se trata quando se fala em questões de género. Porque temos medo de ser quem somos, de aceitar o que é diferente? Porque temos medo da nossa (hipotética) homossexualidade? Ou da possibilidade de sermos transgénero? Não têm os/as gays o direito a existir sem serem vítimas de anátemas e preconceitos? Não terão direito a casar e a adoptar crianças?  Estudos internacionais demonstram que casais gays podem educar crianças sem que estas se tornem inexoravelmente homossexuais. Outra questão: porque se metem no mesmo cesto gays e pedófilos? Talvez fosse mais importante a Igreja (e especificamente a Igreja em Portugal) arrumar bem a casa em termos dos casos de pedofilia que existem em todo o mundo e que necessariamente existem entre portas (uns já reconhecidos, outros ainda camuflados). Isso, sim, merece um anátema, tais práticas mergulham a Igreja num pântano. É preciso curar. É preciso proteger as crianças que ficarão afetadas por toda a sua vida. Com isto, sim, a Igreja devia indignar-se e preocupar-se.

Em termos mais amplos, penso que a Igreja Católica deverá alertar mais para os problemas da sociedade em que vivemos: a pobreza endémica, as desigualdades sociais, a ausência de paridade entre homens e mulheres, o desrespeito pela criação, as perseguições religiosas, a corrupção e os offshore e – sem dúvida – a ineficácia da justiça. Essas sim, são injustiças.  Essas sim, devem ser denunciadas. Todas essas práticas contradizem o Evangelho. Porquê esta militância em questões da moral sexual e das escolhas morais dos cristãos? No tempo de Jesus o adultério era punido violentamente. Que faz Jesus Cristo? Acolhe a mulher adúltera e não a condena.

Voltando ao livro: é do conhecimento científico que todos possuímos hormonas masculinas e femininas, permitindo diferentes gradações do nosso ser homem ou mulher –“não há só dois tipos de pessoas…”, afirma Joana Estrela. O símbolo do arco-íris não indica uma completa gradação de cores? Não é a identidade de género fluida? Todas estas questões são desconstruídas neste livro. Todas estas questões são passíveis de ser levantadas na escola, por exemplo na unidade de Educação para a Cidadania ou em outras áreas do currículo. Torna-se possível esclarecer os pais e as famílias, serenar as convicções religiosas de cada um, sensibilizar os partidos políticos e as associações de cidadãos. Tão simples! Sem dramatismos. Através de um livro para crianças….

“Não há só dois tipos de pessoa… que entre si são iguais”. Ilustração © Joana Estrela.

 

Teresa Vasconcelos (professora do Ensino Superior e participante no Movimento do Graal). t.m.vasconcelos49@gmail.com.

 

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