Menos deslumbramento pela tecnologia e mais respeito pelas pessoas

| 18 Jan 2024

Série Mr Bates vs the Post Office

Transmitida no início de Janeiro pelo canal britânico ITV, a história de Alan Bates, o chefe de posto de correio protagonista de uma campanha contra a injustiça, foi vista por nove milhões de espectadores. Foto © ITV

 

A história não era, até há pouco, amplamente conhecida. Terá começado antes do fim do século XX e prolongar-se-ia pela primeira década e meia do século seguinte. Durante este período, muitos chefes de postos de correio britânicos localizados em pequenas cidades ou em áreas rurais [1] foram sendo acusados de roubo, fraude e falsificação de contabilidade financeira. As incriminações eram simples e iguais: tinham subtraído dinheiro das contas bancárias dos postos de correio que dirigiam. As condenações, que atingiram muitas centenas de pessoas, chegaram a provocar, em casos extremos, suicídios ou, nos casos mais comuns, penalizações variadas, incluindo a prisão, e, evidentemente, o enxovalho público.

A BBC recordou esta segunda-feira, dia 15, os dias dramáticos vividos pelos chefes de postos de correio. As contas que faziam no papel estavam certas, mas o sistema informático assinalava a existência de grandes défices. Como sabiam da existência de uma cláusula no contrato especificando que eram eles os responsáveis por qualquer desaparecimento de dinheiro, ficavam alarmados. Os telefonemas para a assistência técnica não os sossegavam. A cada um era dito que não havia outros relatos de problemas idênticos. Cada um estava sozinho no seu incómodo. O problema colectivo acabava transformado em sarilho individual. A alternativa era sempre má: “pagar o défice em dinheiro imediatamente ou enfrentar um julgamento com alta probabilidade de acabar na prisão”.

O caso tem sido falado nestes dias mais recentes porque o primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, foi instado a anular as sentenças condenatórias dos chefes de postos de correio do seu país. A resolução surge justificada por ter ficado comprovado que houve uma tremenda injustiça. A culpa de tudo era, afinal, da informática (dos informáticos ou dos chefes dos informáticos, conforme se preferir): um sistema de software desenvolvido pela empresa japonesa Fujitsu fornecia dados incorrectos sobre facturação. A miraculosa e inquestionável informática tinha a responsabilidade por aquilo que Rishi Sunak considerou como um dos maiores erros judiciais da História do Reino Unido.

A resolução do primeiro-ministro do Reino Unido foi acelerada pela exibição televisiva da série Mr Bates vs the Post Office (e, claro, pela circunstância de ser ano de eleições gerais). Transmitida no início de Janeiro pelo canal britânico ITV, em quatro episódios, a história de Alan Bates, o chefe de posto de correio protagonista de uma campanha contra a injustiça, foi vista por nove milhões de espectadores. A BBC notava que a série, ao tornar evidente a magnitude do escândalo, provocou uma tão viva indignação que permitiu que se alcançasse rapidamente algo que não tinha sido possível lograr ao longo de décadas de reclamações e protestos.

Citado pela BBC, o actor que interpreta Alan Bates, Toby Jones, aproveitou para fazer uma profissão de fé no valor duradouro da arte dramática no progresso da consciencialização pública e dos debates nacionais. Uma série televisiva ficou, portanto, com o crédito de ter fornecido o suplemento de empatia necessário para suplantar os muitos anos de indiferença – cumulada de cinismo em alguns casos – que nem a persistência do Senhor Bates contrariou.

A história dos chefes de postos de correio “é um drama real de vidas destruídas pelo mau funcionamento de apenas um programa de software e pela cultura tóxica de uma empresa pública que deveria ter estado mais vigiada”, assinalava Marta Peirano nesta segunda-feira, dia 15, no diário espanhol El País. A jornalista usava avisadamente o caso para incentivar a que se ponderassem as consequências reais de introduzir “soluções opacas” para modernizar infra-estruturas sanitárias, educativas, financeiras e administrativas “num contexto político incentivado por uma forte exuberância tecnológica e pouco sentido de responsabilidade”.

A reflexão, como adverte ainda a jornalista, torna-se particularmente pertinente num momento em que a Inteligência Artificial se apressa a entrar em estabelecimentos de ensino, administração central e local, tribunais, centros de saúde e outros serviços críticos, substituindo o que aí mais falta faz: “melhores condições de trabalho e mais pessoal”.

Precisamos de menos deslumbramento pela tecnologia e mais respeito pelas pessoas.

[1] Conhecidos em inglês como subpostmasters, são parceiros de franquia ou proprietários de empresas independentes.

 

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