A mensagem de amor que fica da vida e da pessoa de Jesus é “absolutamente extraordinária”, afirmou a escritora Lídia Jorge no debate introdutório das I Jornadas da Associação Bíblica Portuguesa, em Lisboa. A autora de Misericórdia sublinhou ainda o facto de a narrativa criada em torno desse homem ter triunfado: “Triunfou mesmo quando ela é rejeitada, mal interpretada, mal utilizada – e foi muitas vezes ao longo dos séculos”, afirmou, na abertura da iniciativa, que decorreu na sexta-feira à noite na Brotéria, casa de cultura dos jesuítas portugueses, no Bairro Alto lisboeta.
«Jesus, Filho de Deus: verdade ou blasfémia?» era o tema das jornadas, que decorreram sexta-feira e sábado e se debruçaram sobre a figura do misterioso homem de Nazaré, assinalando os 1700 anos do primeiro Concílio Ecuménico, em Niceia, que teve a missão de preservar a unidade da Igreja, perante correntes teológicas que negavam a plena divindade de Jesus Cristo e a sua igualdade com Deus Pai.
Lídia Jorge acrescentou que Jesus “acabou por criar uma narrativa tão importante”, que “é praticamente seguida por um terço da humanidade”. Em declarações à agência Ecclesia, acrescentou que “é bom” que a pergunta que dava mote à iniciativa fosse colocada do ponto de vista teológico. Também “é bom” que as pessoas que se interessam pela ciência se debrucem sobre o Novo Testamento e se questionem sobre se Cristo ser filho de Deus corresponde à realidade ou se foi uma blasfémia dele próprio. Segundo Lídia Jorge, esta é uma questão que é “natural” e “absolutamente fulcral”.
A escritora começou por recordar a sua “herança da ideia de criança”, de que “Jesus era alguém que estava sempre presente”. Na adolescência “apareceu Cristo”, que a jovem Lídia “queria saber quem era”. E quando via em Boliqueime (Loulé), onde nasceu, a bela imagem do Menino Jesus da igreja, “não queria que ele fosse o mesmo da via sacra, crucificado”. “Olho para Cristo com a perspectiva de que não tenho a porta fechada”, acrescentou.
Segundo a escritora, a tensão entre a natureza divina e humana de Jesus Cristo “nunca será resolvida: o tempo vai trazendo novas visões, novas perspectivas”, acrescentou. “A criação da ideia de que há uma tríade do Pai, do Filho e do Espírito Santo é alguma coisa que, para muitos, continua a ser inadmissível. E, para outros, é o fundamento de uma Igreja, de uma civilização e de uma cultura. Eu acho que é muito difícil ultrapassar isso.”
“Do Nazareno ao Niceno”

O bispo auxiliar de Lisboa, Alexandre Palma, a teóloga Sónia Monteiro e a escritora Lídia Jorge, durante o debate sobre “Jesus Cristo: verdade ou blasfémia?”. Foto © Agência Ecclesia/LJ
Promovida pela revista Brotéria e a Associação Bíblica Portuguesa, a iniciativa começou com Lídia Jorge e Alexandre Palma, bispo auxiliar de Lisboa, numa conversa com o tema “Do Nazareno ao Niceno”, moderada pela teóloga Sónia Monteiro.
O bispo sugeriu que Niceia é “uma etapa na construção da figura de Jesus” e “um esforço por substantivar a fé”, que não começa com o concílio da actual İznik (Turquia), nem acabou ali. Niceia, por exemplo, “é quase omisso em relação à humanidade de Jesus”: só 126 anos depois, em Calcedónia, isso ficará consagrado. “O que Niceia afirma é que Deus, na sua plenitude, está a entrar na história”.
Jesus, acrescentou o bispo e professor de Teologia, é uma figura interpeladora “em qualquer circunstância”, tanto para aqueles que o consideram como “verdade”, como para os que “eventualmente o não consideram como tal”. “A figura de Jesus não é irrelevante, não é neutra, mas é, pelo contrário, muito significativa” para “todas as pessoas”.
Alexandre Palma salienta que, “ao longo da história”, “a Igreja foi aprendendo a dizer a sua fé e tem no Concílio de Niceia um momento absolutamente axial”, mas “é chamada a encontrar esse seu mesmo discurso para cada época, em cada lugar”.
“A questão, tal como ela se colocava no século IV, teve a resposta que teve, mas isso não dispensa os cristãos depois de Niceia de continuarem sempre a revisitar essa resposta e, no fundo, essa maneira de traduzir a própria fé cristã”, disse.
O bispo admite que “há uma lógica de paradoxo na fé cristã”, dando o exemplo de “alguém poder ser plenamente homem, mas também plenamente divino”, “ser plenamente eterno e, ao mesmo tempo, plenamente histórico”, “ser plenamente espiritual e”, simultaneamente, “plenamente carnal, isto é, físico”.
“A fé cristã, de alguma maneira, escolhe o caminho difícil do paradoxo, que é não simplificar a sua fé e, neste caso, a identidade de Jesus, mas suster, sustentar esta dupla afirmação da plena humanidade e da plena divindade”, realçou.
Lídia Jorge afirmou ainda que uma das dificuldades surgiu com as palavras do Credo: “Quem era o Espírito Santo? O que é ser consubstancial ao Pai? Quando comecei a pensar que não me importava nada se Jesus era filho de Deus, começou o problema.” E o “rasgão” que Jesus provoca na história é porque ele cresce enquanto humano, acrescentou, para recordar que a frase mais significativa que encontra em Jesus é quando ele afirma: “A minha vida ninguém ma tira, sou eu que a dou.”
Papa o bispo Alexandre Palma, Jesus continua a interpelar muitas pessoas na actualidade, “continua a ser um polo de discussão, de interesse, de reflexão”, quer seja “pública, mediática” ou “científica: Jesus continua a ser um objecto de interesse, de debate, de estudo, de edição, no campo das artes, no campo do cinema, da investigação científica, no campo da filosofia, das letras”. O que mostra, conclui, “o inesgotável da figura de Jesus, que passados dois mil anos, passadas tantas páginas, tantos textos, tantas horas, tantos discursos, continua ainda a interpelar e a falar também” para o tempo actual.










