República Centro-Africana

Grande Reportagem: Mercenários e meninos soldados

| 1 Dez 2021

Revista Luzes

Enquanto isso… a guerra continua, morrem mais pessoas, mais crianças continuam a ser incorporadas em grupos de guerrilha e a matar. Enquanto isso, em Portugal gastamos semanas a discutir se um ministro deveria ter dado informações sobre um roubo e exportação ilegal de diamantes, mas não se fala do que se passa na República Centro-Africana (RCA), onde uma guerra esquecida é palco de interesses geoestratégicos, comerciais e de delapidação de recursos. O repórter Rui Araújo, da TVI/CNN, esteve na RCA e descreve aqui as atrocidades cometidas por guerrilhas, grupos de mercenários ou crianças.

Nos últimos dias, entretanto, chegaram notícias da morte de quatro mercenários russos do grupo Wagner, um dos mais activos nos combates em várias zonas de África. Os contornos e o contexto da notícia podem ser lidos na página digital da CNN Portugal.

Esta reportagem, publicada já na revista espanhola FronteraD e na revista galega Luzesfoi também publicada esta semana pela CNN Portugal. 

Com o acordo desta estação, e por proposta do seu autor, o 7MARGENS reproduz a seguir a reportagem, agradecendo à CNN Portugal e a Rui Araújo a cedência para este efeito. 

 

Mais de dez mil crianças morrem e matam nesta guerra esquecida. “A guerra? Brincamos muitas vezes à guerra, mas a guerra não é boa. Vi muitos homens morrer. Mulheres. Crianças… A guerra não é boa.”

Menino no interior da RCA. Foto © Rui Araújo.

 

Bria. República Centro-Africana.

A quietude é perfeitamente enganadora. O país está a ferro e fogo há oito longos anos. Catorze grupos armados controlam 80% do território onde o Estado faz figura de ausente. Os mercenários estrangeiros, incluindo russos, matam indiscriminadamente a torto e a direito e pilham e estoiram o que podem. A impunidade é total…

Diante de mim, do outro lado das mangueiras frondosas, no campo de terra ocre, os miúdos de pé descalço correm desenfreadamente no meio dos apitos de um árbitro branco sem presunção.

Bakita Ousma assiste à partida com deleite. A cachopa não é uma espectadora qualquer. Encontrou, aqui, na associação Esperança, a salvação ou o apaziguamento. E alguém que cuide dela (com o apoio, designadamente, das Nações Unidas). Tem doze anos. É orfã. Aos oito entrou para o grupo de guerrilheiros numericamente mais importante do país.

“A minha mãe e o meu pai morreram quando os cristãos atacaram a aldeia e é por isso que eu fui para o grupo armado FPRC” (Front Populaire pour la Renaissance de la Centrafrique).

O desabafo é claro e sincero. Tinha oito anos bem contados. Um ano depois escapou-se, mas a sua tenacidade nem por sombras esmoreceu. A guerrilha foi para ela o lenitivo ou o remédio de encarar a morte dos pais, matar a fome e quiçá a solidão. Mesmo se tivesse nascido noutro lugar a sua postura seria exatamente igual. A doçura da voz de Bakita é falaciosa. É uma resistente…

– E como era a vida lá? – indago por indagar.
– Estava no mato.
– E que mais?
– Já não tinha família…

Bakita olha maquinalmente para os jogadores mais ruidosos. Queira ou não queira – como diria Torga –, vive duas vidas. Uma que se vê e outra que não se vê. Como todos nós, aliás.

– Tens um sonho? Qual é?

A menina, alheia à minha conversa, limita-se a sorrir. Insisto.

– Qual é?
– Quero ser comerciante. Quero fazer negócios… – lá me responde com convicção ao fim de uma eternidade.

Segundo uma estimativa da UNICEF, de setembro de 2015, os movimentos rebeldes da República Centro-Africana recrutaram 10.000 crianças.

A única certeza é que os 14 principais grupos rebeldes – muçulmanos e cristãos – contam nas suas fileiras com muitos meninos combatentes. O seu número exacto é, hoje, uma incógnita.

Menino soldado no interior da RCA. Foto © Rui Araújo

 

Encontro seguinte: Koyo Haroune, futuro grande fotógrafo. Tem 15 anos cumpridos. Foi para a guerra aos nove. Passou cinco com os rebeldes da FPRC.

– Os rebeldes, que se chamam anti-Balaka, mataram o meu irmão mais velho.
– Os cristãos…
– Sim.
– E ele tinha 36 anos…
– 36 anos.
– E tu foste para a FPRC para fazer o quê?
– Os anti-Balaka mataram o meu irmão mais velho. Foi por isso que fui para o grupo armado. Queria vingá-lo!
– E foste para soldado com 9 anos de idade…
– Com 9 anos de idade.
– E o que fazias lá?
– No grupo armado? Eu só matava as pessoas. Ia para o terreno…
– E viste muita gente morrer?

Koyo deve ter sentido qualquer coisa fender-lhe o peito e desata a rir, envergonhado, com a mão a tapar-lhe a boca.

– Sim. Eu matei muita gente.
– Muitas?
– Muitas. – responde-me.
– E muitas são quanto?
– Eu não conto. Eu não conto…
– E matar. É o quê? – pergunto, teimoso.
– Matar? Eu mato com as armas.
– AK-47. Kalashnikov…
– Kalashnikov. E com foguetes RPG…
– O que sentiste a primeira vez?
– Não me faz nada.
– Nem depois?
– Nada.
– E vingaste-te?
– Sim, é verdade. Vinguei-me.
– Qual é a principal lição desses anos com o grupo armado?
– Perdoei tudo.
– E a guerra? O que pensas da guerra hoje?
– Hoje, penso que a guerra não é boa. A guerra não é boa… Na guerra perdem-se muitas vidas. É por causa disso que me fui embora.
– E… E para o teu irmão?
– Para o meu irmão… Ele está morto. Os [cristãos] anti-Balaka mataram-no. Os filhos dele ficaram sozinhos. Os filhos, agora, andam na rua ao Deus dará. Custa-me ver isso. Andam aí pelos caminhos. São meninos de rua…
– Ouvi dizer que tens um sonho lindo… –  alvitro sem cálculo.
– O que eu gostava de fazer na vida?

Reparo na alegria a arder nos seus olhos irrequietos. Há utopias que se realizam.

–  Sei lá… Fotógrafo. Trabalhei uma vez como fotógrafo num estúdio de fotografia.
– A fotografia também é memória…
– É a memória!
– E a memória não é um problema?
– Não é um problema para mim…

Dito e feito. Koyo tem carradas de razão. Eles estão destinados a desafiar o passado para poderem vencê-lo e conciliarem-se com a vida, mas não é fácil…

Meninos soldados do grupo rebelde UPC no quartel-general de Bokolobo. Foto © Rui Araújo

O insólito árbitro de apito nos lábios acicata os putos. Mahamat Damine senta-se diante de mim, aflito. Foi soldado durante cinco anos. Tinha 11 quando abalou para a guerra. Foi pelas melhores razões, não vá o Diabo tecê-las…

– Os cristãos massacraram a minha família. Os meus pais! Via muitos anciães a sofrer. É por isso que eu fui para o grupo armado FPRC. Queria salvar as pessoas que estavam a sofrer…
– A guerra é o quê para ti?

O adolescente coça a cabeça embora conheça a resposta.

– A guerra? Brincamos muitas vezes à guerra, mas a guerra não é boa. Vi muitos homens morrer. Mulheres. Crianças… A guerra não é boa.
– Mataste também?
– Sim, também matei.
– Sabes quantos?
– Sim, eu sei.
– Quantos?
– O máximo foram 11.
– E depois?

O rapaz hesita, pensa, torna a pensar e desata a rir.

– Depois, nada. Eu queria deixar aquilo. Agora, já não creio que podia fazer aquilo. Eu só queria largar a guerra. A guerra não é boa. Eu queria abandonar o grupo armado.
– E havia muitas crianças nesse grupo?
– Sim. Há muitas crianças nesse grupo.
– A partir de que idade?
– Há homens… há uns a partir dos 11 anos, 12 anos, 13 anos, 14 anos, e mesmo 15 anos também. Há crianças pequenas…
–  Ainda hoje?
– Sim. Ainda as há hoje.
– Qual é a coisa mais bonita hoje na tua vida?
– Pois… A coisa mais bela na minha vida? Acho que jogar futebol é uma boa solução para a minha vida.
– E uma namorada?
– Nenhuma. Não tenho… É a vida. Não é mentira!

O seu ídolo é Leo Messi, que foi recentemente condenado pelo Tribunal Provincial de Barcelona a pagar as custas do processo contra El Economista. A empresa Limecu (acrónimo de Lionel Messi Cuccittino) declarou prejuízos sucessivos, não pagou impostos e não registou lucros desde a sua criação em 2010.

A miséria alastra na RCA – à medida no número de refugiados e de deslocados. Foto © Rui Araújo

 

Nos dias de hoje, a reinserção e a adaptação psicossocial de muitos meninos soldados passa pela escola, o desporto, a música e a reconstrução dos afetos e porventura das quimeras da infância.

O guarda-redes arregaça as mangas e posiciona-se. Tem um ar soturno, claro está. O jogo está renhido. E estes miúdos estão habituados a lutar. Todos eles passaram pelos grupos armados. Uns, foram recrutados. Os outros, raptados. Tinham oito, nove ou 12 anos de idade. Eram combatentes, informadores, mensageiros, cozinheiros ou guardas das barreiras. Muitas meninas foram violadas e eram escravas sexuais.

Meninos soldados do grupo rebelde UPC. Foto © Rui Araújo

 

Bria continua a ser um dos bastiões da FPRC, que controla o centro da urbe. Os muçulmanos da UPC (L’Unité pour la paix en Centrafrique), do RPRC (Le Rassemblement patriotique pour le renouveau de la Centrafrique) e os cristãos anti-Balaka (AB) mandam no resto. O campo PK 3 com mais de 90.000 deslocados é dos cristãos. Mesmo os lugares onde a vida é uma porcaria têm direito a nome…

Pé ante pé, calado, avanço em direção à porta. O insólito comité de receção é composto por dois rapazes de espingarda-automática 7,62 pendurada no ombro. São os guarda-costas do general Ali Ousta, chefe de Estado-Maior da FPRC. Explico ao que vou. Penetro numa assoalhada esconsa a cismar nas perguntas incómodas que tenciono fazer.

– No Norte não há estradas. Não há escolas. Não há hospitais. Não há eletricidade. O governo esqueceu-se do Norte desde a independência…

O chefe rebelde podia arrotar postas de pescada, mas não o faz. Dou a mão à palmatória. É verdade aquilo que me diz.

– Mas há personalidades e países que estão por detrás disto tudo. Fazem com que as pessoas andem a matar-se umas às outras…
– São os recursos que constituem, hoje, a principal causa do conflito?
– O que penso é que as pessoas mandadas para cá para nos proteger andam a roubar as riquezas do país…
– E os russos, que estão a apoiar o regime?
– Não há um único russo que tenha entrado nesta sala. Foi o governo que os trouxe. É com o governo que eles falaram…
–  Os grupos armados estão associados ao crime, à extorsão, aos raptos, roubo, violações. Fala-se de coisas verdadeiramente sombrias… É tudo mentira?
– Senhor jornalista, tudo isso são mentiras. Quem diz isso são as pessoas que não gostam dos grupos armados e fazem relatórios falsos.

É mentira. Com quem me fui meter? Sondei o general com mais uma pergunta.

Soldado das Forças Armadas Centro-Africanas. Foto © Rui Araújo

– A FPRC tem meninos soldados?
– Libertámos todos os que tínhamos. Já não há mais nenhum!

Não quis saber. Fui-me embora.

19 de Abril de 2021.

A mensagem de Hassan, um jovem “peul” que conheci no mato há uns anos, é terminante: “Os russos chegaram ao PK7 (ndr: quilómetro 7 antes da cidade) de Bria: Pensamos que eles vão entrar esta noite. Estamos cheios de medo. Muitos querem fugir para o mato e levar as famílias com eles.”

De facto, segundo um relatório militar da MINUSCA (ONU) a que LUZES teve acesso, “12 veículos, incluindo seis blindados russos”, oriundos de Ippy entraram nesse dia em Bria.

“O comboio ocupa duas posições: BASE MINE no centro de Bria e BASE GARAGE na periferia de Bornou (eixo PK3 – OUADDA).”

A avaliação U2 (elaborada pela Célula de Informações do Quartel-General da MINUSCA) em Bria é a seguinte: a missão dos russos e das Forças Armadas da República Centro-Africana (FACA) é “um reconhecimento ofensivo aos eixos BRIA-IPPY e BRIA-YALINGA” onde os rebeldes muçulmanos da UPC e da FPRC “estão particularmente ativos”.

Mercenários russos em Bria. Foto © Rui Araújo

 

“Bria é uma cidade estratégica para a CPC” (La Coalition des Patriotes pour le Changement), uma aliança de seis grupos armados que controlam os dois terços do país), cujo objetivo confesso é derrubar o presidente Touadéra.

As operações de Cerco e Busca (Cordon & Search) por parte das forças bilaterais sucedem-se nos dias seguintes.

A 2 de Maio, Hassan envia-me outra mensagem sobre os mercenários russos.

“Em Zako, eles pediram ao senhor presidente da câmara para registar as pessoas com idades entre os 25 e os 45 anos. Dão-lhes 500 francos [ndr: 500 francos CFA correspondem a 0,76 €] e uma lata de sardinhas por dia para lavarem o cascalho. As que andavam à cata dos diamantes fugiram…

URGENTE URGENTE! Os mercenários russos também mataram, ontem, em Kaga-Bandoro o influente comerciante árabe Mahamat Zène Abrass, mais conhecido por 11-11. O corpo foi descoberto hoje. Foi raptado no mercado. Depois foi levado para a base dos russos. Foi torturado com selvajaria e a seguir cortado aos pedaços antes de ser decapitado e queimado. Uma morte atroz e abominável. O povo descobriu ao lado de 11-11 um outro corpo sem vida. A cidade de Kaga-Bandoro está a transformar-se numa cidade fantasma. Os mercenários russos estão a transformar a RCA noutra Ucrânia…”

A Federação Russa aumentou as operações com as firmas tecnicamente ilegais de mercenários (ChVK’sa partir de 2014. As principais firmas são a MSGroup, a RSB, a MAP, a CENTRE R, a ATK Group, a SLAV CORPS, a ENOT, a COSSACKS e a PMC WAGNER, que está presente, designadamente, nos teatros de operações da Ucrânia, Síria e República Centro-Africana.

Menino na RCA. Foto © Rui Araújo.

A “exportação” de mercenários (ex-operacionais das Forças Especiais e do serviço de intelligence militar GRU) permite à Rússia criar condições favoráveis para os negócios de armamento e a exploração dos recursos naturais.

O grupo de mercenários mais proeminente é o da firma Wagner (fundada em 2013 por Dimitri Utkine, um neonazi que tinha a patente de tenente-coronel no GRU). Especialidades: fomentar a exploração ou o saque dos recursos naturais, propagandear as teses de Putin, divulgar fake news, desinformar as opiniões públicas, raptar e matar com total impunidade…

Os operacionais (“contractors”) da Wagner são acusados de “matar crianças, violar e torturar mulheres como animais e de executar homens nas mesquitas. 

A demissão das consciências chegou a Nova Iorque e a Bangui. A ONU fecha-se em copas. Há mesmo quem questione o peculiar “pacto de silêncio” celebrado entre a MINUSCA e os mercenários russos. De facto, apesar do relatório (de peritos mandatados pela ONU!), apresentado em finais de Março passado, acusar os operacionais da Wagner e os próprios soldados centro-africanos de “graves violações dos direitos humanos” a ONU, tanto quanto de sabe, não terá tomado qualquer medida…

De acordo com o Instituto Francês das Relações Internacionais, “a única investigação realizada até hoje pela MINUSCA sobre as violências cometidas pelos russos diz respeito a um centro-africano que foi torturado em Bambari em 2019.”

RUSSOS_TORTURAM_Documento_Classificado_MINUSCA (ONU)

Documento classificado da MINUSCA a confirmar que os russos torturaram um homem acusado de integrar um grupo rebelde. Foto: Direitos reservados.

 

No início desse ano, ainda segundo o IFRI, “a operação militar contra a CPC teria provocado numerosas vítimas civis, nomeadamente numa das mesquitas da segunda cidade do país,  Bambari, em Fevereiro desse ano, mas a MINUSCA optou pelo silêncio.”

O imã Hamat Hamadi da mesquita Central é um homem moderado, inteligente e assaz bem informado. Já nos conhecemos pessoalmente há dois anos. Peço-lhe para me contar.

– Foi a 15 de Fevereiro às 13 horas no exterior da mesquita Al Takwa, no bairro Carrefour, aqui em Bambari. Uma coluna de homens da Seleka (grupos armados muçulmanos), dirigida pelo General Amadou Boungou da UPC apareceu diante dos russos e dos soldados das FACA.

Rebeldes de grupo armado no interior da RCA. Foto © Rui Araújo

Perante a força de ataque de estas forças, os rebeldes recuaram e penetraram na mesquita. Havia nessa altura muitos fiéis no interior.

Quando os grupos armados fugiram, algumas pessoas tentaram escapar, e os russos e as FACA apareceram. Pensaram que eram rebeldes e dispararam na sua direcção.

Confirmo a morte de três civis na mesquita. O balanço é de 18 mortos, sobretudo rebeldes. Uma mulher morreu. Levou com uma bala perdida. A vítima mais jovem tinha 20 anos…

Escuto o religioso. A desgraça não tem nome. É toda a gente ou quase que é culpada…

– Combater nas zonas habitadas é o modus operandi dos homens armados. É uma maneira de transformar civis em escudos humanos…

Adiante. O relato da imprensa local não deixa margem para dúvidas: “Os mercenários não queriam saber quem era rebelde e quem era civil: Eles queriam era matar, declarou uma testemunha ocular. Os mercenários teriam executado três jovens no interior da mesquita e outros 15 terão sido abatidos no decorrer do ataque à mesquita, incluindo crianças e velhos.”

A Amnistia Internacional denunciou os crimes, mas a MINUSCA fez ouvidos de mercador

Os jornalistas russos Orhan Djemal, Alexandre Rastorguev e Kirill Radchenko, que estavam a fazer um documentário sobre as actividades do grupo Wagner na RCA, foram misteriosamente assassinados perto de Sibut em 2018. Teriam sido eliminados pelos mercenários ou pelos seus capangas locais. A investigação da MINUSCA é, aparentemente, inconclusiva…

A demissão das consciências é real.

Em Nova Iorque, o Conselho de Segurança da ONU modificou o mandato da MINUSCA.

O parágrafo sobre a “exploração ilícita e o tráfico de recursos naturais” da resolução votada em 2017, desapareceu, entretanto, da que foi adoptada a 13 de Dezembro de 2018.

É a luz verde para a rapina organizada do país. Doravante, a MINUSCA deixou de ter legitimidade ou competência para atacar as redes de traficantes e impedir o rapinanço dos diamantes, ouro, urânio e de todos os outros recursos naturais do país…

Pelo menos 2.500.000 habitantes (mais de metade da população da RCA) continuam a precisar de ajuda humanitária. 100.000 civis refugiaram-se desde o último processo eleitoral no interior e na capital enquanto que mais 60.000 procuraram abrigo nos países vizinhos.

O regime de Moscovo oferece à RCA desde 2018 armas e munições, treina parte das Forças Armadas (FACA), propõe medidas políticas, garante a protecção do presidente Touadéra, e desenvolve ainda tarefas supostamente humanitárias, fornecendo protecção a colunas de viaturas provenientes do Sudão que ninguém controla ou com hospitais como o de Bria, que não tinha médicos nem enfermeiros.

Hospital de Bria. Foto: Serviço de Informações

 

A influência da Federação Russa não pára de aumentar na RCA desde 2017. À medida dos crimes dos 1 700 mercenários da Wagner, a parceira privada do governo de Bangui, que estariam finalmente a ser investigados pela MINUSCA. [Oficialmente há apenas 535 mercenários da Wagner no país. Uma parte deles garante a segurança do Presidente Touadéra.]

A França, antiga potência colonial, não consegue travar o avanço da Rússia. O último episódio da rivalidade entre os dois países ocorreu a 10 de Maio de 2021 quando a unidade especial da Polícia centro-africana OCRB deteve o ex-pára-quedista francês Juan Rémy Quignolot, 55 anos, por posse de armas de guerra, em Bangui.

O russo Valery Zakharov, ex-agente do FSB e actual conselheiro nacional de segurança do Presidente Touadéra, deu a notícia num tweet: “Um cidadão estrangeiro foi detido em Bangui com uma enorme quantidade de armas e de munições”.

Quignolot é apresentado na RCA como um bandido ou um mercenário.

O governo de Paris denunciou, entretanto, a “manifesta instrumentalização de esta detenção” numa terra que já foi o seu “pré carré”…

Nas redes sociais circularam algumas imagens do ex-militar com o general Ali Darassa, responsável da UPC. Tentei falar com ele, porquanto já o entrevistei em anos diferentes no quartel-general da UPC (Bokolobo), mas o líder rebelde encontra-se no mato. As minhas perguntas foram, portanto, enviadas por um canal mais moroso…

Seja como for, as recentes acusações onusianas de “graves violações dos direitos humanos” cometidas pelos mercenários da Wagner e as tropas centro-africanas não impedem as autoridades de Bangui de louvar a cooperação com Moscovo.

“Falam-nos do grupo Wagner, mas o governo centro-africano não assinou nada com um grupo Wagner, nem com nenhum outro. O governo celebrou um acordo com outro governo, o da Rússia, com instrumentos que ela considerou úteis, pôs à nossa disposição instrutores, armas e coisa e tal”, afirmou Ange-Maxime Kazagui, ministro da Comunicação e porta-voz do governo, ao canal TV5 Monde.

Francês acusado de posse de armas detido em Bangui. Foto: captura de ecrã

É dia de mercado e dia do Senhor. Entro no campo de deslocados PK 3. É o maior do país. Com as abominações da guerra mais de 90.000 cristãos e animistas procuraram refúgio neste monte desolado. Soa um sino. É a hora da missa.

Redentora ou nem por isso, pouco importa. Cada um traz o seu banco ou cadeira. A igreja da paróquia de São Luís de Bria fica ali ao lado. Alguns, poucos, aparecem de traje domingueiro. O que conta, agora, é a santa oração… a partilha da desgraça e da angústia, mas sobretudo da esperança. A celebração é efectuada dentro e fora do barracão. É o que há para tantas almas. O calor é tanto que já nem se presta atenção. Ninguém arreda pé. Penitência e fé andam de mãos dadas… Os pobres dão uma nota ou uma moeda. Os que podem. A seguir, é o momento crucial da comunhão. Da salvação sem glória. Fim da liturgia. Meto conversa com o abade Bruno Kongbo. Os putos brincam à guerra..

– Estas crianças terão um futuro se esta guerra acabar. Mas no preciso momento em que lhe falo, nem as escolas funcionam sequer. E há muitas crianças neste campo. Chega a haver 400 alunos numa sala de aulas.
  Não há água potável… – insinuo, acanhado, fazendo de jornalista.
  Não há água potável nem centro de saúde. A comida… A escola. Tudo deixou de funcionar…
  Foi a guerra que os levou a refugiarem-se, aqui, neste lugar. Se olhar para eles, se os vir, pode sentir o que estão a viver nos confins do seu corpo e nos confins da sua alma e do seu espírito também. Olhe, olhe, olhe…

Guerrilheiro da UPC. Foto © Rui Araújo

É impossível arrepiar caminho sem olhar primeiro. Imaginar a desgraça é sempre pior do que vê-la… quem o diria… Calcorreio as veredas. A banca do merceeiro. O carregador de telemóveis… A latrina ao ar livre (já que não há esgoto). A roupa a secar… e o céu, que, aqui, fica longe.

Na penumbra um homem tenta esconjurar o sofrimento ou perdeu mesmo a razão. Uma vida amortalhada, mais uma. Um recém-nascido deixa correr as horas, que, aqui, já ninguém mede…

Saio atordoado.

As tréguas com Deus raramente deixam um sabor tão amargo na boca…

Fora do PK 3, do outro lado do caminho, está o atelier de costura dos ex-combatentes anti-Balaka – o nome que dão às milícias cristãs. Anti-Balaka quer dizer em sango, uma das duas línguas do país, “anti-catana” ou “anti-balas de AK-47”.

Aqui há gente que não consegue pedir esmola e recusa o absurdo.

 

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Não se é cristão porque se pratica a religião cristã, ou pela simples razão de ir à igreja, ou porque se pratica boas obras.
Não se é cristão porque se conhece bem a Bíblia, faz-se beneficência ou até se dá a vida em nome de Deus.
Tudo isto pode ser feito, e na verdade não é ser cristão. Parecer é uma coisa, ser é outra.   

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Depois de ter anunciado o desejo de visitar a Rússia e a Ucrânia, a seguir à viagem que vai fazer ao Canadá, o Papa Francisco surpreendeu esta quarta-feira ao anunciar a intenção de nomear duas mulheres para o comité do Dicastério dos Bispos, que procede à análise dos nomes a escolher para as dioceses, nas diferentes partes do mundo.

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Reconstruir o rumor de Deus – Para uma teologia estética da revelação é o título do livro da autoria do padre Miguel Rodrigues, da Arquidiocese de Braga, cujo prefácio, da autoria do padre Joaquim Félix, o 7MARGENS reproduz. O livro é apresentado nesta quarta-feira na Igreja Matriz de Vila do Conde, às 21h30.

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