Contributos para o Sínodo (22)

Metanoia: Igreja recentrada no bem comum, reforma da catequese, acesso de todos aos sacramentos

| 28 Jun 2022

Propostas do Metanoia passam por a Igreja recentrar-se na promoção do bem comum e em problemas como a justiça social, pobreza, política, economia e ecologia. Foto © António José Paulino.

Propostas do Metanoia passam por a Igreja recentrar-se na promoção do bem comum e em problemas como a justiça social, pobreza, política, economia e ecologia. Foto © António José Paulino.

 

O discurso da Igreja deve recentrar-se na promoção do bem comum e em problemas como a justiça social, pobreza, política, economia e ecologia. Deve fazer-se uma reforma da catequese, de modo a torná-la mais evangelizadora e menos moralizante e, ao mesmo tempo, integrar as mulheres, os recasados ou os homossexuais dando-lhes possibilidade de acesso aos sacramentos que lhes são negados. Estas são algumas das propostas do Metanoia – Movimento Católico de Profissionais.

Este documento surge em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023. Esse coro imenso de vozes não pode ser silenciado, reduzido, esquecido, maltratado. O Espírito sopra onde quer e os contributos dos grupos que se formaram para ouvir o que o Espírito lhes quis dizer são o fruto maduro da sinodalidade. O 7MARGENS publica alguns desses contributos que nos têm sido enviados, estando aberto a considerar a publicação de outros mais.

O Metanoia – Movimento Católico de Profissionais é canonicamente uma associação privada de fiéis, afiliada na Pax Romana-MIIC (Movimento Internacional de Intelectuais Católicos). 

 Como comunidade é espaço de encontro de pessoas, nas mais variadas circunstâncias de vida pessoal e profissional, procurando não separar interioridade e exterioridade, reflexão e vivência, princípios e ação, espiritualidade e cidadania, sem programas conjuntos de ação social e política, nem orientações de índole profissional; somos parte da realidade, dela partindo e a ela voltando, numa compreensão aprofundada e abertura a empenhamento consequente.

Enquanto espaço de liberdade, de corresponsabilidade, de reflexão e partilha de vida, de conversão, de aprendizagem, cada um é reconhecido e respeitado na sua individualidade e autonomia.

A convocação deste sínodo sobre a sinodalidade foi vivida como um desafio a concretizar hoje, na senda iniciada pelo Concílio Vaticano II. 

Assim, apresentamos o fruto da nossa reflexão como contributo para a leitura dos “Sinais dos Tempos” e subsequentes propostas de restruturação de toda a Igreja. 

  1. Leitura dos Sinais dos Tempos

O diálogo e a comunicação entre os responsáveis da Igreja e o comum das pessoas nem sempre é fácil e eficaz. Há uma dificuldade na comunicação, tanto no interior da Igreja, como para fora, para a sociedade.

 Um dos maiores obstáculos a um estilo sinodal na Igreja é a forma como o poder é exercido, afastando os leigos, nomeadamente as mulheres, dos órgãos de decisão e corresponsabilidade, condenando-os a um estatuto de menoridade. 

O Concílio Vaticano II aprovou uma eclesiologia de comunhão, onde a instância primeira de identidade é o Povo de Deus e não a sua hierarquia; porém a revisão do Código de Direito Canónico reforçou na prática o modelo de Igreja hierárquica.

Com vista a melhorar a comunicação e o diálogo, propomos:

Que se estudem formas de comunicação mais eficientes, para que a mensagem chegue às pessoas e as mobilize para uma real e efetiva participação, tanto na Igreja como na sociedade;

Que os problemas da justiça social, pobreza, política, economia e ecologia, sejam temas habituais, recentrando o discurso da Igreja na promoção do bem comum;

Para esse efeito, valorizem-se as expressões de caridade existentes que refletem o Pensamento Social da Igreja, que precisa de ser mais conhecido e aprofundado.

Após o impulso de abertura dado pelo Concílio Vaticano II, progressivamente a Igreja foi-se fechando e afastando do essencial, demasiado centrada “em programar e fazer coisas”.

 Face a isso, é grande o desconforto que muitos fiéis sentem nas suas comunidades, não se identificando com as celebrações, sentindo que o discurso do clero é pobre e afastado da realidade. 

A Igreja está descredibilizada na opinião pública, pelas suas posições anacrónicas face à evolução científica e social, dificultando o anúncio da Boa Nova.  

No seu relacionamento com a sociedade, a Igreja tem dificuldade em escutar porque se preocupa demasiado com a sua imagem e fecha-se ao diálogo, numa atitude de defesa, falando a partir da sua posição de poder e de uma mentalidade clericalizada, também muito presente nos colaboradores mais próximos do clero. 

O desafio da “escuta ativa”, que este Sínodo nos propõe, demonstra a dificuldade de falar abertamente, escutar e acolher a diversidade. Muitos leigos sentem-se ostracizados pelo clero na participação eclesial.

Propomos um maior cuidado na formação do clero e dos leigos, nas dimensões antropológica e teológica, visando uma profunda compreensão das diferentes dimensões e realidades humanas, reconhecendo que todas elas refletem a procura de Deus.  

  1. Recentrar a estrutura interna da Igreja como “sal da terra”. 

Verificamos que a formação catequética inicial não dota os jovens das bases essenciais para a compreensão da fé em Jesus Cristo, aos níveis de conteúdo e forma. De onde decorre, em parte, o subsequente afastamento da prática religiosa.     

Propomos uma reforma da catequese, de modo a torná-la mais evangelizadora e menos moralizante. Importa ainda que se invista na transformação das famílias em Igrejas Domésticas para transmitir e alimentar a fé. 

A fé é fortalece-se nas celebrações eucarísticas, por isso, estas devem permitir o encontro da comunidade e de cada pessoa com Deus.

Os atos litúrgicos são pouco participados, faltando-lhes beleza e alegria. As celebrações são rígidas, a linguagem desatualizada e de difícil compreensão. Nas Eucaristias, as homilias são, de modo geral, longas, pobres, no conteúdo e na forma. O tom é clerical e moralizante. A linguagem deve ser adequada à realidade dos fiéis, fomentando a reflexão e uma compreensão da realidade através da experiência de vida cristã. 

Propomos uma reflexão profunda sobre as celebrações eucarísticas, tornando-as mais simples, sem ostentação. Os ritos devem ser explicados para evitar que se transformem num ritualismo desprovido de conteúdo. 

Os ritos de passagem (batismos, casamentos, funerais) reúnem pessoas que, muitas vezes estão distantes da Igreja, são momentos privilegiados de encontro com a sociedade “fora de portas”, pelo que a celebração deve expressar a Boa Nova e não ser apenas mais um acontecimento socio-eclesiástico.

Para ter celebrações relevantes para a vida dos crentes é fundamental que os celebrantes tenham, também eles, vidas próximas do quotidiano de todos nós, sendo parte integrante da comunidade exercendo o seu ministério como irmãos e não como entidades hierárquicas e distantes.

Deve valorizar-se o pluralismo na Igreja deixando que o Espírito Santo fomente a diversidade de dons como uma Graça e não como uma ameaça à unidade. 

Os leigos, tal como os seus pastores, adultos na fé e nas outras áreas da vida, são competentes para viver em diferentes modelos de Igreja e de formas plurais de entender a sociedade e a política. 

Consideramos que há uma intromissão abusiva na consciência dos fiéis com a temática da moral sexual. 

Propomos que não se separe esta dimensão do resto da moralidade. Deve ser valorizada a autonomia da consciência individual.   

Atualmente, há diversas realidades familiares que são excluídas da participação eclesial, o que empobrece significativamente a Igreja e marginaliza uma parte dos fiéis.  

Propomos uma plena integração no acesso aos sacramentos, na vida comunitária aos recasados e aos homossexuais.

De modo a abraçar a diversidade de carismas e vocações, propomos o fim da obrigatoriedade do celibato dos padres. Defendemos que este deveria ser opcional, evitando sofrimento escusado aos envolvidos.

Preocupa-nos constatar que o desempenho de funções e ministérios eclesiais na teologia, na pastoral, não é representativo. 

As mulheres, consagradas e leigas, são, na maior parte das vezes, relegadas a ministérios e tarefas com pouca expressão decisória no que ao rumo da Igreja diz respeito. Existe ainda uma barreira no acesso das mulheres a cargos de decisão e de responsabilidade. 

Propomos, assim, que se promova a integração das mulheres em funções executivas e decisórias, abrindo-se a possibilidade de acesso destas ao diaconado e ao presbiterado. 

Conclusão

Na fidelidade ao Evangelho, acreditamos que é necessário dotar internamente as estruturas eclesiais de uma abordagem mais aberta e abrangente nos conteúdos e na forma. Para tal, importa estar disponível para procurar e reconhecer os sinais do Espírito Santo que sopra onde quer.

 

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