No método sinodal, onde todos fazemos caminho em conjunto, como companheiros, isto é, como gente que come o mesmo pão, harmonizam-se democracia e hierarquia.
Ambos os conceitos se encontram num fundamento teológico profundo; a democracia no sacerdócio comum de todos, onde somos chamados a ser protagonistas pela ação do Espírito; a hierarquia no sacerdócio ministerial, que confere dinamismo harmonioso àquela ação.
Esta complementaridade, ontologicamente una, nasce da lógica da própria Trindade: sendo todos chamados a ser Amor de Deus, esta ação ficaria adulterada se a lógica do poder se sobrepusesse à beleza do múnus. Tudo nasce da pericorese da Trindade, que anula todas as prioridades para exprimir somente o Espírito de formas diferentes. Não se coaduna, portanto, com qualquer manifestação de autoritarismo, mesmo se clerical. Porém, a sinodalidade diverge da democracia – não se trata de contar votos e viver segundo a vontade da maioria.

“Nesta nova lógica da sinodalidade, morrem definitivamente as “velhas reuniões na igreja” para passar a haver encontros onde nos tentamos aproximar da dignidade de discípulos, companheiros de Jesus, nosso modelo e Mestre.” Foto: Assembleia dos povos indígenas do Sínodo sobre a sinodalidade, parte da etapa continental. © Celam.
Neste contexto complexo, a tomada de decisão surge, em último caso, do difícil discernimento daqueles que, no modelo trinitário, têm a função de “pais”.
Mas, se estes têm a nobre missão de decidir, cabe-lhes a dificílima tarefa de ser a expressão do Amor, coerentes e fixados no modelo da Trindade; aqui nunca se cortam os inquebrantáveis laços do amor recíproco, que Lhe são inatos, mesmo quando a Luz do Espírito ainda não iluminou o caminho comum.
Trata-se, portanto, de um jogo de Amor que agrega várias etapas: a participação empenhada (por amor) de cada um na construção do Reino; o acolhimento (por amor) da perspetiva do outro; o acolher (por amor) do discernimento (ainda que falível) daqueles que desempenham o papel de “pais”, e o colocar em prática (por amor) esse seu discernimento, eventualmente imperfeito, porque o processo continua até que a Luz do Espírito tudo clarifique em todos.
Nesta nova lógica da sinodalidade, morrem definitivamente as “velhas reuniões na igreja” para passar a haver encontros onde nos tentamos aproximar da dignidade de discípulos, companheiros de Jesus, nosso modelo e Mestre.
Mesmo se a lógica de Deus não fosse a perfeita para fazer caminho, o racional humano de hoje também utiliza e convida a modelos semelhantes. O entusiasmo humano para construir projetos comuns, que um grupo considera essenciais, leva a um processo em que as ciências sociais nos propõem desenvolver de forma semelhante.
Nos modelos de funcionamento com sucesso desse empreendimento, todos valorizam a escuta ativa, a participação inclusiva de todos, acolhendo os seus pequenos ou grandes contributos; a não procrastinação exagerada na tomada de decisões, mesmo correndo o risco de estas não serem as melhores, porque podem vir a ser corrigidas.
Contudo, a estas metodologias falta o que é profundamente diferenciador da sinodalidade – a presença, exigente e permanente do esforço de agir, em cada passo do processo, em cada momento, em cada etapa, da maneira como cada um de nós intui a forma de agir de Jesus. Nesta dinâmica emerge a solenidade que o Amor confere a cada momento presente.

“Nestes tempos, em que damos juntos os primeiros passos na metodologia da sinodalidade, faz sentido para mim olhar o caminho como quem se faz à estrada pela primeira vez e necessita de aprender quase tudo (…)” Foto: Peregrinos a caminho de Jerusalém. © Golan Rice
Nestes tempos, em que damos juntos os primeiros passos na metodologia da sinodalidade, faz sentido para mim olhar o caminho como quem se faz à estrada pela primeira vez e necessita de aprender quase tudo: o destino, as rotas, a velocidade, os sinais que orientam o trajeto, o piso por onde caminhamos, o veículo que usamos e as suas especificidades, os outros veículos e as suas caraterísticas, etc. Tudo é novo! E lembrar sempre o óbvio: esta forma de caminharmos juntos é nova, mesmo se já proposta há dois milénios.
Luís Parente Martins é médico cardiologista, corresponsável do Diálogo Ecuménico do Movimento dos Focolares e membro do Departamento para as Relações Ecuménicas e Inter-Religiosas do Patriarcado de Lisboa.
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