Um empate é um empate. Sim e não. A seleção portuguesa empata e é uma humilhação. A seleção de Cabo Verde empata e é uma festa! É o futebol!… O futebol que está por agora em toda a parte, mais omnipresente do que Deus. Televisões e jornais (das línguas que consigo entender) concedem-lhe enorme tempo e espaço. É a loucura: o futebol está em toda a parte e os seus detratores também. Mas com argumentos errados. Queixam-se do futebol, mas quase não há futebol nos canais de livre acesso. Nestes o que há é “tagarelice” sobre futebol.
Como outros desportos, o futebol corre o risco de ser definitivamente estragado pelo dinheiro. Os interesses financeiros, os “empresários”, a promiscuidade entre presidentes de clubes e políticos, entre jogadores, apostas e resultados. Os biliões da publicidade e dos direitos televisivos no comando de horários, calendários e na criação de toda a galeria de ídolos. Os países ricos atraindo jovens jogadores de outras origens para depois os naturalizarem. A lista é extensa e inclui fuga ao fisco, corrupção, financiamento de mandantes criminosos, apoio a hooligans e por aí fora…
Além do rei dinheiro, há aqueles jornalistas especialistas em perguntas tolas, género, “foi importante para si, marcar aquele golo?” e em “reportagens” que não adiantam nada de nada. É o futebolês a sobrepor-se ao jornalismo. Há, de facto, muitos pseudojornalistas e comentadores que parasitam este desporto de multidões.
Mas há, sobretudo, comentadores que ocupam horas e horas de programação televisiva. Em algumas dessas disputas clubistas ao vivo e à cacetada verbal “formaram-se” alguns líderes políticos que conhecemos e alimentou-se o gérmen da discussão confrontacional, malcriada, ofensiva e irracional que depois invadiu todo o debate público, incluindo – ou sobretudo? – o debate político.
“Somos um povo geograficamente dividido. Desde logo pelas ilhas. Mas, sobretudo, pelos continentes por onde os cabo-verdianos se foram espalhando. Mas ontem estávamos todos unidos numa enorme festa. Foi o dia do orgulho cabo-verdiano” – disse na Antena 1 um cabo-verdiano no dia seguinte ao empate da sua seleção com a poderosa equipa espanhola. Não vale este festivo milagre, todo o lixo que anda de roda do futebol?
Mas que tem Deus a ver com isto tudo? Nada de especial. Não tem clube, nem torce por nenhuma seleção. Apesar do atual Papa ser amante de futebol e de Francisco ter sido um verdadeiro tifosi argentino, Deus nada tem a ver com o Mundial. Apesar de tudo, é altamente provável que goste de futebol. Como gosta de toda a atividade que reúna pessoas para realizarem qualquer coisa de belo em conjunto. A Igreja Católica, sim, tem muito a ver com o Mundial. Não por nele participarem seleções de países de maioria católica, ou por haver jogadores católicos. Simplesmente porque não podem permanecer-lhe estranhas as alegrias e as esperanças, as tristezas e as emoções dos homens de hoje.
A bola no pé da “Magnifica Humanitas”

“O futebol já não é uma invenção inglesa que os europeus praticam e dominam. Vai sendo, apesar das distorções introduzidas pelo dinheiro, um desporto cada vez mais mundial.” Foto © Rede Social X
Um Mundial é, sem dúvida, um momento muito especial em tudo o que gira à roda do futebol. Muitos dos jogos não são entre equipas com que as pessoas se identificam emocionalmente. Pode-se, pois, discutir o jogo mais friamente. O jogo pelo jogo. Não há tanta emoção a distorcer à força a realidade objetiva. Nem é preciso perder horas a discutir se é errado, ou não, entregar o lugar de ponta de lança da “nossa” seleção a um jogador de 41 anos que falha repetidamente todas as oportunidades de golo que a equipa constrói para ele.
Por outro lado, hoje, graças à Inteligência Artificial (IA) aplicada ao desporto, há milhares de dados sobre as performances de cada jogador. Lá está, a tecnologia “transformando homens e mulheres em ‘dados’ a rastrear e ‘pacotes’ a transportar” [173]. Ideia a combater. Porém, sem reduzir cada jogador aos dados coligidos sobre ele, são agora possíveis discussões mais fundamentadas, mais racionais, menos na base do “achismo” nacional. Sobretudo a propósito de partidas entre equipas com que não existe forte ligação emocional.
Mais interessante ainda, o futebol permite testar os limites da IA. Este Mundial tem contrariado todas as previsões de resultados elaborados pela IA mais avançada. E não é pelo seu principiante desenvolvimento. A causa é a criatividade humana. Não são máquinas, são homens ao pontapé na bola e o que fazem não decorre de um simples determinismo fundamentado no que já fizeram. Erram, fazem coisas novas, descontrolam-se e descobrem modos diferentes de disfrutar do jogo cujas regras permanecem inalteradas. Fintam o adversário e a própria IA!
Lá está, a IA derrotada pela sua própria frieza, por não se fundar na “experiência de quem se deixa moldar pela vida e cresce ao longo do tempo através de escolhas, erros, perdão e fidelidade.” [99]
Além de assistir em direto e a cores à derrota da IA, quem acompanha o Mundial tem, de borla, acesso a um espelho do mundo atual. Um espelho incompleto e enviesado, mas não menos interessante. Apesar dos limites à liberdade religiosa (para não falar de outras liberdades) que imperam em muitos dos países de onde vêm as seleções [ver 7MARGENS], ele há imagens de jogadores a benzerem-se quando entram em campo e imagens de outros de joelhos, cabeça no chão, a agradecerem a Alá (Deus) terem marcado um golo.
A religião não devia estar ali, mas menos mal que está no plural. Antes, assim. Sem exclusivos enganadores, deturpando a realidade do mundo.
As equipas, essas, estão cada vez menos pálidas. Mesmo as do Norte da Europa têm muitos jogadores cujos avós, ou bisavós, não eram dali. Os atletas negros não só são muitos como estão entre os melhores. E no ecrã vemos não poucos asiáticos e latino-americanos de traço índio evidente. O futebol já não é uma invenção inglesa que os europeus praticam e dominam. Vai sendo, apesar das distorções introduzidas pelo dinheiro, um desporto cada vez mais mundial. E isso reflete-se no Mundial. E há ainda outras pérolas…
Resultado: 5-0

Eusébio a marcar no Mundial de 1966: “Apesar do mundo plano e instantâneo em que os ecrãs nos querem fazer viver, ela move-se! Não apenas o planeta Terra, mas também a realidade, a história. 1-0 a favor do futebol.” Foto dos Arquivos RTP.
O meu neto fez há pouco 10 anos e está agora diante da televisão. Aproximo-me para espreitar o que está a ver. É um programa brasileiro que apanhou no Youtube. A história dos mundiais desde 1930. Sento-me para ver com ele. E ele põe o vídeo a correr desde o início. Simpático!
Dos primeiros mundiais só há fotografias. Depois imagens em movimento, mas a preto e branco. “Mas as bolas eram escuras?” “O quê, não havia videoárbitro?” “Aqueles equipamentos eram mesmo muito esquisitos!…” Pois é, nem tudo foi sempre como agora é. E no entanto, apesar do mundo plano e instantâneo em que os ecrãs nos querem fazer viver, ela move-se! Não apenas o planeta Terra, mas também a realidade, a história. O Mundial tem história e é uma boa introdução à diacronia. 1-0 a favor do futebol.
Ainda o meu neto e o Youtube visto no ecrã televisivo. Eusébio, Mundial de 66, Portugal eliminado nas meias-finais pela Inglaterra (2-1). “Mas tu estavas lá?” “Ai não? viste pela televisão?” Não, não vi, estava de férias numa aldeia transmontana a que a eletricidade havia chegado há muito pouco tempo. Quase ninguém tinha ‘telefonias’, quanto mais televisão! De novo a diferença entre o hoje e o ontem. A antiga importância da rádio. O futebol a cruzar-se com a história da pobreza em Portugal, o colonialismo e a guerra colonial. 2-0 a favor do futebol.
Junto com a história dos mundiais, vem a surpresa de que quase nunca o melhor jogador, ou o jogador que mais golos marcou, pertence à equipa que ganhou o campeonato. Pois é, apesar das fábricas de estrelas e ídolos, do culto do indivíduo, da apologia do génio e do marketing do melhor do mundo, isto do futebol é um desporto coletivo, quem ganha é uma equipa, não o melhor jogador. 3-0 a favor do futebol.
Ah, e há isso também: nem sempre a equipa favorita é a vencedora. Sim, entre as equipas há diferenças de partida tremendas. No número de praticantes, de clubes, de adeptos. Em experiência, técnicas de treino, história. Nos recursos financeiros, na atração de jogadores nascidos noutros países e depois nacionalizados, nos apoios públicos e por aí fora… Mas sim, o futebol tem espaço para os pequenos Davides. Querer, querer muito, aproveitar as oportunidades, por mais apertadas e estreitas que sejam… pode, por vezes, resultar na superação das desvantagens de partida. 4-0 a favor do futebol.
Siga o Youtube. O que passa nos ecrãs está pensado para conseguir amarrar-nos a eles. Agora é um outro programa brasileiro que mostra as 10 bandeiras dos países presentes no Mundial mais difíceis de construir com peças de Lego. [Quem se lembraria?…]. A classificação vai sendo apresentada com as imagens rápidas da construção de cada bandeira. Do décimo para o primeiro, pois claro. Surpresa: a mais difícil é a… bandeira portuguesa! Por causa da esfera armilar, dos castelos e etc…. Entre nós os dois, espantados: mais conversa, agora sobre os países. Os africanos, os europeus, os asiáticos e os americanos. A vida não é toda igual em toda a parte. 5-0 a favor do futebol.
Pois é: Deus não veste a camisola de nenhuma equipa. E a Igreja Católica também não. Mas podia dar sinais de estar mais próxima daquilo que as pessoas em todo o mundo estão a viver. Talvez a sua dificuldade para assim estar radique no facto de não ter uma tática específica a propor nem comportamentos a ensinar.
Acompanhar, ser igual, viver com, é mais difícil do que debitar certezas, ensinamentos e moralismos, não é?
P.S. – Os números referidos entre parêntesis retos referem-se a parágrafos da encíclica Magnifica Humanitas.










