Sentei-me naquele trono, vestido de vermelho. As barbas brancas apertavam-me a face em demasia. Olhei à volta pela primeira vez, na pele de outro. Era estranho. O que tinha começado com um simples gesto de cuidado transformara-se num território ainda vazio de significado. Alguma coisa me ultrapassava e eu deixava. Valores maiores têm esse condão, o de nos deixar sem chão. Não se planeia o ato de dar, o ato de amar. São surgimentos onde somos apanhados despidos. A entrega ao outro não se projeta em estiradores mais ou menos sofisticados.
Estava eu nestas deambulações existenciais quando um sorriso de criança se aproxima. Dou-me conta do papel que ali represento – bolas, não treinei o oh oh oh oh típico! Lá me safo como posso. As crianças são generosas perante as magias da vida.

“A minha mulher aparece logo atrás do filho que a arrasta para a casinha do Pai Natal e lhe chama atenção para as renas, tão semelhantes às verdadeiras, não sem antes me segredar ao ouvido: – Pai, não te preocupes. Não vou contar a ninguém. É um segredo só nosso. Feliz Natal!”
Seguem-se fotos atrás de fotos. Crianças, mães, pais, avós. Aos poucos ganho confiança no personagem e tempo para observar. Vejo meninos tímidos e amedrontados, outros radiantes e enérgicos que arrastam consigo os adultos numa luta para os acompanhar. Uns fotografam e fogem para os colos familiares, outros parecem querer ficar para sempre comigo, o Pai Natal. Querem saber onde deixei as renas e o trenó, querem saber se as prendas tão esperadas correspondem às suas expetativas, querem deixar bem claro que o Pai Natal não existe, que é tudo uma brincadeira, um fingimento global, no qual colaboram com alegria.
A noite vai decorrendo. Aproxima-se o fecho da superfície comercial para que todos possam recolher à festa planeada, prometida, desejada, à família. O movimento decresce significativamente. De repente um menino aproxima-se. Pára à minha frente. Olha-me fixamente. Entro em pânico. É o meu filho Tomás. Que raio estava o miúdo a fazer aqui a esta hora?! Por momentos sinto que o chão me foge. É o pânico a instalar-se. Tento controlar-me. Um misto de culpa e medo apodera-se de mim.
A minha mulher aparece logo atrás do filho que a arrasta para a casinha do Pai Natal e lhe chama atenção para as renas, tão semelhantes às verdadeiras, não sem antes me segredar ao ouvido:
– Pai, não te preocupes. Não vou contar a ninguém. É um segredo só nosso. Feliz Natal!
Pouco depois vi-os desaparecer ao longo do corredor que conduzia a uma das saídas.
Demorei um tempo a refazer-me do choque. A aproximação do Natal trouxe também a certeza de não o querer passar em família. Amava todos eles, mas não estava feliz no casamento. Mais um Natal de suposta felicidade era-me insuportável. Manter as aparências esgotava-me. Sogros, pais, cunhados e cunhadas, irmãos e alguns amigos, companhias frequentes na noite de Natal, juntavam-se como de costume. Naquele ano decidi não me violentar. O trabalho, por turnos, facilitou a mentira. Saí de casa para “trabalhar” na noite de Natal. Deixei o presente da Teresa, a minha mulher na árvore iluminada e decorada em noites animadas entre mãe e filhos, e despedi-me aliviado. Teresa era compreensiva. Também não era feliz, estava certo. As distâncias sentem-se, instalam-se. Não há como não notar. Vivíamos cordialmente. Uma grande amizade unia-nos, mas a sensação de sufoco vinha aumentando. Sentia-me num beco sem saída. O salário que ganhava como gestor numa companhia aérea suportava o orçamento familiar. Ganhava bem. Era o pilar da família. Teresa tinha deixado de trabalhar quando nasceram os gémeos e assim permaneceu. Como poderia abandoná-la? E os filhos, como deixá-los?
Naquela noite, ao sair de casa e antes de me recolher ao quarto de hotel que tinha alugado para passar a noite de Natal, sozinho, com um bom vinho e a ceia da praxe, resolvi entrar na superfície comercial, perto de onde moro, para comprar roupa interior e uma escova de dentes.
Quando passava junto do local onde o Pai Natal se encontrava, fazendo as delicias das crianças, reparei que o homem de barbas brancas cambaleava. Parei. Não, não era impressão minha. Fui até lá. Amparei-o. O homem não se sentia bem. Estava de serviço há horas, sem comer. Era preciso aproveitar aquela época do ano para ganhar algum dinheiro. Estava desempregado quase há um ano. Caso deixasse o posto de trabalho talvez nunca mais o contratassem. Não podia perder as oportunidades.
Foi então que me surgiu a ideia de ficar no lugar do homem por aquela noite. Ninguém precisava de saber. Ele descansava e eu praticava uma boa ação. Pareceu-me uma excelente solução. Vencida a resistência inicial, lá rumámos ao WC mais próximo para a troca de roupa. Em poucos minutos transformei-me em Pai Natal.
Voltei a quem era, ainda em estado de choque. Essa noite de Natal ficou marcada pela constatação da pequenez em que me tinha aprisionado, apanhado em flagrante a mentir a um ser a quem tentava ensinar os valores da honestidade, do respeito e do amor. O quarto do hotel onde pernoitei foi pequeno demais para a tortura e a vergonha. Adormeci já de madrugada, esgotado.
O 25 de dezembro apresentava-se frio e luminoso. O sol brilhava intensamente. Preparei-me para o almoço em família com uma decisão tomada. Seis meses depois estava divorciado.
Hoje, entro na mesma superfície comercial, igualmente atolada de gente. Vou buscar o bolo-rei encomendado. Este ano irei passar a noite de Natal em casa da minha ex-mulher, Teresa, e do marido com quem me dou muito bem. Passaram-se quinze anos. Relembro a noite do confronto comigo próprio. Relembro a maturidade de um filho perante a cobardia do pai.
Nada aconteceu como temia. A família não desmoronou sem mim. Teresa também não estava feliz por perceber a infelicidade em que eu vivia. Ficou profundamente triste com a separação, mas fez-me saber que para si própria era mais respeitadora a separação do que o manter das aparências. Além disso, ambos tínhamos o direito de refazer a vida enquanto era tempo. Era uma mulher corajosa. Nunca nos deixámos de falar. Eramos pais dos gémeos e tínhamos partilhado uma vida. Teresa encontrou um trabalho logo após eu ter saído de casa. Ficou feliz com essa autonomia. Os gémeos adaptaram-se bem à separação. Tomás, o mais intuitivo, foi pedra fundamental para o equilíbrio da situação. Encontrava alegrias e vantagens em tudo. Nunca referiu o episódio do Pai Natal até àquela noite.

“Às doze badaladas abrimos os presentes. Antes disso, Tomás chamou-me à parte. Tinha nas mãos um embrulho. Pediu-me que o abrisse. Era um fato de Pai Natal que vesti prontamente, a seu convite e em seu lugar.” Foto: Presentes de Natal. Foto gerada por IA.
Às doze badaladas abrimos os presentes. Antes disso, Tomás chamou-me à parte. Tinha nas mãos um embrulho. Pediu-me que o abrisse. Era um fato de Pai Natal que vesti prontamente, a seu convite e em seu lugar. Tomás tinha agora uma filha, minha neta, a Laurinha que eu amava. O marido da minha ex-mulher tinha também uma neta quase da mesma idade, a Francisca. A festa era delas.
Após toda uma encenação na distribuição dos presentes Teresa brincou comigo, fazendo notar o quanto estive bem no papel de Pai Natal ao que Tomás respondeu sarcástico:
– É da prática…
Todos me olharam surpreendidos. Prática?! (era a primeira vez que me viam assim vestido…).
Tomás olhou-me nos olhos e tal como há quinze anos vi nos seus um brilho que me descansou enquanto o ouvia dizer:
– Prática noutra vida. Não sabiam?!
Tinha toda a razão. Era mesmo uma outra vida. Uma vida de insatisfação que um traje de Pai Natal e um filho especial me fizeram ver não ser inevitável.
Naquela longínqua noite de Natal um milagre tinha acordado em mim a coragem adormecida: o milagre de um amor filial.
Natal 2019
Aldora Amaral é especializada em Educação Expressiva e Aconselhamento Terapêutico; é na via Budista que encontra a maior inspiração para a vida. Coordena a produção de conteúdos para os programas televisivos A Fé dos Homens e Caminhos da União Budista Portuguesa.
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