Michael Lonsdale: “Gostaria de morrer tranquilamente. Em Deus sobretudo”

| 23 Set 2020

Michael Lonsdalee, em Abril de 2013 © Claude Truong-Ngoc / Wikimedia Commons

 

Um dos mais fascinantes actores franceses, Michael Lonsdale morreu na passada segunda-feira, 21. Uns lembrar-se-ão de ele ter sido o vice-cônsul de Lahore no filme India Song, de Marguerite Duras, outros não ignorarão o facto de ele se ter empenhado em fazer a vida negra a James Bond. Mas Michael Lonsdale participou em filmes de Truffaut, Malle, Buñuel, Spielberg e outros realizadores não menos relevantes. E foi também o irmão Luc, no filme Dos Homens e dos Deuses, que reconstituía a história dos monges trapistas assassinados no Atlas argelino, e cuja interpretação lhe valeu o prémio César de melhor actor secundário, em 2011.

Foi amigo de Marguerite Duras e de Samuel Beckett, recordava, em 2010, o primeiro número do jornal francês L’1visible, que fez de uma entrevista com ele o seu tema de capa, acrescentando que Michael Lonsdale nasceu num dia de Pentecostes e que o Espírito Santo era, então, o seu oxigénio.

O jornal decidira escutá-lo a partir de uma série de perguntas de questionário rápido, sobre a sua actividade e o seu olhar sobre a vida e a fé. Essa entrevista foi agora recuperada pelo jornal e aqui se reproduz a seguir a tradução.

Michael Lonsdale

Michael Lonsdale na capa do primeiro L’1visible.

Qual é o principal traço do seu carácter?
A vontade de conhecer. Não a curiosidade, mas a necessidade de conhecer.

O que gostaria de ser?
O que sou, um artista. Nenhum lamento!

Que defeito reconhece em si?
A lentidão.

Que virtude cultiva?
A sede dos outros, de os conhecer, de os amar.

A sua maior asneira?
Não ter cumprido a vontade da minha madrinha de ir ver Marthe Robin, uma grande mística. Lamentei-o muito e ainda o lamento agora.

O seu sonho mais louco?
Que a humanidade responda às palavras de Cristo: “Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei.”

Que faz ao domingo?
Trabalho muito! No teatro, ou diante das telas quando pinto. E depois a missa. Repouso entre dois trabalhos.

Em que pensa mais frequentemente durante o dia?
Em Cristo.

Qual é o seu primeiro gesto de manhã?
Abrir os olhos!

O seu herói?
É um religioso. O padre Maurice Zundel. Por causa da sua profundidade, da sua capacidade de nunca dizer mal dos outros. É um verdadeiro herói da fé.

O seu santo preferido?
Santa Teresa de Lisieux.

O seu actor favorito?
Charles Laughton e Michel Simon.

A sua pior filmagem?
Foi em 1984 com Coluche, em Le Bon Roi Dagobert. Foi verdadeiramente terrível…

A sua cor?
Azul-esverdeado. A cor do céu e da natureza.

O seu pintor preferido?
Cézanne.

A sua estação do ano?
O Verão. Quando há mais luz.

A última vez em que se confessou?
Vejamos… Há dois, três meses.

Quem lhe mostrou o caminho para Deus?
A minha madrinha, Denise Robert. Uma mulher cega, mas uma mulher de luz, que me levou à fonte baptismal quando eu tinha 22 anos.

Um grande testemunho de fé?
S. Francisco de Assis.

A palavra que mais detesta?
Hipocrisia. É terrível ser hipócrita.

Quem mais gostaria de encontrar frente-a-frente?
Pergunta difícil! Há tanta gente…

O nome do seu pároco?
Pierre-Marie. É o fundador das Fraternités de Jérusalem e o pároco de Saint-Gervais, em Paris. Se não, há também Jean-Pierre, meu confessor.

O lugar onde gostaria mais de viver?
Onde me encontro agora. É preciso viver no presente.

Como cultiva a sua vida interior?
Pela oração silenciosa e a intercessão pelas pessoas que amo, pelas que sofrem, que estão em dificuldade.

A sua oração preferida?
O Pai-nosso.

Como gostaria de morrer?
Tranquilamente, em paz. Em Deus sobretudo.

 

(A tradução desta entrevista foi publicada pela primeira vez no blogue os dias da semana a 7/2/2010.)

 

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