Migração e misericórdia

| 15 Jun 19 | Entre Margens, Últimas

O 7MARGENS publicou, já lá vão algumas semanas, uma notícia com declarações do cardeal Robert Sarah, que considerava demasiado abstracto e já cansativo o discurso de Francisco sobre estes temas. Várias pessoas, entre muitos apoiantes do Papa, têm levantado a mesma questão. E porque Francisco é exemplo de quem procura sem medo a verdade e tem o dom do diálogo estruturante, devem ser os amigos e apoiantes a escutá-lo criticamente.

Como bem-aventurança, a misericórdia, ou compaixão, fica ao nível de “ilimitada aventura”. Não se pode “levar à letra” porque não tem “letra”: é um desafio a nunca parar na procura de soluções orientadas e instigadas por uma fasquia cada vez mais alta. É olhar sempre para além do horizonte, como é próprio das Bem-aventuranças.

Porém, ter compaixão não é uma atitude etérea ou platónica. Não se pode ficar fascinado com a ideia de “abrir os braços” a quantos fogem para junto de nós: é preciso estudar sem preconceitos o que se passa e preparar um incansável esforço para descobrir soluções. Nenhuma delas pode ser perfeita – mas todas elas se podem aperfeiçoar, o que inclui reconhecer erros e corrigir o que é possível. Está em causa a humildade própria de quem reconhece apenas ter feito o que devia fazer; e também a “pobreza” de quem não se apega ao que vai fazendo – justamente porque vive o permanente apelo do Bem.

Nunca é demais meditar nesse extraordinário poder dos seres humanos: sentirem-se em comunhão com o sofrimento dos outros, de modo activo, procurando soluções.

Parece, contudo, haver receio de aprofundar alguns aspectos: há cada vez mais migrantes, vítimas de guerra, terrorismo e ditadura feroz, a dizer claramente que desejariam não ter que fugir do seu país e que tudo farão por voltar. De certeza que há muita falta de informação “lá e cá”. Por outro lado, não é patente (nem “transparente”) o esforço quer da diplomacia política quer das organizações de “acolhimento”, para se enfrentar adequadamente a situação. Não se leva a sério o projecto da “ética global” (Hans Küng): os políticos continuam demasiado presos a interesses egoístas e a gente não tem tempo para discutir e pensar no por quê e para quê de ajudas pontuais.

Investigando os termos compaixão e misericórdia, encontramos um extenso campo de conotações: justiça, ajuda concreta, perdão, reconciliação, reforço da união da comunidade de referência, disposição assumida para procurar acolher o outro (seja qual for a sua proveniência)…

Convenhamos que não é fácil desenvolver o hábito de relações humanas em que justiça e carinho não se atrapalhem mutuamente. A ética global, na medida em que se baseia num consenso moral explícito, implica medidas concretas comumente aceites para combater as causas dos problemas. “Abrir os braços” sem poder ajudar o outro a construir um modus vivendi  e a combater as causas do mal, é enganar-se com boas intenções. Por outro lado, é preciso partilhar a consciência de que o trajecto da Humanidade é sinuoso: a percepção dos valores em geral forma uma espiral irregular e ocasionalmente regressiva; e as regras de convivência, como qualquer tipo de constituição, não são absolutas nem eternas. Nem o valor eleito como principal resiste às tendências destrutivas de fanáticos.

Verificamos frequentemente que é mais fácil ter compaixão pelas vítimas longínquas de uma tragédia do que pelo sofrimento a nosso lado. É por isso que a misericórdia ou compaixão precisam de ser exercitadas com toda a sinceridade nas relações humanas do dia a dia. Felizmente, a amizade, simpatia e ajuda são comportamentos “contagiosos”, cujo hábito favorece a “grande política” e “ética global”.

Francisco desafia-nos a superar os nossos medos. Sabe que é natural ter medo do desconhecido (e o outro é sempre um mistério…) e sabemos que sem medo arriscamos tragédias. Justamente, ele chama a atenção para pensar (= pesar) os vários cenários de soluções possíveis.

Não podemos esquecer a prudência da pomba. Uma intervenção oportuna implica medir as nossas forças espirituais, físicas, económicas e… políticas! Para tanto, Francisco apela à sabedoria de ler os sinais dos tempos e particularmente à dimensão espiritual da maneira como nos vemos e vemos a Deus nos outros.

A sabedoria dos tempos é muito clara: “Se eu quero ajudar quem está em perigo, tenho que assegurar primeiro que estou bem firme.” Doutro modo, agimos irresponsavelmente. A História ensina que somos naturalmente migrantes. Mas cada vaga migratória tem um espaço-tempo demasiado peculiar para legitimar que se façam comparações à primeira vista.

O fenómeno migração engloba os problemas tanto de quem “pede” como de quem “dá”. A nenhum país interessa pôr em perigo o equilíbrio social das várias comunidades humanas.

Os Estados que alinhem numa ética global têm que saber dizer claramente o que é humano ou anti-humano, discernir as causas negativas e como agir contra elas. Sem esquecer que não é fácil enfrentar os poderosos.

Manuel Alte da Veiga é professor universitário aposentado.

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