A Comissão Nacional Justiça e Paz publicou recentemente uma nota com o título: “Sempre que nos abrimos, prosperamos; sempre que nos fechamos, regredimos”.
Esta ideia (“Sempre que nos abrimos, prosperamos; sempre que nos fechamos, regredimos”) vem responder a outra, que se vem propagando: a de que poderá ser aceitável o acolhimento de imigrantes que nos são culturalmente próximos (como os lusófonos), mas já não os que nos são culturalmente distantes, como os oriundos do Industão ou de religião muçulmana. Essa outra imigração representará um perigo para a nossa própria cultura portuguesa, que deve ser preservada, na sua pureza, dessa alegada contaminação. Não está em causa a defesa de princípios universais, como a dignidade da pessoa humana, que devem ser preservados de qualquer forma de relativismo cultural. Trata-se, antes, da simples convivência com pessoas de culturas diferentes da nossa, que, por nos serem desconhecidas ou estranhas, suscitam medos infundados.

São mais de 700 os imigrantes inscritos para aprender português. Foto © Jorge Wemans
Sobre a questão da riqueza do diálogo de culturas proporcionado pelas migrações, a encíclica do Papa Francisco Fratelli tutti tem palavras muito esclarecedoras. Palavras que se inserem numa linha de continuidade com o magistério dos Papas Bento XVI e São João Paulo II, que também abordaram a temática das migrações nas suas mensagens para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado e nalgumas das suas mensagens para o Dia Mundial da Paz.
A encíclica Fratelli tutti salienta como a abertura a outras culturas é enriquecedora para pessoas e povos: «uma pessoa e um povo só são fecundos se souberem criticamente integrar no seu seio a abertura aos outros» (n. 41). A globalização não deve uniformizar e destruir «a riqueza e singularidade de cada pessoa e de cada povo» (n. 100). Mas uma cultura que se fecha pode sofrer de “esclerose”. «As várias culturas, cuja riqueza se foi criando ao longo dos séculos, devem ser salvaguardadas, para que o mundo não fique mais pobre»; «(…) porém, sem deixar de as estimular a que permitam surgir de si mesmas algo de novo no encontro com outras realidades» (n. 134). «Não me encontro com o outro se não possuo um substrato onde estou firme e enraizado, pois é a partir dele que posso acolher o dom do outro e oferecer-lhe algo de autêntico»; «cada qual ama e cuida, com particular responsabilidade, da sua terra e preocupa-se com o seu país, assim como deve amar e cuidar da própria casa» (n. 143). Porém: «Ao olhar para si mesmo do ponto de vista do outro, de quem é diferente, cada um pode reconhecer nele as peculiaridades da sua própria pessoa e cultura, as suas riquezas, peculiaridades e limites»; «as outras culturas não constituem inimigos de quem seja preciso defender-se, mas reflexos distintos da riqueza inexaurível da vida humana» (n. 147); «uma sã abertura não ameaça a identidade, porque ao enriquecer-se com elementos doutros lugares, uma cultura viva não faz uma cópia nem mera repetição, mas integra as novidades, segundo modalidades próprias», o que provoca «o nascimento de uma nova síntese, que, em última análise, beneficia a todos» (n. 148). Isto é assim porque nenhum «povo ou cultura pode obter tudo de si mesmo» (n. 150).
Em conclusão: «Toda a cultura saudável é por natureza aberta e acolhedora, não estática» (n. 146). Está aqui a resposta do Papa Francisco aos receios de que se percam as riquezas das identidades nacionais e culturais (que ele de modo algum ignora ou despreza) com a convivência e diálogo com outros povos e culturas.

Ensaios da peça Une Histoire Bizarre, interpretada por 16 imigrantes e refugiados em Portugal; ideia original de Sebastião Martins, encenação de Júlio Martin. Foto © Salomé Anukem
Uma boa ilustração destas ideias pode ser encontrada precisamente na história da nossa Nação portuguesa. Os portugueses chegaram aos lugares mais recônditos do mundo de então, à India, à Malásia, a África, ao Brasil e ao Japão («Um pedaço de terra para nascer, o mundo inteiro para morrer» – disse o Padre António Vieira). Contactaram culturas muito diferentes da sua. À época essas diferenças eram ainda mais acentuadas do que o são hoje (veja-se, por exemplo, o escrito quinhentista do padre jesuíta Luís Fróis Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes entre a Europa e o Japão, publicado pela editora Livros de Bordo em 2019). Mas os portugueses (sobretudo os missionários) não se detiveram perante essas diferenças culturais.
Não foram essas diferenças que os impediram de deixar por todo um mundo marcas que (apesar de outras facetas que hoje repudiamos) representam algo de positivo e de que nos devemos orgulhar. A mais preciosa dessas marcas é a da fé cristã, que é também a mais omnipresente nos vários lugares por onde passaram os portugueses e a que mais perdura ainda hoje. Perdura ainda hoje mesmo em locais onde já são poucos os que falam português. É assim, por exemplo, em Goa (não é, pois, só agora que nos relacionamos com a cultura do Industão…). Quando a minha filha visitou Goa, disse-nos a sua impressão: «é, ao mesmo tempo, muito exótica e muito familiar». Familiar pelas marcas portuguesas nos nomes de pessoas, rua e lojas, na culinária típica, mas, sobretudo, pelas muitas Igrejas católicas.
A presença de muitos imigrantes não cristãos hoje em Portugal não é uma ameaça às nossas tradições cristãs. Pelo contrário: é um desafio a uma nova evangelização: sem proselitismo, com métodos diferentes dos do passado, baseada sobretudo no testemunho. E o testemunho que nos é pedido é o que segue os verbos várias vezes enunciados pelo Papa Francisco: acolher, proteger, promover e integrar.
Pedro Vaz Patto é Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz.










