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Luxemburgo

Milhares a dançar na procissão

| 31/05/2023

“Os organizadores consideram esta a única e derradeira procissão da Europa que se faz a dançar. Presume-se que ela tenha origens pré-cristãs e tenha sido adaptada e introduzida na devoção a São Willibrord.” Foto retirada do vídeo.

 

Uma procissão dançante que dura cerca de três horas, em honra de São Willibrord, um santo dos séculos VII-VIII decorreu como é tradição desde há perto de mil anos, na última terça-feira, 30 de maio, na cidade luxemburguesa de Echternach.

O ritual decorre sempre na terça-feira seguinte ao Domingo de Pentecostes e envolve vários milhares de participantes, entre grupos de dançarinos, bandas de música e clero.

Os organizadores consideram esta a única e derradeira procissão da Europa que se faz a dançar. Presume-se que ela tenha origens pré-cristãs e tenha sido adaptada e introduzida na devoção a São Willibrord. Ao som e ritmo de uma música própria, os grupos, com camisa branca e calça ou saia preta, avançam em linhas de cinco pessoas, ligadas por lenços brancos. Os movimentos consistem em dar um passo em diagonal à direita, seguido de outro à esquerda, produzindo o efeito visual de grupos que avançam sincronizadamente.

São Willibrord nasceu no extremo norte da Grã-Bretanha, no ano de 658, filho de pais recentemente convertidos ao cristianismo. Foi influenciado por mestres cristãos quer no país natal quer, depois, na Irlanda, onde foi ordenado padre com 30 anos. Apaixonado pela mística da peregrinação e pelo espírito missionário, desenvolveu esta missão junto de povos resistentes à conversão, no continente europeu, em regiões que correspondem hoje ao Luxemburgo e à Alemanha.

Com dádivas de poderosos e apoio do Papa fundou igrejas e ficou, sobretudo, conhecido pela fundação da Abadia de Echternach, 30 quilómetros a nordeste da cidade do Luxemburgo. Foi aí que, por sua vontade expressa, ficou sepultado, quando morreu em 739, tendo-se tornado rapidamente motivo de devoção e peregrinação, invocado pelo bem que fazia aos afetados por doenças nervosas, sobretudo crianças.

Segundo o site da Abadia e do santo, a referência mais antiga a uma dança religiosa associada a esta peregrinação de Echternach é da autoria de um monge-abade, na primeira metade do séc. X.

Outras fontes consideram que ela é um pouco mais tardia. Inquestionável parece ser uma antiguidade de largos séculos.

O gosto da Igreja Católica por danças nas suas liturgias foi escasso, sobretudo depois do Concílio de Trento, como se documenta, em países do sul da Europa à volta da procissão do Corpus Christi. A verdade é que, no século XVIII, houve períodos em que a procissão não se pôde realizar.

De facto, em 1777, o arcebispo da região ordenou que se fizesse uma procissão com bandeiras, andores e peregrinos, mas proibiu as danças. Na década seguinte, o imperador acabou com a própria procissão. Entretanto, as vicissitudes da Revolução Francesa levaram a que só em 1802 Echternach tenha conseguido repor a tradição. Até hoje.

Esta celebração religiosa que mobiliza toda a região, atraindo devotos de vários países, em torno do santo padroeiro do Luxemburgo, tem revelado um vigor acrescido em décadas recentes. Tornou-se um fenómeno cultural e turístico, com visitantes de muitos países, que, fora do dia da festa, têm a basílica e a grande Abadia para visitar, ao longo de todo o ano.

 

Daí que, em novembro de 2010, a assim chamada Procissão Dançante tenha sido inscrita pela UNESCO na Lista do Património Cultural Imaterial da Humanidade, assumindo a comunidade de Echternach a obrigação de zelar por este bem patrimonial.

A página sobre São Willibrord disponibiliza informação e documentação em quatro línguas.

Sendo o Luxemburgo um país de acolhimento para largas dezenas de milhares de portugueses e descendentes, não existe uma tradução em português. Talvez nem seja necessária, dada a inserção das comunidades lusófonas na sociedade local, que tem mais de meio século.

 

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