[Segunda leitura]

Milhares, milhões, biliões…

| 17 Fev 2022

vacina, covid-19

Vacina contra a covid-19 proporcionou lucros enormes à Pfizer. Foto © Lisa Ferdinando/DoD/Wikimedia Commons.

 

Estou preocupado com a Pfizer. Mesmo. Então não é que, no último trimestre de 2021, essa big pharma teve receitas de ‘apenas’ 23,8 mil milhões de dólares, quando as previsões dos analistas financeiros estavam a apontar para receitas de 24,1 mil milhões de dólares?!… Então isto faz-se?!… Conclusão: as ações da Pfizer caíram 3,68% na Bolsa de Nova Iorque! Sim, sim: caíram mesmo! E foi uma enorme deceção… Admite-se uma receita de apenas 23,8 mil milhões num trimestre, quando se estava à espera de uma receita de 24,1 mil milhões?… Assim, as receitas do ano de 2021 ficam-se apenas por 81,3 mil milhões de dólares!… Apenas um aumento de escassíssimos 90 por cento face às receitas de 41,9 mil milhões de 2020, quando ainda não havia vacinas. Com estes números, onde é que o negócio vai parar?… E que é que vai acontecer às nossas ações?… Quem vai investir nelas, com tamanhos erros de previsão?… 

Atenção, que isto em americano ainda tem mais impacto: eles falam em biliões quando nós falamos em milhares de milhões, pois guardamos os biliões para milhões de milhões. Portanto, estamos perante receitas de 23,8 BILIÕES de dólares num trimestre, quando se esperavam 24 BILIÕES! Estão a ver como soa a ainda mais grave?… Para mim, confesso, não há uma grande diferença, milhões, biliões, milhares ou milhões de milhões, mais três zeros para a frente ou mais três zeros para trás, é mesmo uma pipa de massa, como dizia o outro. Uma pipa de massa mesmo! Como me é difícil imaginar o que significa tanto dinheiro, vejamos um termo de comparação: os 81,3 mil milhões de dólares de receita da Pfizer em 2021 são MAIS do que o Produto Interno Bruto (PIB) da maioria dos países deste nosso mundo. Quem o diz é a organização Global Justice Now.

Ora ouçam: “Se a Pfizer fosse um país, teria o 66º PIB mais alto do mundo, à frente de países como a Etiópia, o Quénia, o Gana, a Guatemala, Omã ou o Luxemburgo”. Ou seja, uma empresa com uma receita anual superior à produção anual total de mais de uma centena de países! Dá para perceber a ordem de grandeza, não dá?… Moçambique, por exemplo, tem um PIB de 13 mil milhões.

Mas isto, dir-se-á, são receitas da farmacêutica. Ora às receitas há que retirar as despesas, que são sempre muitas, e mais os impostos, etc., etc., para depois apurar os lucros líquidos. E esses, se calhar, acabam por ser bem modestos. Ou não? 

Não. Também não.  

“The drugmaker made a net profit of nearly $22bn last year, up from $9.1bn in 2020”. Isto veio no The Guardian.

Traduzido, significa que a Pfizer teve, em 2021, um lucro líquido de cerca de 22 mil milhões (ou biliões, na escala dos EUA) de dólares. E no ano anterior, tinha tido ‘apenas’ 9,1 mil milhões (ou biliões à americana) de dólares. De 9 para 22, vai um aumento de… de… é fazer as contas, um aumento de 145 %. Nada mau, para crescimento de lucros. E grande parte disto explicada pela produção e venda de vacinas contra a covid-19. Estas representaram mais de 45 por cento do total de vendas da farmacêutica, no ano passado. Nem mais. Mesmo assim, houve aquela quebrazinha do preço das ações na bolsa! Incrível, não é?…

Uma das circunstâncias que permitem à Pfizer fazer (e lucrar) este dinheiro todo é o facto de não ter grande concorrência – nem desejar tê-la. Aliás, há informações muito diversas sobre quanto custa realmente fazer uma dose daquela vacina e por quanto é que ela é vendida no mercado. A Global Justice Now sugere que cada dose pode ter um custo de produção de 1,18 dólares, ao passo que a Pfizer a vende a preços que podem chegar a 29 dólares… No mercado britânico, por exemplo, terá vendido os muitos milhões de doses a preços que oscilaram entre os 24 e os 29 dólares cada. A farmacêutica não reconhecerá os 1,18 dólares por que lhe fica cada dose, mas ainda assim informa que anda pelos 6,75 dólares – referindo-se apenas aos custos de produção, sem qualquer margem de lucro adicionada.

Tudo isto para dizer que, embora nós estejamos muito agradecidos por podermos dispor destas vacinas (e por podermos tê-las tido tão depressa), isto é também um negócio absolutamente fabuloso. A ponto de, segundo nos conta a Oxfam, a venda de vacinas no contexto da pandemia ter criado já nove novos bilionários. Bilionários de milhares de milhões ou bilionários de milhões de milhões, pouco interessa. Nove. Novos. Bilionários. Com uma pipa de massa.

Em síntese, duas grandes dúvidas:

1) Será que os preços destes bens de primeiríssima necessidade – para mais desenvolvidos na sequência de investimentos avultadíssimos da parte de entidades públicas – não poderiam ser mais em conta, para não exaurirem os serviços de saúde da generalidade dos países? E mais concretamente, como é que países pobres podem pagar estes montantes? Não será também por isso que continuam com taxas de vacinação tão baixas?

2) Será que, neste contexto, não devia ser imperativo que as big pharma abrissem mão, de alguma forma, das fórmulas destas vacinas, partilhando-as com outros produtores de diferentes latitudes, de modo a que se produzisse mais, mais barato e mais perto de quem mais precisa? 

É mais ou menos isto que diz a Oxfam a propósito dos tais nove novos bilionários: “Estes bilionários são a face humana dos elevadíssimos lucros que muitas empresas farmacêuticas estão a ter com o monopólio destas vacinas. Elas foram financiadas por dinheiros públicos e deviam ser, antes de tudo o mais, um bem público global, não uma oportunidade privada de lucro. Precisamos urgentemente de acabar com estes monopólios para que possamos aumentar a produção de vacinas, baixar os seus preços e vacinar todo o mundo”.

Também me parece.

 

[N.R. – Sobre este tema, ver também a notícia publicada pelo 7MARGENS, acerca do relatório da Amnistia Internacional sobre o acesso às vacinas.]

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

Há quem continue a pensar que sinodalidade é mais uma “palavra de moda”, que perderá a sua relevância com o tempo. Esquece-se, porventura, que já há décadas falamos repetidamente de comunhão, corresponsabilidade e participação. Sobretudo, ignoram-se os princípios fundacionais e fundantes da Igreja e os critérios que daí decorrem para o ser cristão e a vida eclesial.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

De 1 a 31 de Julho

Helpo promove oficina de voluntariado internacional

  Encerram nesta sexta-feira, 24 de Junho, as inscrições para a Oficina de Voluntariado Internacional da Helpo, que decorre entre 1 e 3 de Julho. A iniciativa é aberta a quem se pretenda candidatar ao Programa de Voluntariado da Organização Não Governamental para...

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Jesuíta morreu aos 80 anos

António Vaz Pinto (1942-2022): o padre dinamizador

Por onde passou lançava projectos, dinamizava equipas, deixava-as a seguir para partir para outras aventuras, sempre com a mesma atitude. Poucos dias antes de completar 80 anos, no passado dia 2 de Junho, dizia na que seria a última entrevista que, se morresse daí a dias, morreria “de papo cheio”. Assim foi: o padre jesuíta António Vaz Pinto, nascido em 1942 em Arouca, 11º de 12 irmãos, morreu nesta sexta-feira, 1 de Julho, no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado desde o dia 8, na sequência de um tumor pulmonar que foi diagnosticado nessa altura.

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Testemunho de uma mulher vítima

Abusos sexuais: “Senti que não acreditavam em mim”

Na conferência de imprensa da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que decorreu quinta-feira, 30 de junho, em Lisboa, foram lidos três testemunhos de vítimas de abusos, cujo anonimato foi mantido. Num dos casos, uma mulher de 50 anos fala do trauma que os abusos sofridos lhe deixaram e de como decidiu contar a sua história a um bispo, sentindo ainda assim que a sua versão não era plenamente aceite como verdadeira.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This