Cinema

Minari: O sonho americano de uma família coreana

| 11 Jul 21

Minari é um filme sobre a superação de uma família coreana para vingar na América.

 

Como é sabido, Tolstoi abre o seu romance “Ana Karenina” com a famosa frase: “As famílias felizes são todas iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira.” Mas todos sabemos também, da nossa experiência, que essa afirmação só é verdadeira “à sua maneira”.

Começo por aqui para falar de um belíssimo filme, Minari, que nos conta a luta de uma família coreana para vingar na América.

E começo também por aqui, porque uma das primeiras coisas que se descobre (não sei se com surpresa) é que, tirando a questão da comida – essa sim, com alimentos e temperos muito próprios –, o resto é muito igual em todas as famílias: as dificuldades e os sonhos, as alegrias e as tristezas, as discussões e as reconciliações.

Talvez a melhor maneira de entrar no filme seja apresentar as personagens que nos conduzirão ao longo do filme:

Jacob, o pai, revela um gosto especial por trabalhar a terra. Mas vive debaixo de um peso terrível: tem de ser, custe o que custar, um exemplo para os filhos, tem de vencer haja o que houver e sustentar a família. É uma obsessão, como lhe dirá a esposa.

Mónica é a esposa e mãe. Ama o marido e os filhos, e segue, contrariada, os sonhos do marido. Mas tem um problema que a aflige e condiciona: o filho, como saberemos, tem um problema cardíaco, corre o risco de morrer. E ela vive com esse pânico de mãe.

David é esse filho doente, a quem eles estão sempre a dizer para não correr, mesmo que seja naquele campo sem fim. Com o seu problema, mas sobretudo com as suas traquinices e o esticar da corda, é uma personagem que não esqueceremos. Mais ainda se soubermos que é o espelho do próprio realizador, que veio, de facto, em criança para a América com a família.

Anne é a filha mais velha, a quem os pais encarregam de tomar conta do irmão; é a filha bem comportada e responsável que também carrega o peso da família.

E finalmente, no que se refere à família coreana, temos a avó que aparecerá, já com o filme adiantado, para trazer equilíbrio, alegria e sabedoria àquela situação complicada (é ela que planta o Minari, no sítio certo, e ele produz bem). Apesar de parecer a culpada de muitos problemas, como a irreverência infantil lhe dirá numa cena.

Minari começa com esperança e aberto ao futuro, naquela chegada à quinta, a uma nova cidade e a uma nova vida. Mas Jacob não conhece a história daquela quinta condenada à tragédia. Com a sua racionalidade e esperteza, acredita que vai conseguir ser agricultor. Por isso, ao contrário da esposa, rejeita tudo o que lhe parece superstição e religião. Aceitando apenas a colaboração de Paul, um homem “estranho” mas com bom conhecimento do cultivo da terra e com genuína vontade de ajudar.

O filme começa esperançoso, mas nós vamos sendo conduzidos para uma tragédia anunciada: no momento em que tudo tinha condições para ficar bem – Jacob ia conseguir vender os seus legumes, David estava a recuperar do seu problema cardíaco –, Mónica conclui que não pode continuar mais a acompanhar a loucura do marido que só vê a quinta. E é com essa separação inevitável que regressam a casa, resignados.

Mas nada vai ser como tinham pensado. O destino vai pregar-lhes a última partida que, afinal, os vai salvar. Ao chegar, espera-os um fogo que está a destruir o armazém que guarda todos os legumes. Jacob precipita-se para salvar o que puder. E Mónica vai atrás dele para o ajudar, até à exaustão.

Perceberemos depois que aquele fogo, provocado pelas limitações físicas da avó, acabou por ser o fogo do amor que se reacendeu entre Jacob e Mónica e fez a família renascer das cinzas. Talvez seguindo a velha sabedoria de escolher apenas o lugar certo para semear o minari (uma espécie de agriões) e esperar que eles cresçam. Serenamente.

 

Minari, de Lee Isaac Chung
Com Alan Kim, Yeri Han, Noel Kate Cho
Drama; M/12; EUA, 2020; Cores; 115 min.

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

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