Jovens do ensino superior

Mirandela: religião ajuda integração de estudantes africanos

| 18 Fev 2024

Mirandela têm-se transformado, ano após ano, numa cidade multiculturalizada. Foto © Rúben Castanheiro.

Mirandela têm-se transformado, ano após ano, numa cidade multiculturalizada. Foto © Rúben Castanheiro.

 

As Igrejas, a religião, desempenham um papel importante na integração e adaptação dos jovens africanos que escolheram Mirandela para estudar – é o que permite concluir uma reportagem do 7MONTES junto de seis estudantes de diferentes nacionalidades. Integração, solidão, adaptação e depressão são os temas centrais na sua relação com a realidade social da escola e da cidade.

Carina Cecília, 21 anos, é oriunda de São Tomé e Príncipe. Morava em Lisboa, antes de ir viver para Mirandela. Encontrou uma cidade pequena, com poucas distrações e locais de convívio, o que dificultou o seu processo de adaptação. Acabou por se sentir “cabisbaixa e deprimida”. Miriam Pereira, 22 anos, que também é santomense, partilha da mesma opinião e acrescenta que o facto da maior parte dos estudantes ir a casa ao fim-de-semana, fora de Mirandela,  torna o processo de integração “ainda mais difícil” do que já seria.

Moustafa Malan, 34 anos, já é “pai de família”. Oriundo da Guiné-Bissau, diz que o facto de estar longe da “grande família” fez com que não conseguisse adaptar-se facilmente, mas também refere as dificuldades decorrentes da cidade ser um “meio pequeno”.

Quem se sente bem integrada é Diana Moreira, 22 anos, de São Tomé e Príncipe, que encontrou na Igreja um grande apoio para se adaptar às novas circunstâncias de vida. O que a faz feliz é “encontrar uma igreja e conseguir frequentá-la sempre”, algo a que estava habituada na Ilha do Príncipe, em São Tomé, pois, para ela, “Cristo é o motor que nos permite estar cá” e o “silêncio” das igrejas fá-la sentir-se mais tranquila.

Avelina Liandro, 21 anos, é de Angola, mas veio de Beja para Mirandela. Queria encontrar uma cidade calma para terminar o curso em três anos. O que ela não esperava é que Mirandela, além de “calma”, fosse uma cidade “muito calma”. Sofre de problemas de ansiedade que dispararam logo no início da sua estadia. Até já pensou em desistir. Avelina acha essencial conhecer mais pessoas, porque “para ficar em Mirandela tens de ter o grupo certo de pessoas que te acompanhem em várias atividades”. Na sua opinião, na praxe formam-se grupos que posteriormente se tornam grupinhos fechados, o que leva os estudantes a “fecharem-se a conhecer outras pessoas”.

Jussara Évora, 22 anos, cabo-verdiana, é um caso diferente dos outros. Adaptou-se facilmente a Mirandela. Destaca que o processo de integração varia de “pessoa para pessoa” e que depende muito do modo de ser de cada um.

Há quatro anos em Mirandela, Carla Neto, 23 anos, santomense, viu-se obrigada a interromper os estudos na altura da quarentena, mas gosta muito da cidade e também vê a Igreja como um suporte importante na sua integração. Além disso, considera essencial o “apoio de outras pessoas”, porque “ficar [todo o tempo] em casa não faz nada bem ao [lado] psicológico”, acrescenta.

Todos se dizem cristãos. Carina frequentou várias vezes a mesma Assembleia de Deus de que Carla, mas por estar habituada à comunidade de Lisboa, que sente como totalmente diferente, decidiu começar a ouvir online o culto da capital. A população envelhecida e o facto dos cânticos e da pregação em Mirandela serem totalmente distintos, fizeram-na tomar esta decisão.

Apesar de se considerar cristã, Miriam vive um “impasse religioso”. Frequentava a Igreja Católica por causa dos pais. A perda do pai muito cedo, aconteceu numa altura em que não tinha uma “fé construída”. Hoje em dia, espera conseguir descobrir a sua “devoção”.  Já para Moustafa, a Igreja faz com que se sinta “mais leve”, mas as aulas e o ter de cuidar da família fazem com que nem sempre arranje tempo para frequentar as celebrações dominicais.

Diana adaptou-se bem à Igreja [Católica] em Portugal. A maioria das pessoas que a frequentam têm os mesmos “hábitos e costumes” por serem africanas. Por sua vez, Avelina não se deu conta de que existia uma comunidade evangélica em Mirandela, mas mostra-se tentada a experimentar participar no culto porque sempre lhe interessaram os temas que são abordados na Igreja.

Jussara começou recentemente a frequentar a Assembleia de Deus, a convite de Carla. Ao longo da sua vida, passou por vários processos. Cresceu na religião católica, em Cabo Verde, apoiada pela família. Por alguns momentos, deixou de acreditar na “presença de Deus”, mas nos dias que correm voltou a sentir-se “cristã”.

Já Carla frequenta a assembleia com os irmãos, o que, sublinha, foi “um fator essencial” durante o seu período de adaptação. Bem recebida e acolhida na comunidade, por ser frequentada por alguns africanos e portugueses, tornou a integração muito fácil. Tem sido muito bom para ela, servir e estar presente, mas não há comparação com a realidade de onde veio: “a fé é a mesma, mas a cultura é diferente!”.  O essencial, para Carla, é “louvar a Deus e estar em comunhão”. Sente saudade das celebrações em São Tomé e Príncipe, principalmente da envolvência, do estar de corpo e alma, da alegria e da vivacidade das formas de culto.

 

Diana, Moustafa, Carla, Jussara, Avelina, Miriam e Carina expressaram a sua experiência, até ao momento, em Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro

Diana, Moustafa, Carla, Jussara, Avelina, Miriam e Carina expressaram a sua experiência, até ao momento, em Mirandela. Foto © Rúben Castanheiro.

 

Romper com os grupos “fechados no seu cubículo”

Quanto ao convívio com outras nacionalidades, as opiniões dividem-se. Jussara só no seu último ano de estudos se está a aproximar de outras culturas, porque inicialmente, diz, “estavam todos muito fechados no seu cubículo”. Depois de conhecer novas pessoas, na sua sala de aula e na sua bolha social, já não sente que os grupos sejam apenas de cabo-verdianos com cabo-verdianos, ou de santomenses com santomenses, existindo maior relação entre estudantes originários de vários países.

Carina acha “incrível” o convívio com várias nacionalidades e considera ser mais fácil em Bragança conviver com pessoas de outras culturas. Aprender a lidar com diferentes tipos de pessoas e de culturas, a respeitar as ideologias, os pensamentos, a forma de ser e de estar, de comer e de vestir, fazem realçar o “dom de identificar culturas”, característica de Carina.

Na sua turma, Miriam não sente tanto a “diversidade de culturas”, pois predominam largamente os estudantes portugueses. Também não teve muitas oportunidades de experimentar essa vivência, porque os alunos tendem a agruparem-se por nacionalidades. Diz que há algo muito decisivo para a boa integração de um estrangeiro numa turma: chegar na primeira, ou só chegar na segunda semana de aulas. Míriam fala com o conhecimento de quem já tem a experiência de ter ingressado noutra licenciatura: “Chegar num momento posterior” é correr o risco de ficar “deslocado/fora” do grupo da turma.

Moustafa não faz distinção entre as pessoas. Vê qualquer pessoa de cada nacionalidade como se fosse seu “irmão”. Desde sempre viveu essa empatia e acha que a diferença não deveria existir e, em qualquer caso, deve-se deixar a “diferença de lado”. Moustafa pensa assim por se sentir um “guineense de gema” e a tradição dos guineenses é “serem extrovertidos”.

Diana não sente problemas na relação com outras nacionalidades. Era a única santomense na turma. Chegou duas semanas depois do início do ano letivo e já havia vários grupos constituídos, o que a fez sentir-se como um “peixe fora d’água”. Mas tudo se tornou mais fácil quando entrou outra santomense na turma.

No dia em chegou não havia na turma de Avelina nenhum africano. O primeiro africano que encontrou, foi a primeira pessoa a quem se apegou, porque, apesar de ser de outra nacionalidade, está mais familiarizada com os seus hábitos.

As “ruas do mundo” de Mirandela

As ruas de Mirandela são hoje, ‘ruas do mundo’, tantos são os estrangeiros que nelas passam. Além destes, há também muitos nacionais que vêm de outras regiões do país para ali estudarem. Dos cerca de 1700 alunos da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo (EsACT), 450 são estrangeiros e pouco mais de 500 são portugueses de fora de Trás-os-Montes. “O número de inscrições é o triplo de colocações”, explica Sónia Nogueira, diretora da EsACT, que está em Bragança há pouco mais de 20 anos.

Sónia Nogueira nasceu em Lousada, mas aos três anos, mudou-se para Liberação, em Marco de Canaveses. Aos 18, começou a licenciatura em Contabilidade e Administração, em Bragança. Hoje é doutorada, e já foi uma “pessoa em mobilidade”. Viveu em Madrid, uma experiência “gratificante” em que conheceu novas pessoas, novas culturas e novos hábitos de estudo. “Orgulho e felicidade” são as palavras usadas pela diretora para descrever o que sente por ver a escola cada vez mais procurada.

Para responder a esta realidade e dar “apoio à integração” aos estudantes estrangeiros, sobretudo, de Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Brasil, Angola, Espanha, Tunísia e Timor-Leste, a EsACT optou pelo programa Mentoring Academy, iniciado há três anos. Decorre durante uma semana, a “semana 0”. Além de apoiar a integração, serve também para dar a conhecer os diversos serviços da instituição, a realidade do concelho, as diferentes entidades que disponibilizam serviços públicos, como tirar o cartão de cidadão, usar o número de contribuinte, ou abrir uma conta bancária. Este ano letivo o programa pôde ser frequentado pelos estudantes do concurso nacional de acesso. Nos dois anos anteriores tinha sido apenas para estudantes internacionais.

Além de alunos estrangeiros, Mirandela recebe também docentes internacionais. Em cada um dos semestres chegam professores visitantes que residem na cidade durante um semestre, sozinhos ou acompanhados.

Para a diretora da EsACT, conviver com várias nacionalidades e culturas é “uma experiência de enriquecimento”, porque lidar diariamente numa sala de aula com culturas, conhecimentos e realidades díspares, permite a cada aluno poder partilhar o background que traz do seu país e contribuir para a “aprendizagem de todos”.

 

A EsACT tem sido uma das escolas que mais cresceu nos últimos anos. Foto © Rúben Castanheiro

A EsACT tem sido uma das escolas que mais cresceu nos últimos anos. Foto © Rúben Castanheiro

 

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