O Papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitas (MH). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina Social da Igreja Católica, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é feita de polarizações e violências (MH 185).
A missão, a dimensão fundamental e fundacional da vida cristã, não podia ficar de fora da encíclica «sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial», embora tratada circunstancialmente.
Poder ao serviço da missão

“A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.” Foto © AIS
Na conclusão do segundo capítulo dedicado aos «Fundamentos e princípios da Doutrina social da Igreja», o papa americano faz uma reflexão sobre a Doutrina social da Igreja como teste e exame de consciência para a própria comunidade eclesial.
«A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma» (MH 86), escreve.
A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.
O Papa fala da subsidiariedade como «critério de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fiéis e dos organismos eclesiais intermédios, valorizando os carismas e as competências» (MH 87). Também afirma que a «a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia» (MH 88).
A subsidiariedade e a solidariedade juntamente com o bem comum, o destino universal dos bens e a justiça social formam os cinco esteios da doutrina social católica (MH 46).
Sobre a vivência da justiça no contexto eclesial, Leão XIV escreve: «viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações» (MH 89). Para acrescentar que «a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção» (MH 89).
Depois ajunta: «Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (MH 89). Estas duas frases redirecionam-me para o que o Papa Francisco de tão boa memória escreveu na Evangelii gaudium (EG), o documento programático que lançou o seu pontificado.
«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (EG 27), escreveu o Papa argentino.
No pensamento de Leão, a missão qualifica também o modo do exercício eclesial do poder como serviço de comunhão e missão do povo de Deus.
Por outro lado, a Igreja que vive em estado permanente de missão deve ser uma Igreja em permanente exercício de discernimento para uma missão melhorada (MH 89).
Missão ao serviço dos mais pobres

‘Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.’ Foto © Nicola Barts | Pexels
Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.
«Esta diaconia manifesta-se não só na fé celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisição de um estilo sinodal, mas também na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais são chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre nós ninguém passe necessidade (cf. Atos 4, 34) e para que a sua administração apoie a missão de anúncio do Evangelho aos mais pobres» (MH 89).
Este é um ponto importante: a partilha dos recursos eclesiais – que são tantos e tão variados – passa pela sua comunização para que, à semelhança dos primeiros cristãos, sejam postos em comum para que todos tenham o necessário para viver e para que apoie a evangelização dos mais pobres – que passa também pela sua promoção humana através da escolaridade, da saúde e da promoção da mulher.
Mundo digital: novo continente a evangelizar

“Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos.” Foto © Igor Omilaev | Unsplash
Na conclusão da encíclica, e refletindo sobre a educação como investimento necessário para enfrentar os desafios da Inteligência Artificial, o Papa Leão escreve: «Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé» (MH 238).
Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos. O Papa afirma-o ao dizer que o digital é parte integrante da vida boa do Evangelho e que constitui o mundo novo a ser evangelizado por missionários provados.
A missão no digital tem de ir além dos tiktoks e das postagens bonitas e beatas sobre Jesus e a fé cristã. Urge facilitar aos nativos do digital a experiência da liturgia, comunhão, serviço e testemunho – os quatro elementos fundamentais do acontecimento cristão – lá onde vivem, no vasto e complicado mundo digital. A Igreja 3.1, a Igreja eletrónica, é uma dimensão fundamental da missão hoje e um direito dos nativos do digital.
José Vieira é padre católico dos Missionário Combonianos.
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