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[Entre Margens]

Missão na era da Inteligência Artificial

| 11/06/2026

 

O Papa Leão XIV publicou recentemente a sua primeira carta encíclica com o título Magnifica humanitas (MH). Trata-se de um documento do âmbito da Doutrina Social da Igreja Católica, um hino que celebra a humanidade em todo o seu esplendor apesar dos desafios da cultura de poder (MH 188) que é feita de polarizações e violências (MH 185).

A missão, a dimensão fundamental e fundacional da vida cristã, não podia ficar de fora da encíclica «sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial», embora tratada circunstancialmente.

 

Poder ao serviço da missão

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“A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.” Foto © AIS

Na conclusão do segundo capítulo dedicado aos «Fundamentos e princípios da Doutrina social da Igreja», o papa americano faz uma reflexão sobre a Doutrina social da Igreja como teste e exame de consciência para a própria comunidade eclesial.

«A Doutrina social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja, casa e escola de comunhão, chamada sempre a averiguar se os princípios evocados neste capítulo são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma» (MH 86), escreve.

A Igreja que ensina é também a Igreja que pratica, que quer ser laboratório dos próprios ensinamentos sobre a comunhão.

O Papa fala da subsidiariedade como «critério de governo e de vida pastoral, que reconhece e apoia a responsabilidade dos fiéis e dos organismos eclesiais intermédios, valorizando os carismas e as competências» (MH 87). Também afirma que a «a solidariedade encontra a sua fonte no mistério de Cristo e alimenta-se da Eucaristia» (MH 88).

A subsidiariedade e a solidariedade juntamente com o bem comum, o destino universal dos bens e a justiça social formam os cinco esteios da doutrina social católica (MH 46).

Sobre a vivência da justiça no contexto eclesial, Leão XIV escreve: «viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações» (MH 89). Para acrescentar que «a escuta das vítimas de abusos espirituais, económicos, institucionais, sexuais, de poder e de consciência é parte integrante dum caminho de justiça, que inclui o reconhecimento do dano causado, a justa reparação e a prevenção» (MH 89).

Depois ajunta: «Todo o poder está ao serviço da comunhão e da missão. Toda a autoridade está ao serviço do povo de Deus» (MH 89). Estas duas frases redirecionam-me para o que o Papa Francisco de tão boa memória escreveu na Evangelii gaudium (EG), o documento programático que lançou o seu pontificado.

«Sonho com uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais à evangelização do mundo actual que à auto-preservação» (EG 27), escreveu o Papa argentino.

No pensamento de Leão, a missão qualifica também o modo do exercício eclesial do poder como serviço de comunhão e missão do povo de Deus.

Por outro lado, a Igreja que vive em estado permanente de missão deve ser uma Igreja em permanente exercício de discernimento para uma missão melhorada (MH 89).

 

Missão ao serviço dos mais pobres

Jovens e pobreza. Foto © Nicola Barts de Pexels

‘Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.’ Foto © Nicola Barts | Pexels

Na linha dos seus antecessores, Leão XIV recorda que a «opção ou amor preferencial pelos pobres» é caminho obrigatório da Igreja, critério de discernimento da linguagem evangélica (MH 14), fonte de evangelização da própria Igreja (MH 42) e a partilha de bens é caminho para a missão.

«Esta diaconia manifesta-se não só na fé celebrada e vivida nos Sacramentos, e na aquisição de um estilo sinodal, mas também na partilha concreta dos bens: segundo o exemplo da Igreja primitiva, os recursos eclesiais são chamados a tornar-se verdadeiramente comuns, para que entre nós ninguém passe necessidade (cf. Atos 4, 34) e para que a sua administração apoie a missão de anúncio do Evangelho aos mais pobres» (MH 89).

Este é um ponto importante: a partilha dos recursos eclesiais – que são tantos e tão variados – passa pela sua comunização para que, à semelhança dos primeiros cristãos, sejam postos em comum para que todos tenham o necessário para viver e para que apoie a evangelização dos mais pobres – que passa também pela sua promoção humana através da escolaridade, da saúde e da promoção da mulher.

 

Mundo digital: novo continente a evangelizar

“Se a Inteligência Artificial (IA) superar os humanos, o que restará de distintivo na experiência humana?” Foto © Igor Omilaev | Unsplash

“Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos.” Foto © Igor Omilaev | Unsplash

Na conclusão da encíclica, e refletindo sobre a educação como investimento necessário para enfrentar os desafios da Inteligência Artificial, o Papa Leão escreve: «Todos precisamos de nos formar para viver o mundo digital de forma humana, como parte integrante da educação na fé e na vida boa do Evangelho. Devemos educar-nos para considerar o mundo digital como um novo continente a ser evangelizado, e que requer missionários generosos e maduros na fé» (MH 238).

Há uma geração inteira que mora no digital e que tem o direito de conhecer Jesus Cristo nesse espaço humano novo a que insistimos chamar de realidade virtual mas que, de facto, é o novo real para milhões de seres humanos. O Papa afirma-o ao dizer que o digital é parte integrante da vida boa do Evangelho e que constitui o mundo novo a ser evangelizado por missionários provados.

A missão no digital tem de ir além dos tiktoks e das postagens bonitas e beatas sobre Jesus e a fé cristã. Urge facilitar aos nativos do digital a experiência da liturgia, comunhão, serviço e testemunho – os quatro elementos fundamentais do acontecimento cristão – lá onde vivem, no vasto e complicado mundo digital. A Igreja 3.1, a Igreja eletrónica, é uma dimensão fundamental da missão hoje e um direito dos nativos do digital.

 

José Vieira é padre católico dos Missionário Combonianos.

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