Lino Bicari (1935-2024)

Missionário e médico da guerrilha, padre e professor

| 25 Mai 2024

25 Abril capitular, 25Abril, Catarina Castel-Branco, Mendo Castro Henriques

Cartaz 50 anos do 25 de Abril, com desenho de Catarina Castel-Branco e frase de Mendo Castro Henriques, para exposição na Galeria Diferença, a partir de 23 Abril 2024, nos 50 anos do 25 Abril 1974. Imagem cedida pelos autores.

O antigo missionário italiano e depois militante do PAIGC, na Guiné-Bissau, Lino Bicari, morreu na última quinta-feira no Alvito (Alentejo), onde residia desde 1990. Era “um homem bom, simples, de altos ideais humanos e com um currículo rico, corajoso e autêntico”, diz dele o amigo Arsénio Puim, também antigo padre, que o conheceu na Guiné quando foi capelão militar em Bambadinca, no início da década de 1970. Tinha 88 anos.

Nascido em Borgo Val Di Taro, província de Parma (Itália), a 1 de dezembro de 1935, no seio de uma família camponesa, Bicari guardava o conhecimento que ainda teve de uma agricultura manual. Foi “antes da fase das máquinas”, nos Apeninos, a 800 metros de altitude, como dizia há pouco tempo à jornalista Margarida Metello, numa reportagem da RTP.

A Segunda Guerra Mundial, bem como o colonialismo italiano e a ditadura fascista de Mussolini marcaram-no na infância e fizeram nascer nele fortes convicções antifascistas e anticoloniais, recorda um curto texto biográfico do arquivo Lino Bicari, na página do Museu do Aljube na internet.

De 1959 e 1963, foi estudante de Teologia no seminário do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras (PIME), de Milão. Estudou depois Medicina Missionária, Psicopedagogia e Etnologia. Destinado à Guiné, então ainda colónia portuguesa, Bicari veio para Portugal entre 1966-67. Aqui aprendeu português, além de ter estudado ainda Administração Colonial, Estatística e Etnografia do Ultramar Português.

Em Portugal percebeu também o que era o colonialismo do país. No dia 4 de Maio de 1967 chegou a Bissau, onde ficou uma noite, partindo no dia seguinte para Bafatá, a missão à qual estava destinado. Ali, assumiria o cargo de director do internato da Missão Católica e de responsável pela formação dos professores das escolas das missões de Catió, Bubaque, Biombo, Comura, Suzana, Farim, Bambadinca e Bafatá, recorda o texto do Museu do Aljube. “Alguns dos seus alunos, terminada a formação, integrarão de imediato a luta armada pela independência”, acrescenta a mesma fonte.

Há um ano, em declarações ao 7MARGENS, Bicari confirmava isso mesmo: alguns alunos passavam quase directamente para a guerrilha, de tal modo que a escola recebeu ordens de fecho. Por causa disso, o missionário transformou-a no primeiro seminário católico da Guiné, recordava na ocasião.

 

Nas zonas “libertadas”, sem armas

Lino Bicari (esqª), amigo pessoal de Arsénio PUim (dirª), antigo missionário na Guiné e depois dirigente do PAIGC, hoje a residir no Alvito

Lino Bicari (esqª), aqui com o amigo Arsénio Puim, foi missionário na Guiné e depois dirigente do PAIGC. Veio residir para o Alvito, onde morreu. Foto: Direitos reservados.

As suas convicções cristãs, anticolonialistas e antifascistas solidificavam-se nas conversas que tinha com Arsénio Puim, então capelão militar e que acabaria preso pela PIDE e expulso do Exército pelas suas posições de denúncia da guerra. Em causa, esteve nomeadamente uma homilia realizada em 1971 e que marcaria Bicari de forma perene – e que é recordada na história contada pelo 7MARGENS no ano passado. “Havia outros capelães com quem falava, mas era com Puim que estava mais abertamente”, recordava Lino Bicari em 2023. Os dois mantiveram-se em contacto e viriam a reencontrar-se entretanto nos Açores, onde Puim vive, e no Alvito.

“Fiquei muito amigo do Lino”, recordava Arsénio Puim há um ano. “Quando estava farto da guerra, ia ter a casa desses missionários e ficava lá dois ou três dias a refrescar as ideias.” Com o missionário italiano, Puim tinha longas conversas acerca da guerra, da Igreja e do mundo e também foi através dele que tomou conhecimento de documentos importantes, como uma carta que 700 católicos em França tinham dirigido ao Governo português pela tensão que este criara com o Vaticano, por causa da audiência do Papa Paulo VI aos dirigentes dos movimentos de libertação das então colónias – Amílcar Cabral (Guiné-Bissau), Agostinho Neto (Angola) e Marcelino dos Santos (Moçambique).

Bicari saiu da Guiné para uma reunião em Roma poucos dias antes de Puim ter sido expulso da sua missão de capelão militar, em 17 de Maio de 1971. Esteve dois anos em Itália e aí conheceu um dirigente do PAIGC, José Turpin, e chegou a contactar Amílcar Cabral, líder do partido, que seria assassinado pouco tempo depois. Voltaria à Guiné, ainda padre, em 1973. Mas nessa altura pôs como condição que só regressaria às zonas “libertadas” pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde). Até porque “claro” que era a favor da independência da Guiné-Bissau desde há muito, dizia ele à RTP.

Assumiu responsabilidades de novo nas áreas da saúde e da educação, primeiro nas regiões controladas pelo partido, ainda em 1973. Mas colocou como condição andar “sem armas”. Em 1984, abandonou o ministério de padre, mas continuaria o trabalho de médico e professor na Guiné-Bissau independente até 1987, quando deixou a militância política. Nesse período, desempenhou no entanto várias missões políticas e cargos nos mesmos âmbitos da Educação e Saúde, recorda a nota biográfica do Arquivo Bicari. Foi mesmo um dos raros estrangeiros a quem as autoridades guineenses reconheceram o estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria.

Desde 1990, Bicari trabalhou com organizações não-governamentais para o desenvolvimento entre Portugal, Angola e Moçambique, tendo-se estabelecido definitivamente no Alvito desde 2005. “Desenvolveu uma acção profunda, respeitadora da cultura e identidade africanas do povo da Guiné, quer no período do domínio colonial de Portugal quer, depois, na Guiné independente”, resume Arsénio Puim ao 7MARGENS, sobre o amigo agora desaparecido.

 

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Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

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