O que é isso dos missionários digitais? Durante o dia de sábado, Alfândega da Fé acolheu cerca de 300 pessoas para debater o tema: Dois convidados especiais animaram a conversa. Um padre mexicano, millenial, disse que “a Igreja não está nas redes para parecer moderna, mas para se fazer próxima”. À noite, o DJ padre Guilherme animou a festa.
Chegar a todos, ter uma linguagem nova e acessível, não ficar apenas pela técnica, escutar e entender as perguntas existenciais das pessoas, não calar o que se vê e ouve. O padre argentino Lucio Ruiz, quer trabalhou onze anos no Dicastério da Comunicação do Vatiocano e coordenou, há um ano, o Jubileu dos Missionários Digitais Católicos, caracterizou deste modo as atitudes fundamentais que deve ter quem assume a tarefa de ser “missionário digital” nas redes sociais.
“É preciso ir a todos os confins — não só geográficos, como também os lugares das perguntas, das necessidades das pessoas, da cultura, os lugares existenciais e antropológicos”, disse Lucio Ruiz, que desde o início deste mês de Setembro desempenha as funções de secretário do Dicastério para o Serviço da Caridade, na Santa Sé.
O responsável do Vaticano foi um dos principais intervenientes no 1.º Encontro de Missionários Digitais que, no sábado, 26, reuniu em Alfândega da Fé (Bragança), mais de 300 participantes — o segundo encontro ficou marcado para Évora, daqui a dois anos.
“Todos temos perguntas existenciais: de onde vimos? Para onde vamos? Porquê a morte? Porquê a guerra? Porque morrem as crianças?”, referiu o responsável do Vaticano. Por isso, retomou as palavras do Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, para dizer que a Igreja tem de chegar a “todos, todos, todos” os que fazem essas perguntas e precisam de quem os escute nas suas feridas e angústias.
“Quem e como se define a missão”, incluindo no campo digital?” – perguntou ainda. “A dor, a necessidade, a pergunta.” Para os “missionários digitais”, trata-se de “acompanhar processos, reconhecer os sinais de vida, integrar as pessoas na vida eclesial, procurar a carne sofredora de Cristo, iluminar com os critérios do Evangelho e levar as pessoas a sentirem-se amadas”.
Outro convidado estrangeiro do encontro veio do México. Trata-se do padre José Juan Montalvo, conhecido nas redes sociais como “Padre Borre”, onde se apresenta a si mesmo como um padre “jovem, millenial, sonhador, que se sente incrivelmente feliz por esta grande aventura de seguir Jesus”. Formado inicialmente em engenharia, dedicou-se ao trabalho com as gerações mais novas e com as redes sociais, sendo o responsável do Conselho Episcopal Latino-Americano para esta área.

Padre Borre apresenta-se como um padre “jovem, millenial, sonhador, que se sente incrivelmente feliz por esta grande aventura de seguir Jesus”. Foto © António Marujo/7Margens
“Intervir não é só publicar coisas nas redes, é tocar as pessoas. O importante é a mensagem e não quantos gostos teve o vídeo”, afirmou. Admitindo que pode haver coisas que “escandalizem” nas redes – nomeadamente no Tik Tok, usado pelos mais novos –, acrescentou que é preciso saber do que falam as pessoas e o que expressam essas mensagens. E propôs um neologismo, criado pelo Papa Francisco: “samaritanear”, aludindo à parábola do bom samaritano, contada por Jesus nos evangelhos, em que aquele socorre um homem vítima de agressão. “A Igreja não está nas redes para parecer moderna, mas para se fazer próxima”, explicou.
Realizar um encontro destes no interior do país, e no Nordeste transmontano foi “um verdadeiro milagre”, afirmou o padre Manuel Ribeiro, pároco de Alfândega da Fé e principal responsável pela iniciativa, que considerou que deveria orientar-se para a óptica do bem comum. A capacidade do interior do país ser capaz de organizar iniciativas deste género foi também sublinhada pelo presidente da Câmara de Alfândega da Fé, Eduardo Tavares. “O espaço digital é o novo espaço público, a tecnologia e o avanço digital só pode, aproximar-nos e o amor deve ser a grande rede dos seres humanos”, afirmou.
O bispo de Bragança, Nuno Almeida, recordou a publicação recente da encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão, para perguntar “como é possível permanecermos humanos e cristãos na era da Inteligência artificial e da revolução digital”? Diante das guerras da Ucrânia, de Gaza ou dos outros mais de 50 conflitos no mundo, “algum de nós chora, reza ou age”, acrescentou. E numa mensagem que enviou por vídeo a convite dos organizadores, o antigo dirigente do CDS-PP, Paulo Portas, deixou uma visão crítica do universo das redes sociais, afirmando que “a verdade é complexa, implica leitura”. Pelo contrário, nas redes “parece não haver memória nem longo prazo” e imperam muitas vezes discursos que são uma vergonha”, reflectindo lógicas tribais, quando “os católicos não são uma tribo”.
A tarde do encontro compôs-se ainda com dois debates entre diferentes intervenientes. Um deles foi Joel Carvalho, que trabalha profissionalmente em auditoria financeira, e ensina filosofia clássica e católica pelos meios digitais. “A intenção é ensinar as pessoas a criar uma vida de estudos.” Desde logo, filósofos como Platão e Aristóteles e, “sobretudo, temas de catequese e de ética católica”.
Neste campo, Joel pretende esclarecer dúvidas das pessoas em relação a temas como os sacramentos: “Porque é que as pessoas precisam de uma confissão? Qual é a base bíblica disso?” Não tendo formação específica na área, Joel Carvalho complementa o que já aprendeu com formações que encontra no meio digital ou através de leituras. Considera que há uma “forte unidade entre muitos produtores católicos” e procura ser rigoroso no que diz sobre a doutrina, diz. Mas, admite, se algum padre lhe disser que há erros no que diz, dá-lhe a liberdade de o corrigirem: “O padre pode estar ligeiramente mais perfeito do que eu”, diz.
O debate era sobre redes digitais mas, à noite, a estrela foi o padre Guilherme Peixoto – tinha sido ele a propôr inicialmente ao colega Manuel Ribeiro a realização do encontro dos missionários digitais. Com a música e a sua arte de DJ, o padre Guilherme pôs cerca de quatro mil pessoas a dançar – e, por vezes, também a cantar.
Maria Beatriz, que se apresenta com 10 anos (a altura pode enganar, admite), veio de Macedo de Cavaleiros para ouvir o padre DJ. “Desde pequenina que gosto de o ouvir”, conta, porque o pai punha a música dele – “muito boa” – a tocar em casa.
Predominam os adolescentes, pulando à frente do palco, levantando os braços ou as lanternas dos telemóveis; um pouco para trás, homens e mulheres na casa dos 30 ou 40, mas também os há mais velhos – 60, mesmo mais – que não se inibem de dançar ao som da música transformada em som electrónico.

“É preciso ir a todos os confins — não só geográficos, como também os lugares das perguntas, das necessidades das pessoas, da cultura, os lugares existenciais e antropológicos”, defende Lucio Ruiz, secretário do Dicastério para o Serviço da Caridade, na Santa Sé. Foto © António Marujo/7Margens.
Desde o poema de Santa Teresa d’Ávila “Nada te perturbe, nada te espante, tudo passa, só Deus basta, quem a Deus tem nada lhe falta”, até ao temas Numa casa portuguesa fica bem… ou Passear contigo, amar e ser feliz…, as músicas são transformadas em batidas electrónicas, com o baixo a subir corpos dentro, copos de cerveja na mão, efeitos de luz, fumos e roupas ou conversas como em qualquer concerto.
O padre Guilherme introduz uma versão de Knockin’ on Heaven’s Door, de Bob Dylan e o efeito volta a ser o mesmo. Imagens de vitrais, curtas mensagens vão passando também pelo cenário do palco. Às tantas, também o Papa Leão XIV, no discurso que fez durante o encontro do jubileu dos missionários digitais, no apelo a que os jovens construam verdadeiras amizades interpessoais e que não fiquem apenas presos aos ecrãs e ao virtual.
Afonso, 14 anos, é de Alfândega e ganhou o bilhete num concurso local. Mas pagaria os dez euros, se fosse preciso, porque gosta desta música. E enquanto o pequeno grupo onde Beatriz e Afonso se integram conversa com o 7MARGENS, começa a ouvir-se a chamada (erradamente) Oração de São Francisco, na versão da brasileira Eliana Ribeiro.
Passa já bem da meia noite quando o padre Guilherme passa a mensagem do Papa Francisco na JMJ de Lisboa, há três anos, como forma de encerrar o concerto: é preciso acolher na Igreja todos, todos, todos.
Afonso diz ter vindo “pela animação que [o padre Guilherme] traz ao público, e porque consegue espalhar a fé”. Mesmo para alguém que, como ele próprio, é “católico, um bocadinho”.
No espetáculo do padre Guilherme, predominam os adolescentes, pulando à frente do palco, levantando os braços ou as lanternas dos telemóveis. Foto © Encontro Missionários Digitais.[/caption]






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