Missionários “passadores” de cabo-verdianos e carros a atropelar gafanhotos

| 14 Mar 20

Durante um mês, estive com vários “monumentos” missionários vivos em Cabo Verde que, desde 1954, quando chegou o primeiro, por lá continuam de pedra e cal. São todos Missionários Espiritanos, congregação que para ali foi em 1941, ajudando a reconstruir a Igreja nas ilhas de Santiago, Maio e Boavista: o padre Custódio Campos chegou em 1954, Gil Losa em 1964, Alberto Meireles em 1968 – todos só conheceram Cabo Verde como lugar de missão. Em 1980, chegou José Pires, após longos anos de trabalho nos seminários de Portugal. Por fim, em 1998, foi a vez de Carlos Gouveia, depois de experiências terríveis vividas na guerra de Angola.

As conversas com eles e com muitas outras pessoas ajudaram a compreender a vida, a cultura e alguns acontecimentos importantes que marcam a história e o presente de Cabo Verde: os anos e efeitos das secas prolongadas, a prisão do Tarrafal, os movimentos migratórios, as pragas de gafanhotos, a política pós-independência…

Cidade Velha, Cabo Verde: “Hoje, o país desenvolveu-se…” Foto © Tony Neves

 

Cabo Verde desenvolve-se, mas ainda sofre com as secas. Boa parte do país não sabe o que é chuva a sério há três anos. Em Santiago, a ilha da capital, apenas sobram poucos oásis nas ribeiras que conservam alguma água. Visitei dois, entre Pedra Badejo e S. Lourenço dos Órgãos. É luxuriante a paisagem povoada de coqueiros, bananeiras, papaieiras, cana de açúcar, mandioqueiras e hortícolas. “Esta é uma exceção à regra”, partilha o padre Gil Losa, minhoto das Marinhas, Esposende, onde nasceu em 1937 e que leva já 57 anos de Cabo Verde.

A viver longe da Praia, em Pedra Badejo, conhece bem o que sofre o povo há muitos anos. Recorda o drama da fome vivida nos finais dos anos 1960, quando uma seca severa obrigou os homens a fazer malas e partir. Nesse tempo, Cabo Verde era Portugal, mas o Governo de Lisboa fazia muito pouco por este povo.

O padre Custódio Campos – hoje uma figura mítica de Cabo Verde – conta como os missionários ajudaram muitos homens a sair das ilhas: “Eram todos portugueses e, sair, tornara-se uma questão de vida ou de morte. Nós ajudávamos a pagar as viagens e os Espiritanos em Lisboa acolhiam estes homens. Havia muitas empresas – sobretudo de construção civil – que davam trabalho. Assim, ajudamos a salvar muitas famílias”, diz, emocionado.

 

Cabras a comer livros da escola e avisos da igreja

Crianças e jovens: hoje, já não haverá cabras a comer os livros de estudo, mas os períodos de seca ainda são longos em Cabo Verde. Foto © Tony Neves

 

Vai mais longe o padre Gil Losa: “Identificávamos homens corajosos, emprestávamos dinheiro para a viagem e escrevíamos uma carta ao padre Martins Vaz. Este recebia-os em Lisboa, ajudava-os a encontrar quem os acolhesse, arranjava trabalho…” O padre Alberto Meireles, natural de Lever (Gaia), acrescenta algo ainda mais interessante: “Logo que os homens recebiam os primeiros salários, iam entregar o dinheiro ao padre Vaz que o fazia chegar por nós, padres, às famílias. E assim livrámos milhares de pessoas da fome.”

Gil Losa confessa ainda: “Emprestei dinheiro a tanta gente e só duas pessoas não mo devolveram. Os cabo-verdianos são muito sérios.” Há 65 anos em Cabo Verde, o padre Campos é querido e amado por este povo pois – como lembra o seu colega José Pires – “identifica-se totalmente com Cabo Verde, fala o crioulo como ninguém, conhece a sua cultura, conhece e é conhecido por todos em Santiago”. Ora, como o próprio confessa, ele gastou boa parte do seu tempo nos gabinetes do Governo e câmaras a tentar arranjar documentos para as pessoas do povo. E, com documentos na mão, muitos puderam dar o salto para longe da fome e miséria a que estavam condenados ou arranjar emprego no Estado.

A seca traz factos que, para europeus, se tornam até caricatos. Lembra o padre Gil: “As ovelhas e cabras comiam até os livros e cadernos das crianças da escola. Uma vez até comeram os papéis afixados na igreja com os avisos da semana!” E hoje continuam a comer papel, sobretudo cartão.

Em setembro passado, quando caíram apenas algumas gotas de chuva na Cidade Velha e Milho Branco, houve uma praga de gafanhotos tão grande que os insectos comeram tudo: “Era impressionante, formaram nuvem e, na estrada, os carros faziam grande barulho a pisá-los. O cheiro era insuportável”, lembra o padre Gouveia, numa das suas idas da Calheta à Praia, para o habitual encontro que junta todos os Espiritanos na Casa Principal. Carlos Gouveia denuncia ainda o número enorme de cães vadios que, em bandos, atacam ovelhas, cabras e até vacas e burros, matando-os e comendo-os. E o pior é que, ao abrigo das novas leis idas da Europa, não se podem abater cães vadios, mesmo quando é claro que se tornam um perigo público. E não há canis para os pôr sob vigilância.

Hoje, o país desenvolveu-se: cresceu muito, as estradas estão boas, os carros são mais recentes, há muita construção: “Vês este morro aqui em frente, ao lado do porto da Praia? Era só um morro, sem nada. Hoje está cheio de casas. É assim por todo o lado!”, diz o padre Pires, recordando o tempo da sua chegada há 40 anos.

 

“A falta de liberdade é sempre a falta de liberdade”

O Museu da Resistência, no local onde funcionou o campo de reclusão do Tarrafal, uma ferida na história da ilha de Santiago. Foto © Tony Neves

 

O Campo de Reclusão do Tarrafal marca a história da ilha de Santiago. O padre Campos chegou ao Tarrafal em 1954 e sabia que os prisioneiros políticos portugueses que ali estavam detidos eram maltratados. “Felizmente – recorda com alegria – foi fechado em 1956.” Foi um alívio para ele saber que se virava uma das páginas mais dramáticas da história da violação dos direitos humanos em terras de Cabo Verde. Visitei, mais uma vez, esse espaço.

Para além da detenção por razões de falta de liberdade de pensamento e de expressão, o mais terrível era sofrer o calor tórrido da chamada “frigideira”, um pequeno espaço fechado que atingia temperaturas altíssimas. Mas o campo seria reaberto em 1962, para ali colocar os anticolonialistas vindos sobretudo da Guiné, Angola e Moçambique. “Reconheço que o trato era mais delicado que na primeira fase”, diz o padre Gil. Mas “a falta de liberdade é sempre falta de liberdade”, acrescenta o padre Meireles. Felizmente, fechou com o 25 de abril de 1974.

Gil Losa partilhou um dos momentos mais duros da sua vida de pároco: “Havia muitos homens que vinham de longe, a pé, para partir pedras e fazer paralelos. Era um trabalho duríssimo e muito mal pago. Obrigavam-nos a regressar cada dia a suas casas. Eu mandei uma carta a denunciar isto ao presidente da Câmara. Nos dias seguintes, tive a visita da Pide para me apertar…”

Os tempos da independência foram confusos e a Igreja foi bastante flagelada. “Eu nunca fui maltratado por ninguém, porque toda a gente me conhecia e respeitava”, diz o padre Campos. Mas houve tentativas de entrar nos espaços da Igreja para os confiscar e maltratar padres e irmãs. São sempre assim os períodos de instabilidade que provocam ondas de insegurança.

Foi nesse período de transição que chegou a Cabo Verde, também ele ido de Angola, D. Paulino Évora, bispo Espiritano, o primeiro natural de Cabo Verde. Manteve sempre uma relação difícil e musculada com o Governo de partido único do PAICV. “Lutou pela independência da Igreja, pela liberdade e pela democracia”, garante o padre Meireles. “D. Paulino só descansou quando viu o partido único a abrir-se à democracia, mas manteve-se sempre muito distanciado do poder político, por opção pastoral”, recorda o padre José Pires, seu amigo e confidente de longa data.

Hoje, a Igreja e o poder político vivem relações distendidas, com respeito mútuo e muita colaboração de parte a parte, como referia o padre Carlos Gouveia, há 20 anos no país, depois de uma experiência muito dura em Angola, onde passou vários meses na cadeia, após a independência.

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