História, teologia e iconografia

Mitos, releituras e sonhos em três livros sobre o presépio

| 6 Jan 2024

Benozzo Gozzoli (1420-1497), História de São Francisco – Instituição do Presépio em Greccio. Museu de São Francisco em Montefalco.

 

Desfazer mitos, propor releituras e sonhar com um mundo transfigurado pelo seu simbolismo: apetece ainda ir ao presépio, guiados por três livros (e uma exposição, que é possível ver em Lisboa até esta segunda, dia 8 – foi prolongada por mais dois dias) que dele falam, mesmo se estamos no final do tempo natalício.

Comecemos pelos sonhos: Francisco de Assis “não formulava nenhum juízo sobre o islão” e foi ao encontro do sultão Malek-al-Kamel em Damieta “desarmado” e com uma “mensagem de paz”. A sugestão é de Chiara Frugoni, historiadora italiana e talvez a mais importante especialista no presépio de Greccio, proposto pelo Poverello na pequena aldeia da Umbria há 800 anos, na noite de Natal de 1223.

Frugoni publicou no final de 2023 Il Presepe di San Francesco – Storia del Natale di Greccio (ed. Il Mulino, Itália), livro que, além das extraordinárias riqueza e beleza iconográficas, faz um percurso pelo “primeiro” presépio (já veremos que, afinal, não foi) e pelas suas intenções: desde logo, uma tradução da clara mensagem de paz que Francisco transportava, e que se estendia a judeus e muçulmanos, num tempo em que a Igreja se mobilizava em torno das Cruzadas. “A paz é o ponto central do projecto de Francisco, incansavelmente buscada por toda a vida, paz que coincide com a essência do Natal”, escreve Frugoni.

Essa busca não se concretizou apenas no encontro de Francisco com o sultão, em 1219 [ver 7MARGENS], mas estava também no horizonte da Regra que o Poverello pretendia outorgar aos frades e que previa que estes se sujeitassem “a cada criatura humana por amor de Deus” – uma formulação que o papado não lhe permitiu. Mas na leitura de Frugoni sobre o presépio de Greccio e as suas intenções, a autora sublinha também que Francisco pedia aos seus frades que iam evangelizar entre os “infiéis” que “não provocassem brigas nem litígios” e dissessem “simplesmente que [eram] cristãos”.

 

Desconstruir o presépio, ser pai do presépio

Presépio, livro, Chiara FrugoniOutro aspecto importante do presépio de Francisco em Greccio, destacado por Chiara Frugoni, é a presença apenas do boi, do jumento e da manjedoura. De facto, a tradição contava que o primeiro presépio foi um teatro, encenado por Francisco de Assis, em Greccio (Umbria, Centro de Itália), na noite de Natal de 1223.

Não foi bem assim, afinal, e aqui entramos também no desfazer dos mitos. No presépio de Francisco, uma recriação e uma desconstrução mais do que uma representação do nascimento de Jesus, estavam apenas os dois animais vivos, junto de uma manjedoura com feno. Não havia nem Maria, nem José nem Menino.

“Ao desconstruir o presépio, [São Francisco] tornou-se o pai do presépio: a partir daí, ao tirar de cena o que não fazia parte da essência do presépio, deixou espaço para entrarmos todos, entrar a vida, entrar o quotidiano, as nossas profissões”, dizia o franciscano Isidro Lamelas na entrevista ao 7MARGENS/Antena 1, sintetizando uma das ideias do livro De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis, do qual é co-autor, com Ana Lúcia Esteves.

Na Vida Primeira (in Fontes FranciscanasI, ed. Franciscana), uma biografia do Poverello, o seu biógrafo Tomás de Celano escreve que Francisco “ficou radiante” com a cena montada. “Lá estava a manjedoura com o feno e, junto dela, o boi e o jumento. Ali receberia honras a simplicidade, ali seria a vitória da pobreza, ali se aprenderia a lição melhor da humildade.” Tomás de Celano explicava que Francisco “tinha tão vivas na memória a humildade da Encarnação e a caridade da Paixão que lhe era difícil pensar noutra coisa”. E o presépio “tornava mais visível a humildade do Filho de Deus e de sua Mãe, ‘a Virgem pobrezinha, que fez irmão nosso o Senhor de toda a majestade’”, como dizia o próprio Francisco de Assis.

Essa é uma das releituras sobre o acontecimento de Greccio há 800 anos. A recriação do presépio estava em ordem à eucaristia: o boi representa os judeus, o jumento os pagãos, a manjedoura é a mesa da eucaristia, para a qual todos são convocados.

Vários destes argumentos – incluindo a pretensão de Francisco em “realizar um presépio eucarístico” – são tomados também por Isidro Lamelas e Ana Lúcia Esteves no livro De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis (ed. Paulinas). Os dois autores portugueses seguem um percurso diferente do de Frugoni, embora cruzando-se com ele em alguns pontos: tomando as fontes originais – quer textos do próprio Francisco, quer de vários dos seus biógrafos –, aprofundam a intencionalidade do Poverello sobre o presépio: além da dimensão eucarística, da mesa para todos, assinalam também a característica festiva e da antecipação da utopia bíblica do livro de Isaías, segundo a qual “o lobo morará com o cordeiro e o leopardo deitar-se-á com o cabrito…”

 

“Uma alma e beleza novas”

Livro Presépio Greccio, Isidro Lamelas, Ana Lúcia EstevesEsse acesso aos textos e às fontes originais, acompanhado de uma leitura teológica e espiritual, inclui o desfazer do mito de que Greccio foi o “primeiro presépio”. De facto, havia já várias representações não só escultóricas e pictóricas do presépio, mas também encenações teatrais “ao vivo” nas igrejas. “O Santo de Assis pode não ser o autor, em sentido absoluto, do presépio tal como hoje o concebemos, mas conferiu uma alma e beleza novas a esse ritual religioso, hoje universalizado”, escrevem. Greccio era um dos lugares predilectos de Francisco, pela sua pobreza, que o Poverello equipara a Belém, depois da sua viagem à Terra Santa.

Falando sobre o presépio, a dimensão estética adquire importância nestes dois livros. No caso de Chiara Frugoni, profusamente ilustrado (e com uma excelente reprodução das imagens, numa edição que poderíamos considerar de luxo) as diversas obras de arte vão acompanhando o texto, a propósito dos temas referidos. Nesse extraordinário percurso visual, que faz do livro quase um belíssimo álbum ilustrado, destacam-se obras como as três iluminuras do Manuscrito Addington (Londres), em que um Francisco com rosto de criança aparece a abraçar um leproso, no meio de outros leprosos e a rezar diante do crucifixo de São Damião; ou a Tábua Bardi, da autoria de Coppo di Marcovaldo, que se pode ver na Igreja de Santa Cruz, em Florença, para citar apenas dois entre as dezenas de exemplos possíveis. Um percurso que, no entanto, leva Frugoni a perguntar e concluir: “O que resta da noite de Natal querida por Francisco, vibrante de cantos e das suas palavras intensas? Um silêncio bem pintado”…

No livro dos dois autores portugueses, o estudo das fontes iconográficas merece um capítulo próprio, dedicado a nove obras representativas (e também reproduzidas), que de alguma forma constituem “um complemento documental importante para acompanharmos” o modo como Greccio foi sendo recebido “na piedade e cultura do tempo”. E a afirmação da historiadora italiana como que é confirmada na análise de vários desses quadros, que oscilam entre a “pobreza, a humildade e a nudez de Francisco” na Tábua Bardi, a clericalização da Ordem” franciscana na Tábua de Siena ou a “verdadeira cenografia” da Basílica superior de Assis, em que “o carisma e vigor da noite de Greccio parecem já distantes” – tal como acontece com o fresco que, mesmo em Greccio, recorda o presépio de há 800 anos.

 

“Um evangelho vivo”

Presépio, Papa FranciscoUma referência final, mas não menos importante, ao livro O Meu Presépio, com textos do Papa Francisco (ed. Lucerna). A estrutura é construída como se estivéssemos a construir um presépio, com um desfile dos seus diferentes personagens e uma aproximação ao lugar e à cena da Natividade: o Menino Jesus, Maria, José, Belém, o estábulo, os anjos, os pastores, a luz, os magos, a estrela, Herodes, a Sagrada Família, as “muitas personagens à volta de Jesus” e ainda a árvore de Natal. O livro termina com um capítulo sobre o Natal e um texto de meditação “diante do presépio”.

Alguns dos textos são retirados da carta apostólica Admirable Signum, de 1 de Dezembro de 2019, dedicada precisamente ao tema do presépio (e que é objecto de um comentário no último capítulo do livro de Isidro Lamelas e Ana Lúcia Esteves). Com a linguagem criativa e simbolicamente expressiva que se reconhece ao Papa Francisco, o livro vai-nos guiando desde esse Deus que surpreende “numa criança” que “dorme, mama no perito da mãe, chora e brinca” até às muitas figuras que povoam os presépios, como as de “mendigos e pessoas que não conhecem outra abundância a não ser a do coração”. Passando por Maria, cujo parto traduz o “renascimento da humanidade”, José como “guardião”, os pastores que eram excluídos mas são os primeiros destinatários da mensagem ou os magos que se põem a caminho, “abertos à novidade”.

A leitura do Papa é clara e intencionalmente teológica, espiritual e pastoral. O presépio é “como um evangelho vivo”, que convida “à contemplação” e também a “sentir, a tocar a pobreza que escolheu, para si mesmo, o Filho de Deus na sua encarnação”.

O presépio, escreve Chiara Frugoni a propósito de Greccio, é “uma memória incómoda”. Belém “estava em todo o lado” e por isso “não era preciso matar para a conquistar”. Esse era o “ecuménico projecto de paz” de Francisco de que falam estes três livros.

 

Il Presepe di San Francesco – Storia del Natale di Greccio
Autora: Chiara Frugoni
Ed. Il Mulino, Bolonha (Itália)
272 pág., € 38 (€ 36,10)

De Belém a Greccio – O Presépio de São Francisco de Assis
Autores: Ana Lúcia Esteves e Isidro Pereira Lamelas
Paulinas Editora
248 pág.s, € 13,50 (€ 12,15)

O Meu Presépio
Autor: Papa Francisco
Ed. Lucerna
144 pág.s, € 16 (€ 14,40)

 

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