
As Nações Unidas calculam que mais de 530 mil pessoas estão deslocadas em Cabo Delgado. Segundo a UNICEF, cerca de 250 mil desses refugiados são crianças. Foto © Amnistia Internacional
Centenas de civis foram mortos em Moçambique pelo grupo armado Al-Shabaab, pelas forças de segurança governamentais e por uma empresa militar privada – a Dyck Advisory Group (DAG) – contratada pelo Governo, indica um relatório da Amnistia Internacional sobre o conflito que continua a devastar Cabo Delgado e que já obrigou mais de meio milhão de pessoas a fugir das suas aldeias.
O relatório “O que Vi foi a Morte: Crimes de guerra no “Cabo Esquecido” de Moçambique” foi divulgado ao início do dia de hoje, 2 de março, baseia-se em entrevistas com 79 deslocados de 15 comunidades e concentra-se principalmente no impacto da intensificação da luta armada em Cabo Delgado desde o grande ataque do Al-Shabaab a Mocímboa da Praia, em março de 2020.
Vários casos de assassínio, tortura e violência extrema por parte das três forças intervenientes no conflito são extensamente narrados e certificados. O relatório comprova que os membros do Al-Shabaab (sem ligações ao Al-Shabaab da Somália) mataram deliberadamente civis, incendiaram vilas e aldeias e cometeram atos de violência bárbaros com machetes, nomeadamente inúmeras decapitações e profanação de cadáveres. Por outro lado, fica provado que os militares e os agentes da polícia realizaram execuções extrajudiciais, cometeram atos de tortura e outros maus-tratos e mutilaram corpos.
Finalmente, os operacionais da DAG, a empresa militar privada sul-africana contratada pelo Governo de Maputo depois das forças de segurança regulares terem sofrido sucessivas derrotas no confronto com os membros do Al-Shabaab, são acusados de matarem civis indiscriminadamente. Segundo 53 testemunhas que falaram com a Amnistia Internacional sobre a atuação dos operacionais da DAG, estes dispararam metralhadoras dos helicópteros, lançaram granadas de mão indiscriminadamente contra multidões e dispararam também repetidamente contra infraestruturas civis, incluindo hospitais, escolas e habitações.
A Amnistia Internacional relembra que o projeto de recolha de Dados sobre a Localização e Eventos de Conflitos Armados (ACLED) estima que mais de 1 300 civis foram mortos durante o conflito. As Nações Unidas calculam que mais de 530 mil pessoas, o equivalente a um quarto de toda a população da província de Cabo Delgado, estão deslocadas na província. Segundo a UNICEF, cerca de 250 mil desses deslocados são crianças.










