Como resistiu Moçambique ao Idai, no olhar de fotojornalistas

| 24 Ago 19

Sobreviventes do Idai passando entre água e lama, naquilo que era a Estrada Nacional 6, que liga a Beira a Maputo e que ruiu deixando uma cratera de 250 metros, em Muda (João Semedo, Beira), a 23 de Março, oito dias depois do ciclone ter devastado a região. Foto © Daniel Rocha (Público

 

Resistir ao Idai é o título de uma exposição de fotografias sobre a tragédia que varreu o centro de Moçambique em março deste ano, presente no salão nobre da Casa da Imprensa, em Lisboa, até ao próximo dia 5 de setembro de 2019 (de segunda a sexta, 14h30-19h30).

A exposição mostra fotos escolhidas de nove jornalistas portugueses de diferentes órgãos de comunicação social portugueses enviados a Moçambique, num total de 25 imagens, organizadas para integrar o Prémio Estação Imagem 2019 Coimbra – Festival Internacional de Fotojornalismo que decorreu naquela cidade de 23 de abril a 21 de junho de 2019.

Crianças no infantário orfanato provincial Os Continuadores, na Beira (Moçambique), fotografadas a 3 de Abril: a instituição acolhe 78 crianças cujas primeiras urgências eram bens alimentares, produtos de higiene e muita atenção. Foto © Leonel de Castro/Global Imagens

 

No texto de apresentação da exposição, o jornalista José Augusto Moreira escreve: “A vida é mais forte do que a calamidade, e, mesmo para aqueles a quem nada sobrou, a perspectiva de futuro é sempre (…) a mais encorajadora. O balanço pode até ter que esperar pela próxima geração para ser finalizado, mas para uma população que já antes vivia a rondar o nada, a prioridade é recomeçar, a única opção é olhar em frente. E somar a nada é sempre muito.” Aos sobreviventes, acrescenta, a esperança “dá força e a falta de alternativas, alento. Resistir é o que resta.
 Os números oficiais indicam mais de 700 mortos, acima de 300 mil famílias despojadas de bens e de abrigo, e mais de 1,5 milhões de pessoas afectadas, em consequência direta do Idai. É claro que há também um tempo para o alívio do choro, mas o que é preciso é andar em frente. Caminhar em busca do futuro”.

Os fotógrafos participantes são André Catueira (agência Lusa), António Silva (Lusa), Daniel Rocha (Público), João Porfírio (Observador), Leonel de Castro (Global Imagens), Luís Barra (Visão), Miguel Lopes (Lusa), Tiago Miranda (Expresso) e Tiago Petinga (Lusa). O 7MARGENS falou com Leonel de Castro e Daniel Rocha – que nos cederam algumas das fotos feitas durante a reportagem em Moçambique – sobre a experiência que tiveram ao fazer este trabalho.

Uma mulher com o seu filho, na vila de Buzi, uma das zonas mais atingidas pelo ciclone e na ocasião (26 de Março) ainda isolados pelas cheias. Foto © Daniel Rocha (Público

 

“Mais fácil encontrar uma coca-cola que uma vacina”

Retratando a mesma tragédia, os ângulos de abordagem pretendem mostrar a humanidade e a rotina de muitos moçambicanos após o acontecimento, quase como se nada tivesse acontecido.

“Uma das fotos selecionadas para a exposição foi a de uma menina que baloiça num cenário de natureza morta de um parque infantil perto da ria da Beira, com um olhar distante e meditativo”, diz o fotojornalista da Global Imagens. “Esta foto é simbólica, diferindo em interpretação entre cada pessoa, da liberdade. Quase num gesto natural, continuou a brincar com o que tem, esquecendo o que passou.”

Numa rua da cidade da Beira, dia 29 de Março. Foto © Leonel de Castro/Global Imagens 

Outra das fotos expostas é a de Daniel Rocha, que retrata uma criança em primeiro plano, caminhando pela rua e sorrindo, com uma escultura de uma garrafa de Coca-Cola a ornamentar o centro de uma rotunda. “Essa foto simboliza uma promessa falhada” afirma o fotojornalista do Público. “Em países como Moçambique, é mais fácil encontrar uma Coca-Cola à venda do que uma vacina contra a varíola. É um contraste entre o corporativismo e um contrassenso. A expressão da criança apresenta muita humanidade diante do que o rodeia.”

Para ambos os fotojornalistas, situações como a que se viveu em Moçambique devem forçar as empresas a adotar funções sociais, dando espaço à identidade de cada país em vez de se sobrelotarem com a iconografia ocidental. “Mais do que tudo isto”, coincidem, ambos “queremos que o nosso trabalho seja uma memória do que aqui aconteceu e uma lembrança para as gerações futuras”.

“As empresas deveriam adotar funções sociais, dando espaço à identidade de cada país em vez de se sobrelotarem com a iconografia ocidental”. Foto © Daniel Rocha (Público

 

Três perguntas a Daniel Rocha e Leonel de Castro: As pessoas, antes da tragédia 

7M – Como olharam a experiência que tiveram? Quais foram os sentimentos que vos surgiram naquele cenário?

Daniel Rocha (D.R.): Senti uma grande empatia. Procurei mostrar o que se passava, ser testemunha e não explorar aquela situação com o intuito de desvirtuar o que aconteceu. Quis, acima de tudo, mostrar a dignidade daquelas pessoas depois do desastre.

Leonel de Castro (L.C.): O sentimento, nestas situações, nunca é positivo. Quando um fenómeno da natureza, desta escala, causa mortes, pessoas desalojadas e vilas inteiras destruídas por um ciclone, não é sem dúvida um cenário feliz de se ver.

Centro de acomodação de João Segredo, no distrito de Nhamatanda, com 826 famílias compostas por 4130 pessoas, fotografado a 4 de Abril. Foto © Leonel de Castro/Global Imagens 

 

7M – O que procuraram representar naquele cenário em primeiro lugar?

D.R. – No meu trabalho,tento sempre incluir as pessoas na tragédia em primeiro lugar. Tento não ir com preconceitos na cabeça quando começo um trabalho deste tipo. Ambiciono mostrar que as pessoas, mesmo nas piores situações, continuam a sua vida. Com isso, pretendo ajudar a que a comunidade portuguesa e a internacional sejam mais pró-ativas.

L.C. – Em primeiro lugar, as pessoas. Pretendi mostrar as más condições em que aquelas pessoas viviam, as epidemias rampantes, tentando ao mesmo tempo, através destas imagens, levar a uma consciencialização da comunidade internacional. É difícil descrever o estado em que se encontrava aquela região, alagada e destruída e a chegada de bens alimentares, por vezes tardios ou insuficientes. Em segundo lugar, para mim, a ideia foi relatar o que aconteceu. O fotojornalismo procura aproximar-se o mais possível da realidade, sem embelezar o que está presente na imagem. Mostrar uma visão nua e crua, se me faço entender.

Uma criança e adultos a tomar banho no rio Buzi, na zona onde a EN 6 ruiu, tentando aos poucos retomar alguma normalidade nas suas vidas (imagem captada a 26 de março). Foto © Daniel Rocha (Público

 

7M – Qual é o papel do fotojornalista?

D.R. – Não ter preconceitos. Ter empatia com a situação e com o que aconteceu.

L.C. – Eu considero-me um fotógrafo de causas sociais. É importante que o nosso trabalho vá ao encontro da vida das pessoas, sinalize problemas e os denuncie para que assim ajude a minimizar as dificuldades. 

Tratar das crianças mais pequenas era uma das prioridades no infantário Os Continuadores, que acolhe 78 crianças. Foto © Leonel de Castro/Global Imagens

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