Moçambique, meu amor! – testemunho de Fernando Marques Mendes, um dos “Padres do Macúti”

| 3 Set 19

Beira, Moçambique – lugares da tragédia, palcos da história (II)

A dois dias da visita do Papa Francisco a Moçambique e meio ano depois do ciclone Idai ter atingido a cidade da Beira e a região centro do país, o 7MARGENS recorda episódios e personagens da história recente do catolicismo moçambicano, que tiveram a Beira por cenário. Neste texto, um dos “Padres do Macúti” evoca o ambiente da época em que chegou a Moçambique e recorda as emoções que sentiu com a destruição do Idai, para falar depois do caso que acabou com a expulsão de Moçambique, ditada pelo regime colonial; a segunda parte deste texto será publicada no final do dia de terça, 3 de setembro. 

 

Moçambique, meu amor! Não consigo falar sobre Moçambique sem emoção! Primeiro foi a colonização, depois a guerra colonial sem sentido contra um povo doce e humilde. Após a alegria da independência (1975), seguiu-se uma hedionda guerra civil fomentada e alimentada pelas grandes potências mundiais de então, nos tempos da Guerra Fria.

Se os mandantes das guerras – presidentes, generais e industriais de armamento ou seus filhos – nelas morressem ou, por causa delas, sofressem algo, jamais haveria guerra! Mas eles limitam-se a mandar e a obrigar os filhos do povo a participar na guerra, ativa ou passivamente, até à morte. Foi assim ao longo da História, em todas as civilizações, independentemente da religião dominante. Até quando será assim? Até quando eu, tu e ele quisermos. Porque nós podemos mudar a História! Como Mahatma Gandhi na Índia, como Luther King nos Estados Unidos, como Mandela na África do Sul ou Mikhail Gorbatchov na URSS, etc.

Agora, porém, não foi a violência dos homens que feriu parte do povo moçambicano. Foi a força da Natureza. E o sofrimento causado pelo ciclone Idai sobre mais de um milhão de moçambicanos foi uma oportunidade única para ver a beleza da solidariedade e da fraternidade que todos guardamos dentro de nós, qualquer que seja o nosso país, a cor da nossa pele, a religião que seguimos ou não seguimos. Ergueu-se por todo o mundo uma onda gigante, um enorme tsunami de amor a favor destes irmãos sem casa, despojados dos seus pequenos pertences e enlutados pela perda de familiares, vizinhos e amigos.

Olhando as imagens que me chegavam, doeu-me a alma face ao sofrimento de um povo que, desde a minha juventude, aprendi a amar – tanto que nem sei se sou português ou moçambicano, se sou branco ou preto ou se os valores em que acredito procedem das crenças cristãs ou das crenças bantu! E como me sinto bem assim! Sou de todas as nações que amam a paz, de todas as cores de que são feitos os homens e de todas as crenças que apregoam a fraternidade universal.

Comoveu-me ver novos e velhos, homens e mulheres, jovens e crianças atravessando caminhos e terrenos alagados ou refugiando-se nos telhados que resistiram à fúria das águas e do vento! Comoveu-me a interajuda entre as próprias vítimas! Comoveu-me ver aldeias inteiras destruídas, deixando sem abrigo tantas comunidades! Chorei com o choro de tantos que não sabiam dos pais ou dos irmãos e vizinhos ou dos próprios filhos!

Céus! Não basta serem os mais pobres os primeiros a sofrerem os horrores engendrados pelos donos da guerra? Têm, também eles, de ser os mais atingidos pelas fúrias da Natureza?!

 

A igreja do Macúti

De entre as dezenas de imagens que me chegaram relacionadas com o ciclone que, em março, atingiu a província moçambicana de Sofala e, especialmente, a cidade da Beira, chegaram outras, também, mostrando os estragos da emblemática igreja do Macúti. Mais que estragos, mostram a total destruição daquele templo. Tal como as casas do povo ruíram, também a designada casa de Deus teve a mesma sorte!

A Igreja do Macúti em 1998 e, em baixo, a mesma igreja depois da destruição provocada pelo Idai. Fotos © Fernando Marques Mendes e Direitos reservados

 

Esta foi, também, a minha igreja – a igreja paroquial do Macúti, parte norte da cidade da Beira. Eu chegara à Beira em setembro de 1971, com 24 anos e acabado de ser ordenado presbítero na Sé do Porto pelo bispo António Ferreira Gomes (regressado de dez anos de exílio imposto pelo regime salazarista).

Era pároco do Macúti, desde há oito anos, o padre Joaquim Teles Sampaio, oriundo da Guarda. Por decisão de D. Manuel Vieira Pinto (bispo de Nampula e administrador apostólico da Beira, por ausência de bispo) e de acordo com o pároco do Macúti, fui nomeado coadjutor naquela paróquia, em outubro de 1971.

O padre Teles Sampaio era um verdadeiro líder eclesial e fervoroso incentivador das reformas que o Concílio Vaticano II sustentava. Era um fiel herdeiro do primeiro bispo da Beira, D. Sebastião Soares de Resende, e da sua luta em defesa da dignidade do povo africano, ostracizado pela administração provincial, pela generalidade da população colonial e, até, por muitos sectores da Igreja – sobretudo por aquela que estava dependente dos missionários de origem portuguesa. A exemplo do arcebispo de Lourenço Marques, D. Custódio Alvim Pereira, quando afirmava que antes de ser padre ou bispo era português e, como tal, impunha-se-lhe o dever de defender a soberania portuguesa naquele território (cito o documentário A Guerra, de Joaquim Furtado, RTP).

Eu acabara de chegar da Europa onde, a nível social, se vivia o rescaldo do Maio de 1968, se sentia a rebeldia juvenil contra a guerra colonial, se chorava a ausência de filhos e pais levados pela emigração clandestina ou pelo embarque para o Ultramar. Por isso, a cooperação eclesial com o padre Teles Sampaio era o espaço ideal para continuar e desenvolver as discussões que, nos últimos anos do curso teológico, animavam as nossas conversas, quer no Seminário Maior do Porto, onde frequentara as aulas de Teologia, quer no Seminário da Boa Nova, em Valadares, onde residia.

De facto, de imediato, se gerou uma perfeita empatia entre o pároco e o seu coadjutor. Uma empatia produtiva resultante da rebeldia e entusiasmo juvenis de um (24 anos), moderados pela sensatez e experiência de outro (40 anos).

Para a população europeia da cidade da Beira, o problema da guerra não existia. E os seus olhos não viam a multidão de barracas que se estendiam para além da sua cidade de betão e alcatrão. Sabiam apenas que de lá vinham, de manhã e regressavam, à noite, os seus mainatos que lhes cuidavam dos serviços domésticos ou os serviam nos cafés e restaurantes. Eram os bairros negros onde também viviam os “meninos sem condição” que Zeca Afonso convidava a “tirar os olhos do chão e a vir ver a luz” – os bairros da Munhava, Chipangara, Manga, Macurungo, etc.

Na primeira visita que fiz a um destes bairros das traseiras da cidade de cimento, acompanhado de uma religiosa italiana que falava o dialeto local – a irmã paulista Maria di Carli – o primeiro residente a quem me dirigi logo me perguntou se procurava uma “menina”. De facto, as gentes destes “bairros negros e sem condição” não existiam, nem para a administração civil, nem para os que, nas tardes de domingo, enchiam as igrejas da cidade, igreja do Macúti incluída! Por isso, europeu que ali fosse só podia ter um propósito…

Outros episódios podia relatar bem demonstrativos de como as pessoas, em Moçambique em geral e na Beira, em especial, viviam de costas voltadas, conforme a cor da pele! Como o dia em que fui ao palácio do governador acompanhado de dois rapazes negros para tentar resolver um problema que lhes dizia respeito e o governador deu ordem ao funcionário para que entrasse, apenas, o padre Fernando. Claro que o padre Fernando agradeceu a deferência mas não entrou. Ou, então, quando entrei no Café Tivoli, na Praça do Município, acompanhado de dois estudantes negros. Sentámo-nos os três numa das mesas disponíveis e fez-se um silêncio sepulcral na sala! Pareceu-me que até àquela data jamais um negro entrara ali a não ser para, de calça preta, camisa e casaquinho brancos e lacinho preto, pegar na bandeja e servir.

Vindo de um mundo de injustiça e de tanta miséria que até os pequenos proprietários rurais, meu pai incluído, se viram obrigados a emigrar, a salto, para a França ou Alemanha para que os seus filhos não morressem à fome, dava-me agora conta de um mundo bem pior. Um mundo onde a maioria da população não tinha qualquer direito e, pior, onde isto parecia normalíssimo para toda a gente que vivia do “outro lado”!

(A segunda parte deste texto será publicada às 20h de terça, dia 3 de setembro)

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