Moçambique: População de Cabo Delgado “aterrorizada” e em fuga

| 26 Jun 20

Macomia, Cabo Delgado, Moçambique.

Macomia, Cabo Delgado, Moçambique. A destruição depois do ataque terrorista de final de Maio. Foto: Direitos reservados

 

“As pessoas estão aterrorizadas e fogem das aldeias. Fogem da violência e da destruição que atinge a província nortenha de Cabo Delgado desde há vários meses.” O relato é do padre Arlain, missionário scalabriniano em Nampula (cerca de 300 quilómetros a sul de Cabo Delgado), que descreve assim a cada vez mais preocupante situação naquela província do norte do país. Vem juntar-se aos “gritos de socorro” lançados pelo bispo de Pemba, e aos relatos de outros religiosos em missões na região.

“Ninguém sabe quem são realmente os autores destes ataques. Os jihadistas pertencentes ao Estado Islâmico reivindicaram-nos. Alguns analistas dizem que eles são apenas um peão na luta pelo controlo dos poços petrolíferos nos quais a região é rica. É difícil dizer onde está a verdade”, afirma o missionário, em declarações à agência Fides.

De acordo com o padre Arlain, começou recentemente a circular a hipótese de, por trás dos ataques, estarem milícias vinculadas ao narcotráfico. “Talvez esta hipótese esteja próxima da realidade, porque o norte de Moçambique poderia converter-se numa área estratégica para o tráfico de drogas desde a Ásia central”, considera.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyu­si, reconheceu no início deste ano que existe “uma ameaça terrorista”, e apelou a “apoios concretos” da comunidade internacional. “Fala-se da presença de militares russos e sul-africanos, mas eu pessoalmente não vi soldados estrangeiros no nosso território”, diz o padre Arlain.

O número de refugiados continua a aumentar. “Agora, só em Namialo [a cerca de 100 km de Nampula], são já dois mil, e mais de 300 aqui em Nampula”, conta o missionário, explicando que a maioria fugiu de casa para escapar à violência com o pouco que conseguiu trazer. “Os deslocados internos precisam de tudo. Incluindo assistência médica, porque sofreram traumas psicológicos graves.”

Mais a leste, na diocese de Nacala, o padre Raul Viana, dos Missionários Espiritanos, conta neste momento 1229 refugiados na região onde se encontra a missão onde ele trabalha, conforme informações que fez chegar ao 7MARGENS.

Os bispos de Moçambique, que estiveram reunidos em assembleia plenária entre os dias 9 e 13 deste mês, debateram a situação de Cabo Delgado, tendo assinalado que a violência na região “está a obrigar crianças a andarem no mato e a procurar refúgio fora de casa, sem comida nem nenhum meio de subsistência e com o coração amargurado”. Os bispos enalteceram a solidariedade de muitas famílias que vivem em zonas seguras e que chegam a acolher nas suas casas mais de 20 pessoas obrigadas a fugir do conflito armado.

Entre a população de Nampula, que tem acolhido muitos dos deslocados, está já a instalar-se o medo. “Esta área foi um dos focos da guerra civil que assolou Moçambique nos anos 1980 e princípios dos anos 1990”, recorda o padre Arlain. “A memória dos combates e das privações continua viva. Por isso, existe o receio de que a nova violência também chegue aqui. Ninguém quer ver-se perante um novo conflito.”

 

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