Entrevista

Monja Coen: “Temos de ensinar a não-violência e o diálogo às crianças”

| 3 Nov 2023

Monja Coen. fotografada a 27 de outubro de 2023, no Hotel Vip Executive em Lisboa. Foto Clara Raimundo7MARGENS

Monja Coen, fotografada em 27 de outubro de 2023, no Hotel Vip Executive, em Lisboa. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

Tem mais de três milhões de seguidores no Instagram, os seus vídeos no Youtube atingem milhares de visualizações em poucos minutos, os livros que escreve acabam invariavelmente nos tops de vendas, e esgota salas pelo mundo inteiro com as suas palestras. Podíamos estar a falar de uma coach de alto desempenho ou de uma jovem influencer de moda e lifestyle. Mas não. Falamos de uma missionária budista com 76 anos: Cláudia Baptista de Souza, mais conhecida como Monja Coen, nasceu em São Paulo (Brasil), onde fundou a Comunidade Zen-Budista, depois de o seu trabalho como jornalista a ter levado em busca das respostas que não havia encontrado no cristianismo. Descendente de portugueses, esteve recentemente em Lisboa e no Porto para o lançamento de 108 Contos e Parábolas Orientais, uma seleção de pequenos textos que diz serem capazes de “abrir a mente e tranquilizar a alma”. Nesta entrevista, fala ao 7MARGENS do seu percurso espiritual, da importância do diálogo inter-religioso no caminho para a paz, e de um passo muito importante que temos de dar: do “eu” até ao “nós”.

 

7MARGENS – Cresceu numa família católica, estudou em colégios de freiras e chegou a pensar tornar-se freira também! Acha que esse já era um prenúncio da sua vocação para monja budista?

MONJA COEN – Eu tinha uma grande atração pela clausura e quando as freiras iam para a clausura eu ficava a espiar através da porta para perceber o que era aquilo. E, uma vez, tive um sonho em que estava sentada à mesa, a tomar um chazinho com Jesus e as freiras… Comentei isso com a madre que tomava conta da nossa turma e ela disse: “Isso é um chamado… essa intimidade que estás a ter com Jesus e connosco é um chamado religioso! Gostarias de ser religiosa?” E eu fiquei muito animada! Todas as manhãs, ia à missa e na igreja havia uma imagem muito bonita de Nossa Senhora… Eu ficava a olhar muito tempo para ela e de repente via-a mexer-se. Achava aquilo muito especial e contei à minha irmã [mais velha, que frequentava a mesma escola]. Ela respondeu: “Mexe para qualquer um que olhe para ela fixamente!”. Acabou com a minha espiritualidade ali! [Risos] Mas foi sobretudo o meu pai que me desestimulou muito. Ele dizia: “Para quê ser freira? Que absurdo! Não é bom para ti!”.

 

7M – O seu pai estava desiludido com a Igreja Católica…

Sim, a minha mãe era católica, os meus avós maternos e paternos também, mas o meu pai era ateu. Isso porque o pai dele tinha estado no seminário e estava quase a ser ordenado padre quando largou o seminário para ficar com a minha avó. E a partir daí foi proibido de ir à missa. A família sofreu muito por causa disso, porque o meu avô era muito religioso e foi discriminado pela própria Igreja… Então, o meu pai tinha raiva da Igreja. Só quando eu tinha uns oito ou nove anos é que os meus avós puderam, finalmente, casar-se pela Igreja Católica, depois de um processo longo que envolveu o Vaticano e terminou com a aprovação do Papa. Porque o meu avô não tinha chegado até aos votos finais, mas já tinha feito os primeiros votos quando conheceu a minha avó.

 

7M – Isto em Portugal…

Sim, nos Açores. Os meus avós conheceram-se na última fase da formação do meu avô, em que ele foi trabalhar para uma paróquia onde a minha avó também trabalhava… ela era irmã do pároco! Apaixonaram-se, e o meu avô conversou com o irmão dela, e disse-lhe: “Não sei o que fazer! Estou apaixonado pela tua irmã, mas já fiz os primeiros votos…”. E ele respondeu: “Segue o que achares que é mais importante. Se não queres casar-te com ela, vai embora”. E ele foi! Esteve numa cidade e depois noutra. E nessa terceira cidade, um dia, estava a andar de bicicleta na rua e viu a minha avó a passar… O irmão dela tinha sido transferido para lá e ela tinha ido com ele. Ele pensou então: “O que é isto? É Deus! É um sinal de Deus! Vou casar-me com ela!” [Risos] E assim foi. Tiveram três filhos. E como estava iminente a Grande Guerra 1914-1918, decidiram sair de Portugal. Pensaram ir para os Estados Unidos, mas quando estavam à espera do navio, alguém lhes sugeriu que fossem para o Brasil, porque a língua era a mesma e seria mais fácil. E à última da hora apanharam o navio até à cidade de Santos. Lá, criaram uma escolinha numa fazenda, onde o meu avô ensinava Português, Francês e Latim. O meu pai, que já nasceu no Brasil, sabia desta história e nunca esqueceu… Ele não entendia como é que uma pessoa tão amada podia ser tratada assim pela Igreja.

 

7M – E a monja Coen, porque se afastou da Igreja?

Fui crescendo e, com 11 ou 12 anos, comecei também a questionar muitas coisas. A missa era em latim, e a única coisa que eu entendia era “Ite, Missa est”, no final… [Risos] E, quando ia com a minha mãe à missa, aos domingos, comecei a perceber que muitas das pessoas que iam à igreja só o faziam para ver quem lá estava, para ver com que roupinha tinham ido, quem tinha o véu mais bonito (naquela época, todas as mulheres usavam véus)… Comecei a sentir que aquilo não era cristianismo. Também na minha casa, nós tínhamos empregadas, que vinham trabalhar, fazer comida… E havia uma carne principal que ia para a mesa, e uma carne de segunda para quem trabalhava na casa, e comecei a dizer à minha mãe: “Isto não é Jesus. Ou tratamos todos como iguais ou isto não é cristianismo!”. Eu identificava-me com Jesus, mas comecei a deixar de me identificar com a Igreja e, em particular, com a forma como a minha família tratava as pessoas que trabalhavam lá em casa e que eram minhas amigas, minhas cuidadoras. Quando tinha 13 anos, disse: “Não vou mais à missa! Não acredito no que vocês dizem, porque dizem uma coisa e fazem outra”. E a minha mãe respondeu: “Minha filha, a escolha é tua, mas um dia hás de voltar”.

 

Ia à missa todos os domingos com a mãe e, como era celebrada em latim, “a única coisa que entendia era ‘Ite, Missa est’, no final”, conta a monja Coen, soltando uma gargalhada. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

7M – A sua mãe tinha razão?

Bem, é verdade que voltei a ir à missa, muitos anos mais tarde, mas já eu era monja budista e foi num encontro inter-religioso organizado por um padre católico e grande amigo, que me convidou para dar uma palestra aos noviços. Quando cheguei à casa onde eles estudavam, ele estava a celebrar missa e eu fiquei a assistir. Na altura da comunhão, perguntou-me se eu aceitava receber a hóstia e disse: “Isto é para todos. Quando falamos de comunhão, não é só para alguns, é para todos nós.” E eu achei isso tão doce, senti-me tão acolhida, que começou aí uma relação muito bonita com o cristianismo.

 

7M – O budismo e o cristianismo não são mundos separados e incompatíveis?

Nada disso! Mas quando falamos de encontro inter-religioso, isso não significa convencer o outro da sua tradição, e sim conhecer… para respeitar. Há pontos de convergência e de divergência. Não somos iguais… mas temos coisas muito semelhantes, nomeadamente as regras de ouro: não fazer o mal, fazer o bem a todos os seres, cuidar de todos com equidade… Depois, em particular entre as práticas cristãs que são meditativas, há muita afinidade com o budismo zen, que é meditativo também. No Mosteiro Feminino de Nagoya (no Japão), onde estive oito anos, a dada altura acolhemos um grupo de monjas beneditinas que foram de Bruxelas, na Bélgica, para ficar um mês connosco, e esse encontro foi muito intenso. Foi tão bom que, depois, a minha superiora foi convidada a ir ao mosteiro delas, na Bélgica, e levou para lá as coisas da cerimónia do chá, ensinou-as a meditar como nós meditamos…

 

7M – O que é que o budismo pode colher do cristianismo?

Sobretudo a caridade… aprender a estar ao serviço de todos os seres, em particular dos mais necessitados que encontramos no caminho e a quem devemos dar a mão para que se levantem.

 

7M – E os cristãos, o que podem aprender com os budistas?

Que, se há coisas que não são adequadas na nossa religião, cabe-nos a nós modificá-las. A Igreja Católica tem agora a questão dos abusos de crianças. No caso do budismo, quando eu estava no Japão, não tivemos uma crise por abusos de crianças, mas por abusos de grupos sociais, que eram considerados não humanos, era mesmo esse o nome que lhes davam… uma coisa gravíssima. Eram discriminados só por serem descendentes de coreanos ou de chineses, ou por terem profissões consideradas menos nobres. E a minha geração foi aquela que lutou contra isso e conseguiu fazer a viragem. No budismo, dizemos: “Não faça, não permita que ninguém faça, não desculpe quem faça.”

 

7M – Essa podia ser a receita a dar à Igreja Católica na questão dos abusos…

Sim, serve para a Igreja Católica, para o conflito Israel-Palestina, para tudo na vida! Só assim não se entra no mundo da violência, da discriminação, do ódio, do rancor, da vingança.

 

7M – Estamos a assistir ao que o Papa Francisco chama de “terceira guerra mundial aos pedaços”… Acha que os líderes religiosos deveriam assumir um papel mais interventivo?

Eu acho que o diálogo inter-religioso é importantíssimo. Não é o único elemento, mas o encontro inter-religioso e o respeito entre as religiões pode fazer com que se parem as guerras. Veja, por exemplo, o caso da Rússia, em que o patriarca ortodoxo apoia a guerra… Na Europa, temos o Papa Francisco a dizer “Parem com isso! Existem maneiras de dialogar e de encontrar a paz.” Então, na Rússia, o líder religioso, que deveria ser um cristão a favor da paz, incentiva o seu líder político a manter a guerra. Isso está errado, e sabemos que a História das religiões tem coisas erradas: teve a inquisição, as guerras santas..

 

7M – Mas nenhuma guerra é “santa”.

Pois não, não existe guerra santa, nenhuma guerra é santa, cada guerra que existe é malévola… destrói, mata. Fere não só fisicamente, mas emocionalmente. Internamente, as pessoas ficam deformadas. E as pessoas que cometem crimes como os do Hamas… isso é de pessoas deformadas espiritualmente. Que tipo de educação, de formação, de treinamento sofreram esses seres humanos que, um dia, foram bebezinhos lindos? Neste conflito, os dois lados estão errados… Nenhuma violência é justificada, nenhuma delas. Buda significa “aquele que despertou”, e eu digo que as pessoas que despertam, que têm expansão da consciência, que percebem que estamos todos interligados e que precisamos uns dos outros, são pessoas que vão cuidar melhor, porque não têm um ego que só diz “eu, eu poderoso, eu rico, eu que mando em tudo”. Se os líderes gostam e se preocupam com as suas populações, como é que permitem que estes horrores ocorram? Não podemos permitir que a violência cresça. E, ao educarmos as crianças, temos de ensinar-lhes a não-violência e a dialogar. O princípio do diálogo inter-religioso é, precisamente, ouvir para entender. Não para convencer o outro de outra coisa, mas para entender, e aceitar que existe essa maneira, que não é exatamente igual à minha, mas é boa.

Monja Coen. fotografada a 27 de outubro de 2023, no Hotel Vip Executive em Lisboa. Foto Clara Raimundo/7MARGENS

“O encontro inter-religioso e o respeito entre as religiões pode fazer com que se parem as guerras”. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

7M – Mas a verdade é que estamos a assistir a um aumento do extremismo religioso em todo o mundo, e também no Brasil.

Temos uma coisa muito grave a acontecer, que é: na hora em que alguém segue Jesus, e vai cuidar daqueles que precisam, existe um grupinho que não quer que se cuide dessas pessoas, porque lhes interessa tê-las sob o seu controlo e o seu domínio. Há uma classe dominante que não quer perder o poder, e se vem alguém que pode balançar os alicerces, que não são profundos, que não são verdadeiros, que nem alicerces são, se alguém vem e mexe nessa estrutura que para eles é confortável, incomoda. Então, eles vão unir-se. Essa extrema-direita que está a aparecer no mundo todo é uma resposta ao liberalismo, da parte de grupos que ficaram com medo: medo de perder o poder, de perder as suas posições sociais. De novo, é ganância, raiva e ignorância. Nós, por sorte, no Brasil, conseguimos mudar um governo que era de extrema-direita, que nem acreditava na ciência e não deixava a população ser vacinada. Uma coisa absurda. E depois foi-se descobrir que ele [Jair Bolsonaro] e toda a família tinham sido vacinados… Então, apesar de ter a bancada evangélica com ele, Bolsonaro não conseguiu ser reeleito, por causa dos horrores que fez durante a pandemia. Todos os erros cometidos refletiram-se nas urnas e ele não teve a maioria, apesar de estar certo de que a iria ter. Mas, mesmo assim, teve muitos votos…

 

7M – E também há extremismo no budismo?

Também há, como em tudo! Há direita, esquerda e centro. Até porque Shakyamuni Buda não deixou nada escrito. Depois de ele ter morrido, os seus discípulos começaram a fazer concílios para recordar o que tinha dito e colocar isso por escrito. Todos os textos começam por “Assim eu ouvi”, porque alguém ouviu o que ele dizia e transmitiu essa tradição oral. São 84 mil pergaminhos! E logo a partir daí, começam as divisões, os grupos começam a escolher aquilo a que vão dar mais atenção, a tomar decisões, e formam-se escolas. Depois, dessas escolas budistas, vão formar-se escolas filosóficas, e não são todas iguais. Há pontos de vista diferentes. O budismo do sul da Ásia (Hinayana) é diferente do budismo do norte (Mahayana). Por exemplo, quando houve o primeiro encontro de mulheres budistas em Banguecoque (Tailândia), eu fui lá, e havia uma ordem de monjas que não podiam tocar em dinheiro, o que significa que não podiam sair do país. Andavam no transporte público coletivo, que é gratuito para monásticos, mas muitas coisas não podiam fazer por não poderem tocar em dinheiro, ficavam limitadas. Qual a interpretação Mahayana? “Não fique apegado ao dinheiro, o que não significa que não lhe possa tocar.” Ou seja, que não se deve ter o apego às coisas, mas também não aversão. Outro exemplo: um dia, um monge de uma ordem do sul da Ásia veio visitar-me no meu templo em São Paulo durante a tarde e eu tinha comprado sumo de uva, porque sabia que ele a essa hora não podia comer, mas um sumo poderia beber. Servi o sumo num copo, só que afinal ele não podia beber, porque não podia aceitar o copo que uma mulher lhe tivesse dado… Então, eu tinha de dar o sumo ao assistente dele, e o assistente é que lhe dava a ele. Porque é que Buda teria dado esta instrução? Porque um homem que faz o voto de celibato e de castidade é um ser sensível e pode ficar energeticamente perturbado se tocar numa coisa que uma mulher lhe deu? [Risos] Sendo que este voto, no Japão, nem existe… O que eu acho é que estas ordens que são muito rigorosas, ao pé da letra, acabam por impedir a pessoa de uma certa liberdade de vida.

 

7M – Desde que regressou ao Brasil, em 1995, tem tido um papel muito importante no crescimento do budismo, tendo fundado a Comunidade Zen Budista Zendo Brasil. No budismo, a mulher não é relegada para segundo plano, como ainda acontece noutras religiões?

No budismo, isso também ainda acontece… Se recuarmos ao início do budismo, na Índia, 600 anos antes de Jesus, vemos que Shakyamuni Buda dizia que as mulheres não podiam ser monjas. A primeira mulher a querer seguir a via monástica, depois de ter ficado viúva, foi Mahapajapati Gotami, a tia e mãe adotiva do próprio Buda – a mãe dele tinha morrido uma semana depois do parto – e ele não permitiu. Ele estava  numa sociedade em que as mulheres eram tocadas com a mão esquerda, porque era a mão com que se tocava nas coisas impuras. Mas Mahapajapati Gotami não desistiu e seguiu-o até Vesali, onde, durante uma palestra, o primo de Buda, Ananda, que era um dos seus principais discípulos, intercedeu por ela e levou Buda a aceitar que as mulheres pudessem ser consagradas como monjas. O que acontece quando o budismo sai da Índia e vai para a China, e da China chega ao Japão? Quem são os primeiros religiosos do budismo no Japão? Mulheres, duas mulheres nobres são as primeiras monjas, antes ainda de haver monges homens. Mas, depois, a ordem tornou-se completamente masculina e as mulheres foram relegadas ao papel de fazer e servir chá para os monges, lavar roupa, ajudar na cozinha… passaram a um plano de submissão, que correspondia ao que acontecia na sociedade japonesa naquela época. Só que, na Segunda Guerra Mundial, muitos monges tiveram de ir para a guerra e os templos ficaram vazios. E eu conheci uma senhora que se chamava Kojima Sensei, que nessa altura viajou pelo Japão inteiro, falando com as lideranças da nossa ordem e dizendo: “as mulheres têm que ter equidade, os templos estão vazios e há monjas que podem substituir os monges, elas podem fazer todos os sacramentos, não só ajudar nas cerimónias, elas podem ser as oficiantes”. E ela conseguiu isso. No dia em que ela veio ao meu mosteiro, eu olhei para ela e comecei a fazer reverências… E ela: “Não precisa! Não precisa!” [Risos] Era o meu ídolo. Ela dizia às monjas que lhe perguntavam porque é que ela não tinha ficado quieta, a meditar e a rezar, que nós temos uma inteligência feminina e um trabalho importante a cumprir.

 

7M – É uma coisa muito recente…

Sim, foi nas décadas de 40 e 50, nem há cem anos ainda. A ação dela foi muito importante. Mas não há ainda uma igualdade total. Geralmente, os templos femininos que são liderados por monjas são menores que os templos masculinos. O budismo é muito descentralizado, então não há um papa, mas dentro da minha ordem – Soto Shu – há dois templos-sede e depois há os mosteiros masculinos, e a seguir há o mosteiro feminino, que é pequeninho, lá em baixo. Até há bem pouco tempo, nunca tinha havido uma monja a dar formação a monges… Atualmente, a minha superiora, Aoyama Shundo Docho Roshi, é a primeira monja de toda a história do budismo que dá aulas aos noviços homens nos mosteiros. Ela tem 90 anos de idade. É um caminho que ainda está a ser aberto!

Ordenação da monja Coen, em 1983. Foto Direitos reservados

Monja Coen na cerimónia da sua ordenação, em 1983. “Não há ainda uma igualdade total” entre homens e mulheres no budismo, lamenta. Foto: Direitos reservados.

 

7M – Os dados mais recentes indicam que o budismo, apesar de ser uma minoria no Brasil, tem vindo a crescer nos últimos anos… Como interpreta essa evolução?

O budismo entra no Brasil através da colónia japonesa, em 1808. O Brasil prometia aos japoneses que eles teriam liberdade, uma terra muito fértil, e vieram muitos, principalmente do sul do Japão, eles que estavam a sair de uma série de guerras… Vieram trabalhar na lavoura, substituindo mão de obra escrava, e na verdade, quer eles quer os italianos, que também vieram nessa altura, quase foram escravizados nas fazendas onde trabalhavam. Com eles, trouxeram a sua religião. Mas como não era reconhecida e os brasileiros estranhavam – “Como é que não há Cristo nestas casas?” – e achavam que eles não prestavam, que eram do demónio, então estes japoneses viviam a religião às escondidas, nos seus quartos, onde tinham os seus pequenos altares. Depois, porque queriam sentir-se incluídos, começaram mesmo a batizar os seus filhos na Igreja Católica, e a criar comadres e compadres. Então temos uma segunda geração que ficou muito dividida. O cristianismo era a única religião permitida e todos nós sentimos necessidade da espiritualidade. Essa segunda geração da comunidade japonesa ficou com um pé aqui e outro lá. A terceira geração, e em diante, na sua maioria já são cristãos.

 

7M – Mas muitos destes novos budistas já não são descendentes da comunidade japonesa…

Exato. Nos últimos anos, houve uma procura muito grande do budismo porque a religião cristã está desgastada, e com a questão dos abusos houve também um desacreditamento. Vieram os novos evangélicos com uma força muito grande, prometendo dinheiro, sucesso profissional, sair dos vícios… e o budismo entrou na meditação. Também acho que a pandemia fez as pessoas ficarem muito sozinhas em casa e começarem a procurar meios de se acalmar, alguma coisa nova para fazer, e em muitos casos essa coisa nova foi a meditação. Descobriram o budismo, acharam interessante, quiseram saber mais. A pandemia é muito responsável por isto, mas o budismo já estava a crescer antes, porque havia uma procura do autoconhecimento. As pessoas aproximam-se porque querem entender a verdade, saber o significado da existência, o que é a vida, o que é a morte, o que chamam de Deus, dar sentido àquilo que os avós ou os pais ensinaram…

 

7M – No seu caso, descobriu o budismo quando começou a trabalhar como jornalista!

Sim, foi o jornalismo que me levou à procura da espiritualidade… Ser jornalista abre o olhar e, no fundo, é fazer aquilo que Buda diz: “ver o que é, tal como é”. Não com as cores que eu pinto por cima, mas o que está por trás disso. O jornalista de verdade é isso que procura: o que é que realmente está a acontecer, porque é que isso se deu assim. E foi no meu trabalho como jornalista que, ao ver tanta desigualdade social, percebi que alguma coisa estava desequilibrada no mundo. E perguntei: “será que não existe um meio de equilibrar isto?”. E foi aí que eu fui procurar nas religiões: “será que é possível fazer transformações que não sejam violentas?”.

Monja Coen. fotografada a 27 de outubro de 2023, no Hotel Vip Executive em Lisboa. Foto Clara Raimundo7MARGENS

Para a monja Coen, “ser jornalista abre o olhar e, no fundo, é fazer aquilo que Buda diz: ‘ver o que é, tal como é'”. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

7M – Foi também nessa altura que tentou o suicídio…

Sim, também por me confrontar com a realidade da dor, da violência, dos abusos que existem; e porque eu própria estava num relacionamento abusivo com um jovem jornalista, que era inteligentíssimo, mas bebia muito e tinha muitas mulheres… Foi todo esse choque de entrar em contacto com a realidade e ela não ser aquilo que vemos na televisão, não ser aquilo de que ouvira falar. Foi o estar junto a essas pessoas que estão em sofrimento, que estão com fome, na miséria. Eu pensava: “Não é possível… Nós não fazemos nada por isto?”. Eu era muito jovem, tinha 19, 20 anos e nessa altura nós queremos mudar o mundo!

 

7M – O que é que a monja Coen de hoje diria à Cláudia jornalista de então?

“Respira!” [Risos] “E inspira outras pessoas, com os teus textos, as tuas reportagens…”

 

7M – Porque o jornalismo também pode ajudar a mudar o mundo?

Sem dúvida! Fui fazer uma vez uma reportagem com um jovem brasileiro que tinha ido para o Vietname e que me disse que tinha sido ótimo, que ganhou bem no exército americano e que por isso até pôde construir uma casa quando voltou para o Brasil. E eu escrevi isso. E um jornalista mais antigo chamou-me e disse-me: “Fizeste uma apologia da guerra”. Eu fiquei muito surpreendida, porque não tinha noção do que estava a fazer, só escrevi aquilo que me disseram… E ele então explicou: “Porque é que não fizeste uma coluna ao lado a dizer quantas pessoas morreram nesta guerra, porque é que não contaste o que foi esta guerra? A pessoa que entrevistaste não esteve na frente da guerra, esteve na retaguarda… ganhou um bom dinheiro e voltou para o Brasil dizendo que é bom ir para a guerra…” Então, essas foram as lições que eu aprendi como jovem jornalista, com um grupo de jornalistas mais velhos que me faziam ver o que eu não estava a ver. O papel do jornalismo é essencial, e é importantíssimo transmitir a verdade, tanto quanto podemos, porque às vezes o nosso olhar também transfere valores e princípios… Acho que o jornalismo nos faz abrir a consciência, ter novos horizontes de perceção, para incluir tudo e todos. E aí dá-se uma mudança muito grande. Não há inimigos, não há pessoas que eu odeio ou que eu quero excluir, e posso entender até aquela pessoa que é tão abusiva… Porque é que é assim? Que educação teve ou não teve? O que não recebeu esse ser humano? Então não é alguém que eu quero exterminar… Não existem povos ou pessoas a serem exterminados, isso é um absurdo… Como entender essa História da Humanidade? Porque é que estamos parados ainda numa época tão antiga de grupos que se odeiam? Porquê? Um planeta lindo, maravilhoso, enorme, e estão todos à luta por um pedaço?

 

7M – A propósito de planeta maravilhoso, a importância de o protegermos tem sido também uma das suas grandes causas…

Sim, eu digo sempre que nós somos irmãos e irmãs de uma mesma família chamada humana. E essa família humana só existe porque existem árvores, porque existem rios, porque há chuva, porque existe uma harmonia no clima… que está a ser quebrada. E nós, que somos tão pequenininhos frente ao planeta, estamos a modificar as condições de vida humana. O planeta é maior do que nós. Mesmo que acabemos com a espécie humana, o planeta vai continuar, até que também ele se dissolva, porque tudo o que começa termina. Quando? Não sei. Vão ser milhões de anos… Mas que nós possamos dar condições de vida na Terra para nós, para a nossa espécie. E a nossa espécie não vive sem as outras. Há uma palavra que o monge budista vietnamita Thich Nhat Than usava e de que eu gosto muito, que é “interser”. Nós não somos, intersomos. Nós só existimos em relação a tudo o mais que existe. É uma teia, uma trama. E se tirarmos um ponto dessa trama, fica um buraco. E a nossa condição de vida piora. Então como é que estamos a abusar dos povos originários, aqueles que dizem “a Terra está viva”? Precisamos de reconhecer toda a natureza como a nossa família, não como inimiga e não para nos aproveitarmos. Maltratamos a Terra porque queremos ter lucros dela, deitamos mercúrio na Terra para obter ouro… Eu tenho feito uma campanha “Não usem ouro!”. Porque, se para obter o outro, prejudicamos a vida na Terra… Na Amazónia, colocaram tanto mercúrio nos rios que morrem os peixes, morre a vegetação, morrem os povos originários que comem peixe com mercúrio. Não pode ser. Isso é pensar pequeno, é miúdo, é egoico: “eu primeiro, a minha riqueza, o meu poder”… É por isso que eu digo que o despertar é importante. Sai do eu e entra no nós.  Abre esse olhar, expande e percebe que somos nós. E podes não ficar muito rico, podes não ser muito famoso, podes não ter uma posição política muito importante, mas trabalhar para esse bem coletivo vale mais que tudo. A minha proposta é essa. Sai desse lugar pequeno e percebe que o que nós fazemos, falamos e pensamos mexe na vida da Terra. Vamos mexer com mais carinho e cuidado?

Monja Coen. fotografada a 27 de outubro de 2023, no Hotel Vip Executive em Lisboa. Foto Clara Raimundo/7MARGENS

“Sai desse lugar pequeno e percebe que o que nós fazemos, falamos e pensamos mexe na vida da Terra. Vamos mexer com mais carinho e cuidado?”, propõe a monja Coen. Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

 

7M – No livro que acaba de lançar em Portugal, propõe vários contos e parábolas que ajudam a esse despertar… Se tivesse de escolher um para recomendar aos leitores do 7MARGENS, qual seria?

Eu estive em julho com a minha professora no Japão e foi ela que me contou uma das histórias que escolhi para incluir neste livro. Havia um professor muito famoso, que se chamava Joshu. Ele chegou até ao templo e havia uma ponte. Encontrou o mestre e perguntou: para que serve esta ponte? O mestre respondeu: “Passam burros, passam cavalos”. Era uma expressão antiga que significava “é aberto a todos”, tal como o Papa Francisco disse aqui em Lisboa: “a Igreja não tem alfândega”. Ou seja, entram todos, os saudáveis, os doentes, os crentes e os não crentes… todos. E a minha superiora, quando eu estive com ela, disse: “Aqui no mosteiro é a mesma coisa. Não sou eu que as desperto, não sou eu que faço as noviças ficarem seres melhores, elas fazem-me uma pessoa melhor”. Então, quando percebemos que cada pessoa que encontramos tem alguma coisa que pode fazer-nos melhor, é diferente de dizermos “eu estou a melhorar o mundo”, porque isso é o ego, é a dualidade, e nós queremos é chegar ao uno, que é o que acontece no encontro inter-religioso. E lembro uma coisa que o Dalai Lama uma vez disse: “Não quero que se tornem todos budistas tibetanos… Se vocês são cristãos, que sejam excelentes cristãos. Mas procurem o verdadeiro ensinamento.”

 

Livro 108 Contos e Parábolas Orientais, Monja Coen, imagem Editorial Planeta

O livro “108 Contos e Parábolas Orientais” já está à venda em Portugal, com a chancela da Planeta.

 

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