Monstros lendários: a rainha corona, um bicho, um xitukulumukumba e uma zuzu são momomos

| 19 Mai 20

A geração dos anos 40 cresceu intimidada pelos pais, sobre a existência de um bicho que nunca chegou a ver. Mas foi um bicho que a educou de forma rígida. Viveu o tempo todo obedecendo cegamente aos pais, em tudo o que fosse necessário. Não foi uma geração questionadora, pelo menos no que a assuntos domésticos dizia respeito. Uma palavra dos seus pais era de ordem.

Uma geração a seguir a essa, a dos anos 55/60, admite que esse bicho se chamava xitukulumukumba, uma palavra ronga. O único equivalente que apresentam sobre esse imaginado animal é o bicho de sete cabeças. Os rongas dizem nunca terem visto o xitukulumukumba, mas assombrava-os. E era pensando na sua vinda que faziam tudo para acatarem com as ordens que lhes eram dadas em casa.

Uma outra geração, a dos anos 70, era toda obrigada a portar-se “muito bem”, sob pena de aparecer o momomo para a levar consigo. E, segundo constava, ele levá-los-ia para muito longe e nunca mais voltariam a ver seus papás; pelo que, tomar a sopa toda; acabar a papa toda; arrumar bem os brinquedos, depois de brincar e ir para cama cedo era um must, colocava-a muito longe da possibilidade de ser levada pelo momomo.

E cumpria, porque o momomo estava em todo o lado, poderia chegar tão de repente, que o melhor que tinha a fazer, era evitar que aparecesse perto dela. A altura mais dura de enfrentar o momomo era à noite, porque não tinha os papás por perto, por isso é que ia deitar cedo, em cumprimento de todas as normas e protocolos necessários: jantar, lavar os dentes, dizer boa noite aos papás, etc, etc…e escapava do bicho papão. Não a apanhava!

Há dias reli o conto Malidza, da autoria de Carneiro Gonçalves e, em conversa com o escritor moçambicano Adelino Timóteo, sobre o assombro que a “rainha corona” nos tem trazido, e sobre Malidza, personagem do mencionado conto, referi-me ao momomo, ao xitukulumukumba e lembrei-lhe a deslumbrante serpente bíblica que seduziu Adão e eu perguntava-lhe se nós os moçambicanos não teríamos a “nossa”. Ao que ele me respondeu: lembra-te da zuzu. E acrescentou:

Zuzu é uma criatura lendária, também demónio, que habita o Zambeze. Zuzu pode ser vista como contraponto da serpente bíblica, pois acorda os instintos masculinos. No conto Malidza apresenta-se com o mesmo ascendente cristão, da sexualidade, iludindo Kilomko, assumindo Malidza a transfiguração do mesmo demónio e da mesma criatura lendária, que convida Kilomko a divertir-se, ao encanto dos seus atributos. Zuzu é na mitologia uma rainha, um ser com qualidades extraordinárias e que se incarna na Malidza, é também um espírito que está dentro dela e a comanda, levando ao suplício o ser que a incorpora. Vive no Rio ou no lago. Zuzu torna assim Malidza uma figura ambígua, incomum aos seres mortais, com os seus atributos. O seu universo é poético, também metafísico, transportando-nos e ao leitor, para essa dimensão. A figura em referência enquadra-se na tradição, e os ritos respondem que se deve imunizar com um anjo benigno, para evitar a fatalidade. E responde os cânones da modernidade, pois alertando do perigo das mulheres com atributos divinais, dentro do etno-espaços senas, do vale do Zambeze.

Xitukulumukumba, zuzu e momomo escondem os tabus que demarcavam a fronteira psicológica e social entre os velhos e os novos, entre pais e filhos. Entretanto, o facto de o escritor acabado de mencionar se ter referido à modernidade, levou-me a questionar qual é que seria o momomo destes dias e perguntei a algumas mães com crianças, que me responderam que actualmente têm evitado assustar as crianças. Já não se educa pelo medo, disseram-me elas. Fala-se com elas e tem que se apresentar argumentos convincentes. Elas “já nascem espertas”.

Por acreditar que o imaginário das crianças é povoado por alguns “monstros lendários” que as mesmas temem, perguntei às senhoras de que é que os filhos têm receio. De um modo geral, disseram-me ouvir as crianças falarem que o novo coronavírus tem sido algo que as assusta muito. Algumas delas deixaram de chuchar no dedo e têm receio de ir à escola ou à escolinha (infantários), pelo horror de se encontrarem com “a corona”. Além disso, disse-me uma delas, que encontrou a filha a brincar com a sua boneca e a dizer: “se não comes, vou chamar aquela corona que faz a minha mãe tomar banho de água fria, lá no quintal, quando chega à casa. Queres tomar banho de água fria lá fora? Então come!”

Acreditando que esse seria o “bicho” que assombra apenas as crianças da cidade, dei uma volta aos arredores da cidade de Maputo e perguntei a alguns meninos se conheciam “a corona”. E responderam-me que era um “bicho feio” que não os deixava brincarem na rua, com os seus amiguinhos. Até porque não era um bicho que prejudicava apenas as crianças, uma vez que “os tios da zona” já não voltavam tarde e felizes, porque a polícia prometia prendê-los, para irem ficar com “a corona” e não a levarem para casa. “Não se brinca com “a corona”, tia! Ele pode-te “agarrar”. “Vai para casa, a tua mãe deixa-te sair?”

Oxalá que, daqui a várias gerações, falar sobre o vírus corona seja o mesmo que fazer referência ao xitukulumukumba e a zuzu, que são momomos de outros tempos e que este habite o imaginário das crianças de hoje, tal como os outros “bichos” o fizeram nas crianças de antanho. Porque ninguém, nenhuma geração merece saber que existiu um vírus real que dizimou a humanidade.

 

Sara Jona Laisse é docente na Universidade Politécnica e integra o Graal-Movimento Internacional de Mulheres Cristãs.

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