Monte Moriá

| 1 Jul 2021

Penedo ,“beijo eterno”, Sortelha

“Contemplando a beleza da criação ganha fé. Abraão foi convertido pela beleza.” Foto: Penedo conhecido como “beijo eterno”, na zona de Sortelha (Sabugal).  © Sofia Távora.

 

Uma das passagens mais conhecidas do Antigo Testamento é a do sacrifício de Isaac (Génesis, 22; 1-19). Depois de lhe conceder um filho, Deus pede a Abraão que o ofereça em sacrifício como prova da sua lealdade. No preciso momento em que Abraão se preparava para degolar o filho, cumprindo assim o que lhe fora ordenado, um “mensageiro do Senhor” intervém e oferece-lhe um carneiro para ser oferecido em sacrifício no lugar de Isaac, uma vez que a prova máxima da lealdade de Abraão fora feita.

Esta curta passagem está repleta de iscos para o leitor. Num primeiro momento, causa-nos desassossego e, talvez, até uma certa revolta: como pode exigir-se semelhante coisa? Pedir a um pai que pelas próprias mãos mate o filho que tanto ama é de uma crueldade tremenda. Que bitola de justiça tem este deus ao pedir o sacrifício de uma vida inocente? Mais ainda, se este filho foi um dom de Deus a Abraão porque pede agora que o sacrifique? E a riqueza do texto está na nossa inquietação que parece contrastar com a serenidade de Abraão.

De repente, surge um mensageiro de Deus com este pedido inusitado. A reação de Abraão foi de um assentimento imediato; ainda assim, no momento em que terá ido chamar Isaac, ao recolher a lenha, no caminho até à montanha, o que terá passado pela cabeça deste homem? A tristeza e, quem sabe, talvez até à mágoa hão-de ter surgido. O diálogo com o filho, no caminho até à montanha, revolve-nos as entranhas. A narrativa inspira ternura. Isaac chama o pai. Começa por chamá-lo, sem dizer ao que vai. Abraão responde com naturalidade ao chamamento, e depois, faz uma das mais belas e fortes profissões de fé: “Deus proverá quanto à vítima para o holocausto.” Imaginando nós o sofrimento deste pai, esta resposta só pode ser o reflexo de uma fé estrondosa.

Abraão teria a fé de que Deus não o deixaria desamparado num momento como aquele. Não mentiu a Isaac, que, ignorando nós a idade que teria, pode ter feito a pergunta com a estranheza de uma criança inocente, ou com algum temor, adivinhando o que se poderia passar.

O mensageiro surge a tempo de evitar a morte de Isaac e traz um cordeiro para o substituir. Não houve um momento de fuga que esperávamos que Abraão tivesse, não se desviou em nada do que lhe fora ordenado e a sua predição cumpriu-se: Deus providenciou a vítima para o holocausto. O momento de maior sofrimento é levado até ao fim com a confiança de que Deus haveria de agir.

O gesto de reconhecimento de Abraão ao chamar àquele lugar “o Senhor providenciará” (Génesis, 22; 14), é a mais bela síntese da vida deste homem. Uma vida assente na confiança na providência.

Abraão é chamado pai dos crentes ou pai na fé, e a designação não podia ser mais acertada. Abraão é um exemplo estruturante para a fé de cada crente. Atente-se a um aspeto da maior importância: as três grandes religiões monoteístas têm as suas raízes neste homem. Esse facto ilustra a própria providência do Senhor junto dos seus fiéis. A estes três grupos é dado um mesmo pai na fé.

A vida de Abraão, à imagem da nossa, teve alegrias e profundos sofrimentos. Abraão e Sara vivem a tristeza de não ter filhos durante longos anos. O desespero e a falta de fé em relação à vida devem ter assaltado este casal diversas vezes. Abraão atua como se tudo dependesse de si só e crê como se tudo dependesse apenas de Deus. Que melhor modelo de fé poderíamos ter?

Nesta sede, recordemos ainda que este pai na fé teve diversos momentos de dúvida. Começou por não acreditar que Deus lhe daria descendência e revolta-se com isso (Génesis, 15; 5). Face à incredulidade de Abraão, Deus tem um dos gestos mais comoventes de toda a narrativa bíblica: convida-o a olhar para as estrelas e tentar contá-las para lhe mostrar quão numerosa seria a sua descendência. Abraão acredita depois de ver as estrelas. Contemplando a beleza da criação ganha fé. Abraão foi convertido pela beleza.

A fé na providência divina deixa-nos sempre a mãos com o dilema da existência do mal. A história de Abraão está também ela repleta de desafios e momentos de sofrimento, a certeza que terá acompanhado Abraão nas horas de prova era saber que Deus estava junto dele.

A fé e a confiança são muito mais exigentes que a desconfiança e descrença. Todos os motivos nos assistem para desconfiar, muito mais difícil é acreditar contra todas as aparentes evidências. O ato de fé mais profundo é, face aos momentos de desespero, confiar na providência divina e, com essa âncora, agir como se a ação de Deus não existisse. Parece paradoxal, mas a fé enraizada está em perseverar e agir como se nada nos pudesse salvar, sabendo-nos previamente salvos por uma providência que, sem que saibamos como e quando, surge sempre.

 

Sofia Távora é jurista e voluntária no Serviço de Assistência Espiritual e Religiosa do Hospital Dona Estefânia.

 

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