A Abadia de Montserrat, a cerca de 50 quilómetros de Barcelona, terá na próxima segunda-feira um dia de celebração do Abade Oliba, bispo, monge e fundador do mosteiro, inserido nas celebrações dos mil anos da abadia, que decorrem até final de 2025.
Diversas intervenções, nomeadamente de vários abades da Ordem de São Bento, aprofundarão o tema dos valores beneditinos e o seu contributo para a paz, desde o Abade Oliba e as suas Assembleias de Paz e Tréguas até à aplicação destes valores a casos geopolíticos modernos. Mas quem não dá as boas-vindas ao rei Filipe VI é a Liga Espiritual da Madre de Deus de Montserrat, uma espécie de liga de amigos do mosteiro, que num comunicado tornado público esta semana afirma rejeitar a “presença de Felipe VI” na “montanha sagrada” da Catalunha.
“Não podemos esquecer o seu abominável discurso de 3 de Outubro de 2017, no qual, sem qualquer necessidade ou obrigação institucional, justificou a repressão das forças de segurança espanholas contra o povo catalão que, democraticamente, apenas desejava exercer o direito universal ao voto no dia 1 de Outubro”, diz o comunicado, numa referência ao discurso em que o rei criticou o referendo catalão pela independência. “Um direito protegido pela Doutrina Social da Igreja”, acrescenta o comunicado.
O comunicado termina a pedir que os catalães mostrem “de forma clara e pacífica o [seu] repúdio pela visita de Felipe VI a Montserrat”.
Há dias, numa entrevista ao La Vanguardia, o actual abade, padre Manel Gasch i Hurios, demarcou-se dessa posição, defendendo que a regra beneditina prescreve que todas as pessoas devem ser acolhidas como se fossem o próprio Cristo. Haverá, no entanto, alguns monges que também contestam a presença real. Pelo menos, a avaliar pela mensagem que acompanha a divulgação do comunicado: “Conscientes de que, como cristãos, e ainda mais como monges beneditinos, é nossa vocação acolher até aqueles que mais nos perseguem (como é o caso…), é necessário dar a conhecer que nem todos os membros da Comunidade aceitam submeter-se a esta visita (que será tão bem acompanhada como a de qualquer peregrino) nos termos que terão lugar no dia 23 de Junho de 2025, por ocasião do milénio do nosso Santuário/Mosteiro”, diz o texto.
“Esperamos que esta visita sirva para lhes fazer compreender [aos reis] o espírito do nosso povo, a partir do acolhimento que lhes será dado como cristãos e… como catalães”, conclui a mensagem de apresentação do comunicado.
Irradiação espiritual, afirmação catalã

“Moreneta”, a imagem da Virgem venerada no mosteiro de Montserrat. Foto: Direitos reservados.
O mosteiro de Montserrat foi, ao longo dos séculos, um centro de reflexão e irradiação espirituais, mas também de forte afirmação da língua e cultura catalãs. E nas celebrações do milénio um conjunto de grupos, associações e instituições catalãs rumaram a Montserrat para ali assinalar também a ligação profunda do mosteiro à sociedade civil. Um dos exemplos foi o próprio clube de futebol de Barcelona, cujos jogadores, responsáveis e adeptos tiveram um dia de peregrinação ao mosteiro. E as associações das pirâmides humanas, populares na Catalunha, também por ali têm passado, tal como os “Gegants de Viserta”, que pela primeira vez participaram no ofertório de uma missa, subindo ao altar e executando uma das suas danças antes de oferecer um ramo de flores à “Moreneta”, a imagem da Virgem venerada no mosteiro.
As invasões francesas da Península Ibérica passaram também por Montserrat em 1811, tendo uma boa parte da importante biblioteca sido destruída. Doze anos antes, Vargas Ponce, um dos mais ilustres visitantes do mosteiro na época, contava que havia em Montserrat 158 manuscritos e incunábulos anteriores a 1500 e mais uns 8500 livros posteriores a essa data. Os exemplares mais antigos são tábuas cuneiformes de 1500 a 2000 a.C. Hoje, o catálogo da biblioteca regista 350 mil títulos, tudo informatizado e uma boa parte consultável na internet.
O Llibre Vermell de Montserrat foi uma das preciosidades sobreviventes à passagem destruidora do exército de Napoleão. A obra conta a história da abadia e regista cantos dos séculos XIV e XV, já gravados por artistas de renome como Jordi Savall ou o Ensemble Micrologus, traduzindo a importância da música no mosteiro, na relação com a cultura local, com textos em catalão e occitano, além do latim. No campo musical, Montserrat mantém a Escolania, coro integrado por rapazes entre os 8 e os 14 anos, que existe pelo menos desde o século XIV.
Na próxima segunda-feira, Filipe VI presidirá ao dia de debate organizado pela abadia em homenagem ao seu fundador de há mil anos – efeméride que está a ser assinalada pelo mosteiro até ao próximo dia 8 de Dezembro. O tema central será o contributo da espiritualidade e dos valores beneditinos para resolver situações de conflito, na linha do que fez o bispo e abade Oliba, que promoveu um conjunto de Assembleias de Paz e Tréguas para resolver conflitos na região.
Além de Filipe VI e da rainha Letícia, que presidirão ao debate (e que o rei encerrará), participam também representantes do tecido económico e empresarial da Catalunha e Espanha, o abade do mosteiro e da Basílica de São Paulo Fora de Muros, de Roma, o abade-presidente da Congregação Sublacense-Cassinesa (Subiaco e Monte Cassino) e o abade emérito de Montserrat, Josep Maria Soler, que marcou fortemente a abadia nas últimas décadas.

Abadia homenageia o seu fundador de há mil anos – efeméride que está a ser assinalada pelo mosteiro. Foto: Direitos reservados.
Há anos que Montserrat promove conferências e debates sobre a forma como a Regra de São Bento pode ser aplicada na esfera empresarial, reflectindo sobre virtudes e conceitos úteis para “uma administração sensata e em prol da estabilidade e do desenvolvimento social sustentável”.










