“O Sol do Futuro”

Moretti para sempre ou a arte de saber envelhecer

| 2 Nov 2023

“Percebemos, desde logo, que este O Sol do Futuro regressa ao passado para nos deixar – com uma nostalgia nunca disfarçada – um caminho para diante, magnificamente significado naquela “procissão” final carregada de esperança.” Imagem do trailer do filme o Sol do Futuro

 

Desde o meu primeiro Moretti (Querido Diário) – e não os vi todos – que fiquei amarrado a esta maneira minimalista e palavrosa de fazer cinema; àquelas circum-reflexões repetidas, como quem procura encontrar – obsessivamente – uma saída. Para o futuro. Seja ele mais pessoal, familiar ou político.

Percebemos, desde logo, que este O Sol do Futuro regressa ao passado para nos deixar – com uma nostalgia nunca disfarçada – um caminho para diante, magnificamente significado naquela “procissão” final carregada de esperança.

Giovanni (o nome próprio de Moretti, Nanni é o diminutivo) é um realizador um pouco bloqueado (também pela falta de financiamento) para fazer o filme que tem em mãos. Estamos em 1956, quando toda a gente estava suspensa da resposta que a União Soviética iria dar à revolta acontecida na Hungria, e Giovanni está num bairro popular, na importante célula comunista local, no momento em que esse bairro passa a ter luz eléctrica.

As perguntas que estão por detrás deste O Sol do Futuro (e às quais Moretti já se esforçou por responder, por exemplo, em Palombella Rossa – onde aparecia reiteradamente a pergunta “o que é ser comunista?”) tentam imaginar como poderia ter sido diferente a vida dos italianos se o dirigente do Partido Comunista Italiano da altura tivesse sido capaz de romper com a União Soviética.

Moretti sabe, como nós sabemos, que é impossível responder a essas perguntas. Ainda assim vai andar à volta delas, angustiado, misturando o argumento do filme com as dificuldades do realizador, que incluem também a vontade da sua mulher de pedir o divórcio. E vai reescrever a História. A ficção permite essa ousadia.

Tudo isto feito a la Moretti, quer dizer, com muita ironia (“mas houve realmente comunistas, em Itália, fora da Rússia?”, pergunta um assistente, logo no início), muito sarcasmo (a capa certa do jornal L’Unità), muito humor (a cena hilariante da Netflix), muita rezinguice e rabugice (quando se intromete no modo como outro realizador está a filmar), e muitas, muitas palavras (Sono solo parole é mesmo o título de uma das belas canções do filme). No fundo, trata-se de um filme (de um realizador) que, situando-se no passado, o que quer questionar e entender é o presente do mundo, da sociedade, e também o do cinema.

Como escreveu Inês N. Lourenço (DN, 28 de Setembro de 2023): “É um filme sobre um momento de crise da identidade comunista, bem entendido, que dividiu quem condenava a agressão da URSS e quem não ousava quebrar a lealdade. Da mesma maneira que O Sol do Futuro é um filme sobre a crise de um cineasta, que, perante as novas lógicas de produção, e perante um argumento que a certa altura começa a misturar-se com a vida (a política versus o amor, etc.), não sabe que posição tomar – até para poder ter o filme acabado.”

Mas quando tudo parecia sem saída, o realizador consegue o financiamento e vai alterar tudo, o argumento e a História, uma espécie de happy end: O Sol do Futuro.

«No fundo, O Sol do Futuro é a história de um homem que aceita a idade que tem e que segue a sua estrada. Não perde a verve e a paixão. Nem vende a alma.» (Francisco Ferreira, Revista do Expresso, 29/09/2023).

E isso, convenhamos, não é coisa pouca…

Título original : Il sol dell’avvenire
Género : Comédia Dramática
Ano : 2023
Realização : Nanni Moretti
Elenco : Margherita Buy , Nanni Moretti , Mathieu Amalric , Silvio Orlando , Barbora Bobulova
País(es) : Itália
Duração : 95 min
M/12

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

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